Pombas supersticiosas e a origem da crendice humana

Por , em 16.09.2012

Em uma praça do centro de qualquer cidade, nunca faltam compradores de pipoca para alimentar as pombas. Na mente delas, a comida surge naturalmente, embora elas não “saibam” exatamente a razão. Um dia, uma pomba foi colocada em uma caixa onde não havia pipoca em abundância. Havia apenas uma parede, um botão e uma portinhola.

Depois de algum tempo, a pomba estava com fome. Ela nunca soube como agir nessa situação de carência. Começou a andar para lá e pra cá, bicar o chão, dar uma volta em torno de si mesma, bater as asas, até que ela achou a parede. E o botão. Quando bicou o botão – aleluia! – caiu um grão de comida da portinhola.

A pomba comeu, mas seguia com fome. Depois de um tempo, ela experimentou bicar o botão mais uma vez. E mais uma vez foi agraciada com alimento. Com a repetição, ela aprendeu que uma bicada no botão equivalia a uma recompensa.

Chegou um momento em que isso ficou automático: sempre que sentia fome, a pomba bicava o botão. Ela nunca soube por que aquilo fazia aparecer um grão de comida na portinhola, mas já não importava mais.

A pomba passou a acreditar que a única forma de obter alimento era bicar insistentemente um botão na parede.

Em outras caixas, havia outras pombas. Cada uma fazendo um movimento (ciscar o chão, dar uma volta, bater as asas…) à força de repetição, na esperança de receber comida, porque nas primeiras vezes havia dado certo de algum jeito. Nenhuma delas, tampouco, tinha garantia de que tal movimento daria mesmo o prêmio esperado. Mas não paravam.

Como fabricar superstição

Esta história narra um experimento científico feito na década de 1930 pelo psicólogo americano Burrhus Frederic Skinner. Além de pombos, ele também usou roedores e até macacos para provar como é possível moldar o comportamento dos animais à força da prática repetitiva, que produz o condicionamento.

Analisando o comportamento da pomba na Caixa de Skinner, pode-se dizer que ela criou uma espécie de superstição. É óbvio que ela nunca soube por que bicar a parede fazia surgir um grão de comida na portinhola; apenas sabia que era assim que acontecia, e pronto.

A pomba incorporou o comportamento de bicar a parede. Era uma resposta natural ao medo da fome. O temor da punição – privação de alimento – e o recebimento de uma recompensa foram vinculados a uma atitude, mesmo que a pomba ignorasse completamente o caminho entre a causa e a consequência. Skinner criou, dessa forma, um exército de pombas “supersticiosas”.

As raízes de uma crença

Quando uma tribo indígena sacrificava um bode, fazia oferendas a um totem ou empurrava uma virgem de um vulcão, por que eles o faziam? Para obter um benefício dos deuses, ou outra nomenclatura para uma entidade superior que seria capaz, em tese, de fornecer climas adequados, boas colheitas, que poderia impedir catástrofes naturais, enfim; o imprevisível.

Esta resposta automática, de acordo com o biólogo britânico Richard Dawkins, da Universidade Oxford (Reino Unido), é bem parecida com a dos pombos: na ignorância de um mecanismo que leva algo a acontecer, os seres vivos são naturalmente levados a hábitos supersticiosos.

Dawkins e outras duas cientistas (as americanas Christine Dargon, doutora em psicologia, e Karly Way, em sociologia) participaram de um documentário em que se tenta entender a origem do medo. “The Virus called Fear” (O vírus chamado medo), produzido pelo cineasta americano Bem Fama Jr., trata justamente desta questão. Você pode assistir o experimento da Caixa de Skinner a partir de 8m30s deste vídeo.

A ciência entende o medo como uma resposta natural ao desconhecido. O medo seria a habilidade natural do ser vivo de dar uma resposta rápida a algo que pode ser ameaçador, com o objetivo de garantir a segurança. Quando uma tribo faz uma oferenda para pedir por mais chuvas, ou para pedir que uma epidemia vá embora da comunidade, estaria ativando esse mecanismo primário.

Os cientistas reconhecem, dessa maneira, que até a religião seria uma espécie de resposta a estes estímulos. Quando se estabelece um contraponto entre recompensa e punição (céu e inferno), cuja destinação está nas mãos de algo que não podemos controlar, algo superior e mais forte que nós (a divindade), produzimos uma reação equivalente.

A crença religiosa seria explicada, pelo menos em parte, por um processo cerebral quase instintivo: a busca pelo bom e a fuga do ruim quando estamos diante do desconhecido. [Psych Classics/Science Blogs/Top Documentary Films]

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15 comentários

  • JHR:

    Compreendo a obstinação de alguns em combater as religiões, quando na verdade deveriam combater, entre outros, o egoismo, o extremismo, a intolerância e o radicalismo, deformidades morais estas inerentes ao ser-animal-humano.
    Quanto as pombas…bem…parece mais um adestramento para obtenção de alguma recompensa…Será que a Aple faz algo diferente com seus consumidores de Iphones?

    • Thiago da Costa:

      Ué, mas egoismo, extremismo, intolerância, radicalismo, deformidades morais são AS características da religiões! E é exatamente isso mesmo, o que a religião faz chama-se ADESTRAMENTO! vc acertou! 😉

  • Rone100theone:

    Lisandro vc disse que o cristianismo tem suas ” asneiras”. Pois é, esta palavra vem do substantivo asno ou burro, aquele animal que as vezes para em um lugar e não sai. Porém a maior “burrice ” do ser humano é achar que vai se dar bem em ser independente de Deus, seja individual ou coletivamente. ( veja para onde se encaminha a humanidade: super- população, poluição, guerras, auto-substitution destruição) Então pra encurtar a discussão democratica do assunto, os ateus ficam com esperança de que um dia a ciência trará o fim das doenças da morte, o fim da poluição, das guerras etc…. E os que crêem em Deus continuem com fé nele. ( é claro que muitos ateus com 2 milhões de dólares no banco não então nem aí pro mundo lá fora. Uma vida de 90 ou 100 anos e com um pouco de saúde é o suficiente pra eles . pois eles ” CRÊEM ” que a próxima geração de seus filhos viverão 150 ou 200 anos, com órgãos sob encomenda, engenharia genética etc… Talvez digam que estou taxando os ateus de egoistas que não se importam com o seu próximo… Longe disso. existem muitos que se dizem “crentes” que são egoistas extremos.

