Corpo humano “desliga” na Zona da Morte do Everest

Por , em 30.05.2019

Foto de Nirmal Purja

O Monte Everest tornou-se notícia nesta semana após fotos de “engarrafamentos” no topo da montanha serem reveladas. Essa superlotação resultou na morte de pelo menos 11 pessoas na semana passada. Essa informação e imagens de corpos de pessoas que tentaram escalar a montanha e permaneceram para sempre por lá, como mórbidos pontos de referência, levantam a questão: como e por que as pessoas morrem escalando montanhas – especialmente montanhas tão altas como o Everest?

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A verdade é que o corpo humano não consegue funcionar corretamente acima de uma certa altitude. Nossos corpos foram feitos para viver no nível do mar, onde os níveis de oxigênio são adequados para nossos cérebros e pulmões. Se os mais aventureiros entre nós quiserem escalar o Monte Everest, o pico mais alto do mundo, a 8.848 metros acima do nível do mar, eles terão que enfrentar o que é conhecido como “Zona da Morte” – a altitude acima de 8.000 metros, quando há tão pouco oxigênio que o corpo começa a morrer, minuto a minuto, célula por célula.

O portal Business Insider fez uma matéria a respeito do tema, conversando com especialistas para entender o que acontece com o corpo humano quando tentamos escalar a montanha mais alta do mundo.

“Na Zona da Morte, os cérebros e os pulmões dos alpinistas estão famintos por oxigênio, o risco de ataque cardíaco e derrame aumenta, e a capacidade de julgamento e tomada de decisões rapidamente fica prejudicada. Ao nível do mar, o ar contém cerca de 21% de oxigênio. Mas quando os seres humanos alcançam altitudes acima de 3.500 metros – onde os níveis de oxigênio são 40% mais baixos – isso causa um grande impacto em nossos corpos”, afirma o texto.

Jeremy Windsor, médico que escalou o Everest em 2007 como parte da Expedição Caudwell Xtreme Everest, é citado no texto por ter dito a Mark Horrell, blogueiro que escreve sobre o Everest, que amostras de sangue de quatro montanhistas na Zona da Morte revelaram que eles estavam sobrevivendo com apenas um quarto do oxigênio necessário ao nível do mar. “Estes números eram comparáveis a aqueles encontrados em pacientes à beira da morte”, compara Windsor.

Sem ar

A 8 mil metros acima do nível do mar, o ar tem tão pouco oxigênio que, mesmo com tanques de ar suplementares, pode parecer “correr em uma esteira e respirar com um canudinho”, como descreve o montanhista e cineasta norte-americano David Breashears.

Essa falta de oxigênio tende a resultar em inúmeros riscos para a saúde. Quando a quantidade de oxigênio no sangue cai abaixo de um certo nível, a freqüência cardíaca sobe para 140 batimentos por minuto, aumentando o risco de um ataque cardíaco.

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Os alpinistas precisam dar tempo aos seus corpos para se aclimatarem às condições no Himalaia antes de tentarem chegar ao cume do Everest. As expedições geralmente fazem pelo menos três viagens até a montanha a partir do Campo Base do Everest, que já fica a uma altura grande, cerca de 5.300 metros, subindo alguns milhares de metros a cada viagem, antes de atacar o topo.

Em condições adversas, nosso corpo se adapta. Ao longo de semanas, o corpo começa a produzir mais hemoglobina (a proteína dos glóbulos vermelhos que ajuda a transportar o oxigênio dos pulmões para o resto do corpo) a fim de compensar a mudança de altitude. Mas o excesso de hemoglobina pode engrossar o sangue, tornando mais difícil para o coração bombeá-lo pelo corpo. Isso pode levar a um derrame ou um acúmulo de líquido nos pulmões, uma condição chamada de edema pulmonar de altitude (HAPE).

Os sintomas incluem fadiga, sensação de sufocação iminente à noite, fraqueza e tosse persistente, provocando líquido branco, aquoso ou espumoso. Às vezes a tosse é tão grave que quebra ou separa as costelas. Os alpinistas com HAPE têm sempre falta de ar, mesmo quando estão em repouso.

Na Zona da Morte, o cérebro pode começar a inchar devido à falta de oxigênio, causando o edema cerebral de alta altitude (HACE), que é o HAPE para o cérebro. Esse inchaço pode desencadear náuseas, vômitos e dificuldade para pensar e raciocinar. Um dos maiores fatores de risco a 8 mil metros é a hipóxia, falta de circulação adequada de oxigênio em órgãos como o cérebro. Isso porque a aclimatação às altitudes da Zona da Morte não é possível, segundo o especialista em altitude e médico Peter Hackett, em entrevista à rede americana PBS.

Um cérebro com falta de oxigênio significa que os escaladores às vezes esquecem onde estão, entrando em um delírio que alguns especialistas consideram uma forma de psicose de alta altitude. O julgamento dos alpinistas hipóxicos fica prejudicado, e eles são conhecidos por fazer coisas estranhas, como começar a se despir ou conversar com amigos imaginários.

