Sim, o guerreiro viking enterrado com armas era realmente uma mulher

Por , em 21.02.2019

Uma ilustração de como a guerreira poderia ter parecido.
Crédito: Tancredi Valeri

Um estudo sueco causou espanto e polêmica quando afirmou que um antigo guerreiro viking que recebeu um enterro de prestígio, com armas, itens que representavam status militar e dois cavalos, era, de fato, uma mulher.

A descoberta, realizada em 2017, foi descrita em um artigo na revista científica American Journal of Physical Anthropology.

A enxurrada de perguntas do público e de outros acadêmicos pegou os cientistas de surpresa: eles tinham certeza de que haviam analisado os ossos certos? Havia mais de um corpo na tumba, o qual um era certamente de homem? E se o sexo do guerreiro era de fato feminino, é possível que ele fosse transexual?

Agora, em um novo artigo publicado na revista Antiquity, os pesquisadores reafirmaram sua conclusão, abordando todas as questões levantadas.

Viking, guerreiro… Mulher

O falecido arqueólogo Hjalmar Stolpe descobriu a tumba em 1878 em Birka, um assentamento viking que floresceu de 750 a 950 no que hoje é a região centro-leste da Suécia. O local é cercado por vários cemitérios contendo milhares de restos humanos e artefatos.

A tumba analisada estava aninhada em uma câmara subterrânea de madeira, e o corpo dentro estava elegantemente vestido. Os restos de uma égua e de um garanhão descansavam em uma das extremidades da câmara. Armas afiadas cercavam o morto: uma espada embainhada, um machado, uma faca de combate, duas lanças, dois escudos, 25 flechas e uma pequena faca de ferro.

Igualmente impressionante foi a descoberta de uma bolsa com três dados e 28 peças de jogo no colo do esqueleto. Além disso, o caixão era a cova mais ocidental em Birka, originalmente marcada com uma grande rocha, que teria sido visível para todo o assentamento.

Stolpe presumiu que o túmulo resplandecente com tantas armas e desprovido de artefatos associados a mulheres (como joias ou equipamentos de tecelagem) pertencia a um homem. Mas, na década de 1970, uma análise anatômica dos ossos sugeriu que eles pertenciam a uma mulher.

Um segundo exame, feito em 2016, sugeriu a mesma coisa. Assim, para o estudo de 2017, a arqueóloga Charlotte Hedenstierna-Jonson, da Universidade de Uppsala, na Suécia, e seus colegas fizeram uma análise genética, concluindo que o “guerreiro” tinha dois cromossomos X e, portanto, era biologicamente feminino.

A tumba como era pouco antes de ser fechada nos tempos Viking. Crédito: Þórhallur Þráinsson

Confere

Para acalmar as dúvidas, os cientistas explicaram como eles têm certeza de que se trata de apenas um indivíduo na tumba, e mulher.

Cada um dos ossos do túmulo distinto, conhecido pelos arqueólogos como Bj.581, foi individualmente rotulado, inclusive os ossos dos cavalos e a maioria dos artefatos encontrados na câmara. Stolpe também manteve anotações detalhadas e diagramas durante a escavação.

A equipe ainda checou os ossos Bj.581 contra registros de outros enterros próximos. Nenhum parece ter sido erroneamente retirado de outras sepulturas. Além disso, eles testaram o DNA em locais diferentes, como o osso do braço esquerdo e de um canino esquerdo, descobrindo que as duas fontes vieram da mesma pessoa.

A análise genética revelou que os ossos tinham cromossomos XX. Além disso, análises anatômicas dos ossos do quadril indicam que o indivíduo é biologicamente feminino e tinha entre 30 e 40 anos quando morreu.

Ok, era uma mulher. Mas era realmente uma guerreira?

A interpretação do guerreiro nunca foi contestada até que foi revelado que o enterrado era uma mulher.

Enquanto o indivíduo de fato não tem lesões conhecidas nos ossos, como outros guerreiros que foram para a batalha, foi enterrado em uma área que reforça a interpretação de que era uma guerreira – situada próxima ao portão do forte da colina de Birka e adjacente a duas outras tumbas contendo numerosas armas.

As armas funcionais enterradas com a mulher também são sugestivas de uma guerreira, embora seja impossível saber se esses itens eram realmente seus ou refletiam suas atividades. Por exemplo, talvez esses artefatos não pertencessem a ela na vida. Alternativamente, ela pode ter vivido simbolicamente como guerreira.

Mas, neste caso, a interpretação mais direta é a mais provável: a mulher era uma guerreira. Segundo os pesquisadores, muitas outras interpretações do tratamento funerário e do gênero são possíveis, mas a Navalha de Occam – um princípio lógico e epistemológico que afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve assumir a menor quantidade de premissas possível – sugere que a conclusão mais óbvia é essa.

“Em nossa opinião, Bj.581 era o túmulo de uma mulher que vivia como guerreira profissional e foi enterrada em um ambiente marcial como um indivíduo de classe”, escreveram os cientistas em seu artigo.

Poderia essa mulher ser uma transexual?

Ok, a guerreira era biologicamente feminina. Mas será que vivia como homem?

Desde a publicação do estudo em 2017, tanto acadêmicos quanto o público sugeriram que se tratava de uma pessoa transexual. No entanto, essa interpretação é problemática, porque “transgênero” é um “termo politizado moderno, intelectual e ocidental” e não pode ser aplicado a pessoas antigas de diferentes culturas, argumentam os pesquisadores.

Dito isso, “há muitas outras possibilidades em um amplo espectro de gênero, algumas talvez desconhecidas para nós, mas familiares para as pessoas da época. Não descartamos nenhuma delas”, escreveram. Por exemplo, essa pessoa pode ter assumido o papel social de um homem, mas mantido sua identidade feminina.

Os pesquisadores acrescentam que essa pessoa pode não ser um emblema dos sistemas de gênero viking. Em vez disso, é um relato único de um caso de uma mulher viking enterrada com parafernália de guerreira. [LiveScience]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (24 votos, média: 4,54 de 5)

Deixe seu comentário!