Transplante de coração: babuíno recebe de porco; humanos serão os próximos

Por , em 15.05.2014

Esqueça a expressão “espírito de porco”. A tendência agora é que nós, seres humanos, tenhamos corações suínos. Cientistas do Programa de Pesquisa de Cirurgia Cardiotorácica do Instituto do Coração, Pulmão e Sangue nos Estados Unidos relataram que um babuíno ainda está vivo depois de receber um coração transplantado de um porco. O babuíno tem vivido com o coração instalado em seu abdômen há mais de um ano.

Sua longevidade é um marco. Anteriormente, quando os pesquisadores tentaram transplantar corações de porcos em primatas, os corpos dos animais rejeitavam os transplantes dentro de seis meses. Em última análise, os pesquisadores querem fazer corações de suínos para transplante em humanos. Os porcos poderiam fornecer uma maior oferta do órgão do que doadores humanos, fechando a trágica lacuna entre a oferta e a demanda.

Nos EUA, cerca de 3 mil pessoas estão na lista de espera para um transplante de coração, mas apenas cerca de 2 mil corações se tornam disponíveis a cada ano, de acordo com a instituição que conduziu o estudo. Aqueles que estão esperando podem usar dispositivos mecânicos, mas estes não são perfeitos.

De acordo com relatórios da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, no país, até março de 2014, havia 262 pacientes ativos em lista de espera por um novo coração. No primeiro trimestre deste ano, foram realizados 70 transplantes de coração no Brasil. Desde 2004, foram documentadas outras 6.693 operações do gênero.

Resposta imunológica ao transplante de coração

Corações de suínos são promissores porque se aproximam o suficiente da anatomia dos corações humanos. Os médicos também já usaram válvulas cardíacas retiradas de porcos e vacas em cirurgias humanas. Parece, no entanto, que os corações de suínos são um pouco estranhos para os órgãos dos primatas os aceitarem facilmente.

Em estudos anteriores, os corações provocaram uma resposta imune massiva nos primatas para os quais foram transplantados. Essas respostas podem ser mortais e elas têm sido um grande obstáculo para o desenvolvimento dos transplantes de coração de porco. Ainda temos muito anos pela frente antes que corações de suínos estejam prontos para pacientes humanos – isso se um dia chegarmos a esse ponto.

Para fazer corações que os babuínos – e, no futuro, seres humanos – não rejeitassem, a equipe do Instituto do Coração, Pulmão e Sangue trabalhou com porcos especialmente projetados para terem alguns genes humanos e não terem alguns genes de porco. Os pesquisadores também deram aos seus babuínos medicamentos para suprimir seu sistema imunológico. (Pacientes humanos tomam medicamentos imunossupressores quando passam por transplantes de órgãos, de modo que a prática não é incomum.)

O que teria feito os transplantes funcionarem foi este equilíbrio entre engenharia genética e drogas supressoras do sistema imunológico. Oa estudiosos relatam que quando tentaram usar outros regimes de medicamentos, seus babuínos morreram em menos de um ano. Os babuínos que receberam corações de porcos não geneticamente modificados rejeitaram os corações dentro de apenas um dia.

Agora que a equipe mostrou que corações de suínos são capazes de ficar dentro de primatas de forma segura, o próximo passo será realmente substituir os corações dos babuínos por corações de porcos. O babuíno deste estudo tem um coração de porco em seu corpo ao lado de seu próprio coração, que está fazendo todo o trabalho.

Tal estudo ainda não foi publicado em uma revista renomada ainda, mas seus autores o apresentaram no final de abril na reunião anual da Associação Norte-Americana de Cirurgia Torácica. [The Telegraph, Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, PopSci]

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9 comentários

  • Ana Suzuki:

    Quem acredita em Deus, tem que acreditar no diabo. Todas coisas boas que a
    ciência tem conseguido são de inspiração divina. E como os seres humanos, em vários sentidos, têm-se revelado piores que os porcos e os macacos, destruindo o planeta em que vivem, nada mais justo que recebam válvulas de porco ou coração de babuíno para sobreviver.

  • Roberto Junio:

    Esqueço a expressão nada.
    ”Cabeça Dinossauro. Pança de Mamute. Espirito de porco!”

  • Matheus Ev:

    Muito bom saber desses avanços na bioengenharia. Esta é uma área da ciência que vem se destacando bastante. Mas é difícil ver um projeto desses e não ficar com um pé atrás, se bem que é muito comum esse tipo de opinião para uma coisa totalmente nova.
    Realmente não tenho uma opinião formulada sobre isso, as vezes eu acho isso espetacular, já outras vezes acho que os cientistas apenas estão querendo brincar de Deus. Não irei criticar algo que não conheço muito, mas vou esperar pra ver onde isso…

    • Cesar Grossmann:

      E o que seria “brincar de Deus”? Aplicar uma vacina nas crianças para que elas não morram de viroses como sarampo? Providenciar saneamento básico e água limpa para impedir mortes por cólera? Obter corações para transplantes para pessoas que estão condenadas a morrer de um momento para outro por que o delas é defeituoso?

    • Matheus Ev:

      Não, não é isso o que eu quis dizer. Sou totalmente a favor dos avanços da medicina. Só quis dizer que a cada avanço, mais complicado fica e deveriam testar bastante antes de usar em humanos.
      Quando disse “brincar de Deus” não estava me referindo a religião e sim ao grau de complexidade dessas novas técnicas, o que me faz pensar se são realmente necessárias ou podem ter outros métodos mais simples. Ao meu ver, alguns cientistas sempre pegam o caminho mais difícil para brincar de Deus…

    • WalterZ:

      Mas brincar de Deus não é uma coisa boa? Não é bom tentar ser um ser de infinita bondade e sabedoria?
      Claro que isso é inatingível para seres humanos, logo Deus não vai ser ameaçado na sua divindade, mas procurar ser mais parecidos com Ele é ótimo.
      Eu não entendo porque não seria!
      Se fosse brincar de diabo, aí sim seria compreensível a preocupação!

    • Cesar Grossmann:

      Acho que seria necessário conhecer todos os caminhos possíveis para dizer se este é ou não o mais simples. Talvez até não seja o mais simples, mas o com resultados mais promissores, dado o avanço da nossa técnica.

    • Matheus Ev:

      Sim, mas é fato que cientistas as vezes fazem alguns testes apenas para ver se é possível. Já li vários artigos sobre transplantes artificiais, tais como um coração artificial. Certo que este coração não funciona totalmente como o ‘original’, mas não parece mais simples melhorar um projeto já existente? Seria mais rápido e melhor pra quem precisa. Não tenho uma opinião formada sobre isso, pois não sou nenhum especialista, mas pra mim alguns cientistas não tem real intenção de ajudar.

    • Cesar Grossmann:

      Talvez existam alguns aspectos que ainda não dominamos, algumas soluções que a natureza já encontrou para problemas nós ainda não sabemos que existem – o coração é um músculo que existe há mais de 300 milhões de anos, quantos aperfeiçoamentos foram acumulados neste tempo?

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