“Todo o habitat está perdido”: belezas naturais do Havaí são destruídas pela lava

Por , em 21.06.2018

Todo o habitat natural de uma região do Havaí foi devastado pela erupção do vulcão Kilauea.

A maravilhosa floresta da região de Puna, a mais atingida pelos fluxos de lava, se tornou um terreno estéril, piscinas naturais cristalinas com jardins de corais se tornaram ambientes sujos e sem vida, e um lago de 400 anos evaporou totalmente. Várias criaturas morreram.

“Do ponto de vista humano, o que está acontecendo é trágico”, disse David Damby, vulcanologista do Serviço Geológico dos Estados Unidos. “Mas, do ponto de vista do vulcão, esse é o trabalho que ele faz: construir novas terras e mudar a paisagem”.

“É uma coisa muito poderosa de se testemunhar”, complementou Ryan Perroy, vulcanologista e professor da Universidade do Havaí em Hilo. “Mas, em termos geológicos, também não é um evento inesperado. Foi assim que Puna foi construída, com erupções vulcânicas”.

Floresta de Puna

A perda do habitat da floresta em Puna foi um evento deprimente: primeiro, as árvores frutíferas, flores e samambaias começaram a ficar marrons, definhando no ar nocivo cheio de dióxido de enxofre, e depois a lava substituiu grandes trechos de bosque verdejante por terrenos vulcânicos irregulares e áridos.

“Antes das erupções, essa área era provavelmente a melhor floresta do estado do Havaí”, disse Patrick Hart, professor de biologia da Universidade do Havaí em Hilo. “Havia espaços onde a floresta nativa se estendia até o oceano, e você simplesmente não vê isso no resto do Havaí”.

As florestas úmidas e chuvosas de Puna eram um importante habitat para plantas, pássaros e insetos nativos havaianos. Levará pelo menos 100 anos para que os trechos dizimados prosperem novamente – primeiro com líquen, depois com samambaias nativas e árvores Ohia que se adaptarem para crescer na lava. Em 150 anos, a terra pode começar a se assemelhar a uma floresta como a que costumava estar lá.

Como os especialistas não cansam de se repetir, no entanto, esse é um processo que aconteceu muitas vezes antes no Havaí.

Lago Verde e Baía de Kapoho

A devastação da floresta não foi a única mudança dramática na paisagem. Na manhã de 2 de junho, a lava também entrou no Lago Verde, em Puna. Plumas de vapor começaram a subir de um ponto popular para a natação, onde as profundezas atingiam cerca de 60 metros. Em menos de duas horas, o lago de água doce, com 400 anos de idade, desapareceu totalmente, evaporado.

Lago Verde

Apenas alguns dias depois, rios de lava fluíram para perto da Baía de Kapoho, destruindo centenas de casas e cobrindo a água azul-turquesa cheia de corais e uma série de piscinas naturais raras e protegidas ricas em vida marinha.

“A Baía de Kapoho era um lugar de lazer muito importante para as pessoas nesta área. Também era um local de pesquisa muito importante para nós, cientistas”, explicou Steven Colbert, professor de ciências marinhas da Universidade do Havaí em Hilo.

A água ao redor da baía precisará ser limpa para que as piscinas possam florescer novamente, mas isso não acontecerá até que a erupção diminua ou pare. Uma vez que as partículas vítreas vulcânicas se dissiparem e o pH e a temperatura da água voltarem ao normal, o coral pode recomeçar a crescer. Não é impossível que isso ocorra, no entanto: parte daquela área já o fez quando foi formada por lava nas décadas de 1950 e 1960.

Kapoho antes da erupção

Kapoho depois da erupção

O ciclo de destruição e reconstrução da natureza

Enquanto esses processos podem parecer simplesmente ruins para nós, seres humanos, não é necessariamente o caso, do ponto de vista da natureza.

Por exemplo, a rapidez com que o coral havaiano vai florescer novamente depende se a lava vai criar um litoral inclinado, ou piscinas protegidas, como fez em Kapoho, o que pode permitir um crescimento mais rápido do que a taxa usual de um centímetro por ano.

Em termos de organismos marinhos e corais, a região está recomeçando do zero, contudo é mais fácil perder um recife insubstituível para a lava do que perdê-lo para o branqueamento, o que aconteceu em muitos outros lugares do Havaí por causa de um aumento global nas temperaturas oceânicas. Esse aumento é impulsionado por atividades humanas.

“Há a tragédia das pessoas perdendo suas casas e, para nós, cientistas, perdendo nosso local de pesquisa. Mas, do ponto de vista do meio ambiente, esse é um ciclo natural”, disse John Burns, que passou uma década estudando corais nas piscinas naturais havaianas. “Eu prefiro ver um recife morrer de lava do que de branqueamento”. [TheGuardian]

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