Quem vigiará os vigias?

Por , em 16.12.2013

Como vimos no artigo da semana passada, além de ser um palpiteiro contumaz, o brasileiro é caracterizado, também, por sua habilidade inata de “dar um jeitinho”.

E o “jeitinho” — essa expressão tão coloquial e tão brasileira — abarca todo um universo comportamental que vai desde um inocente improviso até o franco desrespeito à ética — em sua expressão mais universal — que tipifica aí a conduta desonesta e caracteriza a pura falta de caráter.

É muito triste recebermos dos palpiteiros de plantão “bons conselhos” — que são pérolas da pior conduta que se possa conceber, bem, no estilo do “rouba, mas faz”.

Conselhos que incentivam esse “jeitinho” brasileiro, preconizando o comportamento desonesto, que em sua essência mais banal, o faz furar filas, furtar frutas nos supermercados, roubar sobremesas nos restaurantes, colar nas provas, fazer “cachorro” no caixa quando o chefe não está olhando, desrespeitar as leis de trânsito (quando não há vigilância), etc.

Em suma trapacear em toda e qualquer oportunidade que encontrar.

Quando dou consultoria “in company” na área de administração de conflitos, sou surpreendido pela realidade de que não são poucas as corporações que investem massivamente em segurança interna, pois os roubos praticados pelos funcionários colocam em risco a própria existência da corporação.

Sejam públicas ou privadas, as corporações tem sido alvos sistemáticos de verdadeiros “assaltos internos” onde, absolutamente tudo que não estiver sendo vigiado “é roubado”; desde objetos de escritório até segredos estratégicos.

É fácil arrumarmos desculpas:

— Os empresários exploram os trabalhadores;

— Os pobres precisam comer;

Etc.

Mas as estatísticas apontam que não importa a classe social ou a hierarquia do funcionário, o comportamento é sempre o mesmo.

Desde o porteiro que aceita propina para olhar para o outro lado, até o diretor executivo que vende para concorrência os segredos estratégicos.

E esse jeitinho se esgueira para a esfera política, ganhando ares de “poderosos esquemas” concatenados para burlar as leis e roubar descaradamente os cofres públicos, e em última análise, o bolso do contribuinte.

E quem tiver a ousadia de apontar esses disparates é acusado prontamente de “moralista” quando não de “ingênuo” ou otário.

Quando sou questionado sobre qual solução eu daria para a questão, a minha resposta é sempre a mesma:

— Precisamos despertar urgentemente nosso senso de humanidade.

Para que o nosso povo tenha acesso tanto ao pão do corpo quanto ao pão do espírito.

Por que é indubitável que a miséria material seja um das principais causas da miséria moral, porém, não é a única.

Talvez tenhamos que procurar mais no fundo de nós mesmos.

E é interessante notar, que perante a roubalheira desenfreada pela qual gira a vida pública brasileira os meios de comunicação já não noticiam com tanta ênfase os “pequenos” roubos diários.

Não dá ibope.

Nosso condomínio, nossa casa, nossa empresa passa a ser alvo diário de roubos internos e externos.

Será que a solução passa pelo simples policiamento, seja ele privado ou público?

Será que para nos sentirmos seguros contrataremos vigias e mais vigias?

Eu contraponho, com outro questionamento — esse muito mais filosófico:

— Numa terra sem honra, quem é que vigiará os vigias?

 

-o-

[Imagem Flickr]

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]  

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5 comentários

  • Edmilson Marques:

    É necessário educar mais e mais as próximas gerações!

  • D:

    Todas as soluções apontam para o mesmo caminho inevitável: Educação

  • Will Singer:

    Muito bom, Mustafá! Vc citou sua resposta à essa questão, então farei uma “proposta”!

    São questões bem interessantes!

    Concordo plenamente quando disse: — Precisamos despertar urgentemente nosso senso de humanidade.

    Mesmo não tendo às mesmas qualificações acadêmicas que vc, me arrisco a tentar uma “resposta”:

    Quando vc disse: …nosso senso… achei ótimo, pois vc se inclui, trazendo uma reflexão da necessidade de melhoramento pessoal, mas também do melhoramento coletivo.

    À questão do despertar é individual. Apesar da grande influência que sofremos coletivamente pela maneira que “o mundo” nos apresenta regras morais e éticas “legítimas”, mas que paradoxalmente nos apresenta “regras de conduta, selvagens”, onde “parece” que a maioria das pessoas preferem ou se deixam levar, como selvagens à serem despertos e viver mais “civilizadamente”.

    Analisando a história humana e levando em conta à “proposta” que fez, da necessidade também de pão espiritual, lembro de outros “símbolos” como: “…muitos são os chamados, poucos os escolhidos¹…”, …”a grande maioria escolherá à porta larga e poucos à porta estreita²..”, “o mundo jás no poder do iníquo³..”, dentre outras “informações relevantes” em diversas fontes.

    Daí, qual seria, muito resumidamente minha proposta para solução à essas questões:

    1º União de pessoas que SE ESCOLHEM, que DESPERTARAM para à necessidade de melhoramento íntimo e também, coletivo.

    2º Com grupos de “escolhidos”, realizar de uma forma mais contundente, trabalhos para aumentar o grupo dos “despertos”, fazendo mudanças à princípio, em nível “micro”, possibilitando, pelo poder do exemplo, o despertar de outras pessoas com tal condição/capacidade, para que ao passar das décadas, séculos… com “macro” mudanças, a humanidade veja a moralidade um ideal tão ou mais importante que conquistas materiais e tenhamos um mundo com pessoas de honra.

    3º Mudanças ou criação de empresas que sejam mais humanas e um meio de humanização; cuidar das crianças, dando maior relevância quanto aos valores morais; criar e/ou fortalecer instituições de caridade e etc…

    Enfim… sei que falar é fácil, mas estou mobilizando disposição, coragem e pessoas, pra realizar “meus” ideais!

    ¹²³ são interpretações sugeridas.
    ¹ Entenda-se: pessoas que despertaram para a necessidade de irem mais fundo em sí mesmas e que se escolheram como membros ativos de um mundo melhor.
    ² Entenda-se: caminho mais fácil, dos “maria vai com às outras” ao invés de enfrentarem a sí mesmas pelo auto conhecimento e nadarem contra à correntesa das vicissitudes humanas.
    ³ Entenda-se: “o mundo” já está dominado pela mídia capitalista e um “povo” que não dá Ibope àquilo que alimenta o espírito. A contaminação é grande demais pra tentar curar todos de uma só vez.

  • Esquadros:

    “Who watches the Watchmen? ” 😉

  • Daniel Almeida:

    Isso acontece desde o passado histórico, sempre tivemos que dá um “jeitinho” desde
    que fomos jogados pela metrópole para colonizar o Brasil. Contudo, não podemos culpar
    o passado, acredito que esses hábitos infelizmente fazem parte da cultura do home brasileiro.
    Em fim,vou parar de imprimir cópias da faculdade no meu trabalho

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