Suprimir memórias ruins é péssimo para mim: mito ou realidade?

Por , em 20.03.2014

Pesquisadores da Universidade de Cambridge demonstraram que, ao contrário do que se pensava anteriormente, suprimir memórias indesejadas reduz a influência inconsciente que elas têm sobre o comportamento das pessoas.

O estudo, publicado online na revista PNAS, desafia a ideia de que memórias supressas permanecem totalmente preservadas no cérebro inconsciente, permitindo que sejam inadvertidamente expressas no comportamento de alguém.

Na verdade, os resultados sugerem que o ato de suprimir memórias intrusivas ajuda a interromper os traços dessas memórias nas partes do cérebro responsáveis pelo processamento sensorial.

O estudo

A equipe examinou como a supressão afeta a influência inconsciente de uma memória, em um experimento que incidiu sobre a supressão de memórias visuais, já que memórias indesejadas e intrusivas são muitas vezes de natureza visual.

Depois de um trauma, a maioria das pessoas relata memórias ou imagens intrusivas, e tentam tirar essas “invasões” de sua mente. É importante ressaltar que a frequência de memórias intrusivas geralmente diminui ao longo do tempo. É fundamental entender como o cérebro saudável reduz essas invasões e impede que imagens indesejadas entrem na consciência, de modo que os pesquisadores possam entender melhor como esses mecanismos “dão errado” em condições como o transtorno de estresse pós-traumático.

Os participantes foram convidados a aprender um conjunto de palavra e imagem de modo que, quando ouvissem a palavra como lembrete, a imagem do objeto viesse à mente. Depois de aprender esses pares, a atividade cerebral dos voluntários foi registrada usando ressonância magnética funcional enquanto eles pensavam na imagem do objeto ao ouvir a palavra, ou quando tentavam impedir que a memória da imagem viesse à mente.

Os pesquisadores queriam ver se suprimir memórias visuais alterava a capacidade das pessoas de ver o conteúdo dessas memórias novamente. Sem pedir aos participantes que se lembrassem conscientemente, eles simplesmente pediram às pessoas para identificar muito brevemente objetos distorcidos visualmente.

Em geral, nestas condições, as pessoas são melhores em identificar objetos que viram recentemente, mesmo que não se lembrem de terem visto tal objeto – uma influência inconsciente da memória. Surpreendentemente, os cientistas descobriram que suprimir memórias visuais tornou mais difícil para as pessoas ver mais tarde o objeto reprimido, em relação a outros objetos recentemente vistos.

Imagens do cérebro mostraram que a dificuldade das pessoas de ver o objeto suprimido surgiu porque a memória foi inibida em áreas visuais do cérebro, interrompendo memórias visuais que geralmente ajudam as pessoas a ver melhor.

Em essência, suprimir algo do “olho da mente” faz com que seja mais difícil ver esse mesmo algo no mundo real, pois memórias visuais e imagens reais são processadas nas mesmas áreas do cérebro.

Memórias suprimidas = memórias apagadas

Pesquisas anteriores já haviam indicado que a supressão de memórias indesejadas reduz a capacidade das pessoas de se lembrar conscientemente das experiências.

Embora isto possa funcionar como um mecanismo de defesa para ajudar as pessoas a se adaptar a um traumatismo, existe a possibilidade de que, se os traços de memória forem capazes de exercer uma influência sobre o comportamento inconsciente, possam potencialmente exacerbar problemas de saúde mental.

A ideia de que a supressão deixa memórias inconscientes que minam a saúde mental tem sido influente por mais de um século, começando com Sigmund Freud. Os novos resultados desafiam a suposição de que, mesmo quando suprimida, uma memória permanece totalmente intacta e pode ser expressa de forma inconsciente.

Além disso, a descoberta aponta os mecanismos neurobiológicos subjacentes pelos quais esse processo de supressão acontece, e poderia levar a mais pesquisas e a um tratamento para o transtorno de estresse pós-traumático.

“Os efeitos da supressão não se limitam a memória consciente. Na verdade, é agora claro que a influência da supressão se estende além das áreas do cérebro associadas à memória consciente, afetando vestígios perceptivos que podem nos influenciar inconscientemente. Isso pode contribuir para tornar memórias visuais indesejadas menos intrusivas ao longo do tempo e, talvez, menos vívidas e detalhadas”, disse o Dr. Michael Anderson, um dos autores do estudo. [ScienceDaily]

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1 comentário

  • Cesar Grossmann:

    Meu conselho é que quem caiu no golpe do vigário tenha esta memória sempre presente, por que ela é mais que uma lembrança, é um aprendizado.

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