Outros possíveis perigos incluem perda de apetite, cegueira da neve e vômito

Julgamentos prejudicados e falta de ar não são as únicas coisas com as quais os alpinistas de alta altitude precisam se preocupar. “Os humanos começam a se deteriorar”, acrescenta Hackett. “Dormir se torna um problema. A perda muscular ocorre. Perda de peso acontece.”

Náuseas e vômitos causados por HAPE e HACE podem causar uma diminuição no apetite. O brilho da neve e do gelo sem fim pode causar cegueira da neve – perda temporária de visão ou explosão de vasos sangüíneos nos olhos. Alguns alpinistas são feridos ou perecem pelos resultados indiretos desses problemas de saúde em grandes altitudes. O enfraquecimento físico e a visão prejudicada podem levar a quedas acidentais.

A tomada de decisão incorreta – por exaustão ou falta de oxigênio – pode significar o esquecimento de recuar em uma corda de segurança, ou desviar-se da rota, ou deixar de preparar adequadamente equipamentos salva-vidas, como tanques suplementares de oxigênio.

Congestionamento

Alpinistas sobrevivem à Zona da Morte ao tentar escalá-la em um dia, mas as pessoas estão atualmente esperando por horas, o que pode ser fatal. Por causa disso, subir na Zona da Morte é “um inferno”, descreve o alpinista e membro da expedição de 1998 da NOVA, David Carter, também à PBS.

Normalmente, os alpinistas que tentam alcançar o cume tentam subir e descer em um único dia de atividade agitada, passando o mínimo de tempo possível na Zona da Morte antes de retornar a altitudes mais seguras. Mas esse empurrão frenético para a linha de chegada acontece no final de semanas de escalada, durante uma das partes mais difíceis da rota.

Lhakpa Sherpa, que chegou ao cume do Everest nove vezes (mais do que qualquer outra mulher na Terra) já disse ao Business Insider que o dia em que um grupo tenta escalar o Everest é de longe a parte mais difícil da caminhada.

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Para concluir com sucesso a empreitada, tudo deve dar certo. Por volta das 22h, os alpinistas deixam seu refúgio no Acampamento Quatro a 7.900 metros, bem na beira da Zona da Morte. O primeiro pedaço da subida é feito totalmente no escuro, iluminado pela luz das estrelas e faróis.

Sete horas depois, normalmente, os alpinistas chegam ao cume. Depois de um breve descanso repleto de comemorações e fotografias, as expedições dão a volta, fazendo com que a jornada de 12 horas volte à segurança e chegue antes do anoitecer.

Mas, recentemente, as empresas de expedição notaram que o pico ficou tão abarrotado com os escaladores se arrastando para o topo durante um raro período de bom tempo que as pessoas ficaram presas na Zona da Morte por horas, levando algumas a entrar em colapso por exaustão e morrer.

Em 22 de maio, o jornal The Kathmandu Post relatou que 250 alpinistas tentavam chegar ao cume. Muitos escaladores tiveram que esperar na fila para subir e descer a montanha. Essas horas extras e não planejadas na Zona da Morte fizeram a diferença entre a vida e a morte de 11 pessoas.

O guia Adrian Ballinger disse à rede de TV americana CNN que há vários fatores causando os problemas de congestionamento. “(A causa está) no nível mais baixo de experiência dos escaladores tentando vir para cá e também das empresas que estão tentando oferecer serviços na montanha. Essa falta de experiência, tanto com os operadores comerciais quanto com os próprios alpinistas, está causando essas imagens e vemos onde as pessoas tomam decisões erradas, se metem em apuros e acabam tendo fatalidades desnecessárias”.

Ele acrescenta que os seres humanos não são destinados a existir na Zona da Morte. “Mesmo quando se usa oxigênio engarrafado, oxigênio suplementar, há apenas um número muito pequeno de horas que podemos realmente sobreviver lá em cima antes que nossos corpos comecem a se desligar. Isso significa que se você for pego em um engarrafamento acima de 8 mil metros, as consequências podem ser realmente severas”.

O veterano alpinista David Morton falou com a CNN do acampamento base no lado tibetano do Monte Everest. Ele havia acabado de descer depois de percorrer cerca de 100 metros da cúpula para um projeto de pesquisa.

“O maior problema é a inexperiência, não apenas dos alpinistas que estão na montanha, mas também dos operadores que apoiam esses alpinistas. O Everest é principalmente um quebra-cabeça logístico muito complicado e eu acho que quando você tem muitos operadores inexperientes e alpinistas inexperientes junto com, particularmente, o governo do Nepal não colocando algumas limitações no número de pessoas, você tem uma receita excelente para esses tipos de situações acontecendo”, acredita. [Business Insider, CNN, Science Alert]

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