  • tommy lommy:

    A caixa de Skinner ilustra a construção das superstições de forma geral, não apenas a espiritualidade.
    Interessante notar que a força motriz de qualquer superstição é sempre uma necessidade, geralmente fisiológica e/ou psicológica. Como somos a espécie campeã em construir necessidades (pois o supérfluo muito cedo torna-se indispensável), somos também os mais supersticiosos. É essa mesma característica de tornar tudo necessário que potencializa o aprendizado através das frustrações e sucessos; é por isso que dizem que o mundo é uma caixa de Skinner.
    Além disso, quando as causas e efeitos começam e terminam em nós mesmos, nossas superstições são capazes de alterar o resultado; a isso se chama efeito placebo. Aqui, poderia-se considerar a superstição como uma fonte de energia.

  • marcus bbm:

    como ficam os budistas que trabalham com tecnicas de meditaçoes para quebrar os padroes condicionantes?

    • tommy lommy:

      Olá marcus bbm;
      Para a tua pergunta específica, Ivan P. Pavlov terá muito a mais a dizer. Vou deixar as conclusões para ti.
      Boas reflexões =D.

  • Jairo R. Morales:

    “Muitos dos que se julgam ateus são na realidade anti-religiosos” (Nietzsche)

    • Jonatas:

      Nietzsche tem razão. Mas muitos não são todos. Esses anti-religiosos não são ateus legítimos, são apenas religiosos-enrustidos, como em muitos casos o anti-‘alguma_coisa’ sempre tem essa revolta uma origem psicológica em algo que não quer ser.

    • Jairo R. Morales:

      @Jonatas:

      Concordo, usei a frase para ilustrar justamente essa situação: Muitos “ateus” odeiam não a idéia de Deus, mas as religiões em si.

      Não que alguma delas não tenha dado motivos (históricos) para isso, pessoalmente acredito que SE existe um Deus ele é algo muito mais pessoal do que dogmático.

      Meu velho pai sempre disse:

      “Deus é como uma grande metrópole e as pessoas são as cidades satélites que a cercam. Já as religiões são as varias estradas que levam elas até Deus, algumas são longas outras curtas, algumas são fáceis outras difícil, você pode até mesmo ignorar todas e seguir o seu próprio rumo, mas no final não importa o caminho que escolha: Todas elas levam ao mesmo lugar.”

      Não odeie Deus ou as religiões, odeie o fanatismo: Esse sim é um dos maiores maus que o homem pode ter.

    • HFC:

      Com licença, Jonatas, mas pq um ateu e anti-teísta seria menos legítimo que um ateu que não é ? Concordo plenamente que um ateu não precisa ser antiteísta, ou que o antiteísmo possa ser criticado e repensado para não ser um meio de preconceito ou até tolice que beira o fanatismo, mas não vejo o pq de se excluir a crítica à religiões ou a ideia de deuses como meio legitimador de um ateu.
      Quem sabe seja legal vc ver a razão de revolta da Greta Christina aqui : http://www.youtube.com/watch?v=GUI_ML1qkQE

      Felicidades, de um colega ateu revoltado pelas mesmíssimas razões!

  • Jonatas:

    Excelente matéria.

  • Rone100theone:

    Duas coisas: a primeira: Um homem ou mulher formado em física, engenharia medicina e com digamos, QI 120, é bem mais inteligente que um pombo, ou um macaco ou ratos de laboratório. Agora associar a etnia, seja um indígena ou raça de alguém, só porque professa uma fé, no que quer que seja,com a mesma capacidade intelectual de pombos? Isso não é ciência é discriminação, preconceito. Crendice e superstição isso é outra coisa, ex: O homem tem uma alma ou espírito imortal que sobrevive á morte do corpo. Outra: pessoas mas vão para o inferno de fogo, sofrer tormento eterno. Outra: jogue uma faça em um redemoinho e você vera a imagem de um diabinho ou sua faca se sujará de sangue. Superstição e crendice são bem diferentes de fé RACIONAL e lógica que promove o bem estar de famílias no mundo inteiro, onde a maioria se esqueceu de Deus e vive ao seu bel-prazer, satisfazendo seus egos com TEORIAS evolucinistas e libertinagem sexual.

    • Jailson Joventino:

      pelo que entendi foi explicado que em relação ao medo criamos situações para alivio ou para procurar alguma solução.

    • HFC:

      O homem tem uma alma e(ou) espírito imortal, @Rone100theone ? Como vc demonstra isso ?
      Pq vc supõe que seja racional pensar que pessoas irão para o tormento eterno e que isso não seja mera superstição herdada ?
      E a questão mais chata : pq seria racional a sua fé que faz vc tornar a teoria da evolução algo que seja resposta ao ego ? Vc já foi estudar biologia para compreender a TE ? Tenho a impressão de que vc usa a sua fé que vc supõe racional para formular um preconceito contra as respostas da ciência sem ao menos entendê-las. E isso não é nada racional …

      Felicidades.

  • Jr_7:

    Mamilos são muito polêmicos!

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