Este é um dos piores escândalos científicos de todos os tempos

Por , em 22.10.2019

Um dos psicólogos mais influentes e citados no mundo da literatura científica passou por uma investigação formal em maio pela universidade ao qual era ligado: a King’s College London.

Os resultados de tal exame apontam para o que o psiquiatra Anthony Pelosi, do Serviço de Saúde Nacional do Reino Unido e da Universidade de Glasgow, chamou de “um dos piores escândalos científicos de todos os tempos”.

Fama

Estamos falando de Hans Eysenck, um cientista que não está mais entre nós: faleceu em 1997. O autor fez fama principalmente graças a seu trabalho sobre inteligência e testes de personalidade.

Um artigo de 2002 do Review of General Psychology o colocou entre os 100 psicólogos mais eminentes do século 20, em 13º lugar.

Além disso, ele aparece como o terceiro autor mais citado na literatura científica sobre psicologia, atrás apenas de grandes nomes como Jean Piaget e Sigmund Freud.

Controvérsias

Ao lado de toda essa fama, sua carreira também é recheada de polêmicas. Por exemplo, ele sustentava a ideia de hereditariedade do QI e de traços de personalidade, mergulhando às vezes em conexões controversas com a raça.

Também apoiou o trabalho de autores como Charles Murray e Richard Herrnstein, cujo livro A curva do sino também faz correlações entre QI e raça que podem ser vistas como perigosas. Isso tudo apesar de Eysenck ser um refugiado da Alemanha nazista, cuja avó judia morreu em um campo de concentração.

O psicólogo ainda publicou trabalhos validando aspectos da astrologia em relação à personalidade, e fez aproximações entre parapsicologia e física.

O cerne da investigação formal do autor, contudo, é outro: seu trabalho ao lado de Ronald Grossath-Maticek sobre as relações entre personalidade e condições fatais como câncer e doenças cardíacas.

Eysenck e Grossath-Maticek publicaram vários trabalhos explorando a relação entre personalidade e doenças, chegando a uma polêmica conclusão de que traços de personalidades eram seis vezes mais propensos a aumentar o risco de câncer de pulmão do que fumar – o que é extremamente problemático, uma vez que essas “descobertas” (agora sob suspeita) guiaram direta e indiretamente práticas clínicas.

Como agravante, parece haver uma associação financeira entre a dupla e a indústria do tabaco.

Resultados miraculosos

Os problemas de Eysenck parecem ter começado com sua associação com Grossath-Maticek em 1980.

Grossath-Maticek é um cientista nebuloso: investigadores não conseguiram confirmar sua ligação inicial com a Universidade de Heidelberg, na Alemanha, e suas afirmações de participar do Instituto de Psiquiatria do King’s College London são completamente falsas.

Antes de Eysenck, Grossath-Maticek realizou um estudo com mais 1.300 pessoas na cidade iugoslava de Crvenka, no qual encontrou ligações entre sentimentos agressivos e o desenvolvimento de cânceres como o de pulmão.

Inicialmente, até a indústria do tabaco ficou reticente com tais resultados, questionando se o pesquisador não passava de um charlatão, mas a Associação das Indústrias do Cigarro da Alemanha resolveu fundar a pesquisa de Grossath-Maticek mesmo assim.

Ao lado de Eysenck, a dupla continuou a receber financiamento de companhias de tabaco para manter a pesquisa entre câncer de pulmão e traços de personalidade. Seus experimentos eram “fabulosos”, com resultados inacreditáveis – ao que tudo indica, bastava ter o que era chamado de uma “personalidade saudável” para não morrer de câncer.

Os cientistas chegaram a criar uma espécie de “terapia” para reorientar a personalidade de um paciente, afastando-o do câncer em direção a uma vida mais saudável. Os resultados deste estudo em particular indicaram que 128 dos 600 participantes do grupo de controle (21%) morreram de câncer ao longo de 13 anos, em comparação com 27 dos 600 participantes tratados (4,5%).

Escrutínio

Obviamente, tais achados “maravilhosos” foram questionados em aspectos como metodologia, tratamento estatístico e ética.

Um pesquisador que procurou fazer uma revisão do trabalho encontrou “evidência inequívoca de manipulação das folhas de dados” do estudo inicial na Iugoslávia, como questionários de pacientes com respostas idênticas.

Outra tentativa de replicar os resultados em relação a doenças cardíacas não encontrou a mesma associação.

Por fim, uma réplica levemente modificada da pesquisa de Eysenck e Grossath-Maticek sobre personalidade e câncer conduzida por Manfred Amelang levou à conclusão de que essa parecia ser a única área de pesquisa na qual a mudança de uma entrevista para um questionário cuidadosamente construído chegou a resultados completamente opostos: Amelang não descobriu nenhuma ligação entre personalidade e câncer de pulmão.

Escândalo

Na época, a resposta de Eysenck aos críticos foi em defesa de seu colega: “Grossarth-Maticek é um cientista criativo, trabalhando em larga escala, impaciente por detalhes, preocupado com questões mais amplas, com os traços mais amplos, com descobertas maiores. Irritado com dúvidas e críticas, consciente da enorme importância social e científica de suas descobertas, convencido (com razão) de que seu trabalho e teorias estão milhas à frente do que seus críticos têm a oferecer, ele obviamente se incomoda com quem não o entende e pode responder de uma maneira bastante exagerada”.

Eysenck era querido e homenageado pela Sociedade Britânica de Psicologia, e assim passaram-se muitos anos de esquiva da comunidade científica até finalmente uma investigação formal ser lançada sobre suas pesquisas controversas, apesar de cada vez mais trabalhos jogarem uma sombra profunda de dúvida sobre a reputação de um dos psicólogos mais famosos da Grã-Bretanha.

“Na minha opinião, é um dos piores escândalos da história da ciência, principalmente porque esses resultados estão na literatura revisada por pares por quase três décadas, enquanto alegações terríveis e detalhadas permanecem sem investigação”, disse David Marks, editor da revista científica Journal of Health Psychology.

Depois do editorial de Marks, que acompanhou uma revisão detalhada feita por Anthony Pelosi em fevereiro, o King’s College London finalmente realizou uma investigação interna formal das publicações de Eysenck e Grossarth-Maticek, concluindo que considerava “inseguros” os resultados publicados de alguns estudos, e que “os editores das revistas deveriam ser informados” dessa decisão.

No total, o Instituto de Psiquiatria da universidade destacou 26 artigos publicados em 11 periódicos que ainda existem que deveriam ser retratados.

Legado manchado

O que significa “resultados inseguros”? Apesar de obscura, essa conclusão certamente afeta o legado de Eysenck, com 61 artigos publicados no total, além de capítulos de livros e livros inteiros.

Os 11 periódicos contatados pelo King’s College London ainda precisam tomar ação para desfazer essa herança perigosa da psicologia britânica. Bons motivos não faltam: além de corrigir o registro científico em prol da integridade da própria ciência, conforme já foi abordado, esses estudos são conhecidos por afetar tratamentos clínicos.

“Esses estudos amplamente citados tiveram influências diretas e indiretas nas escolhas de fumar e no estilo de vida de algumas pessoas. Isso significa que, para um número desconhecido e incognoscível de homens e mulheres, esse programa de pesquisa tem sido um fator contribuinte para doenças prematuras e morte”, escreveu Pelosi. [CosmosMagazine]

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