Vivemos em uma “teia” de linhas-do-tempo alternativas?

Por , em 25.07.2013

Mesmo entre os estudiosos da física quântica, a Interpretação dos Múltiplos Mundos (ou, como também é conhecida, “Teoria dos Universos Paralelos“) tem poucos defensores (18% dos participantes de uma enquete recente feita pela Universidade de Viena, Áustria). Contudo, ela não deixou de intrigar centenas de pesquisadores desde sua publicação, em 1957.

Mundo quântico

De acordo com os princípios da mecânica quântica, a matéria em nível molecular se comporta de maneira “curiosa” (pelo menos em comparação com os modelos da física clássica): não é possível ter certeza sobre a posição de uma partícula no espaço, e o mero ato de observá-la interfere em seu comportamento. Nessa escala, o universo é imprevisível.

Na década de 1950, o estudante de física Hugh Everett III entrou em contato com a mecânica quântica, lendo a respeito de cientistas como Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger. Anos mais tarde, publicou sua tese de doutorado, “Quantum Mechanics by the Method of the Universal Wave Function” (“Mecânica Quântica pelo Método da Função de Onda Universal”), na qual defendeu, basicamente, que os princípios da mecânica quântica não afetam a matéria apenas em nível molecular, mas em escala macroscópica também.

Para ele, não se podia separar essas duas realidades, já que um universo ordenado não poderia conter elementos indeterminados.

O Postulado de Everett

De acordo com os princípios da mecânica quântica, o ato de observar um objeto quântico faz com que ele deixe o estado de incerteza e passe a existir em um único ponto – como ocorre no famoso caso do gato de Schrödinger. Everett defendia que isso ocorria em nível macro e, ainda, que a observação não fazia com que as outras possibilidades deixassem de existir: elas ocorreriam, mas em realidades alternativas.

O universo, nesse caso, seria composto por intermináveis linhas do tempo em que “todas as possibilidades” ocorreriam de alguma maneira – contanto que não contrariassem as leis da física. Como estaríamos “isolados” em uma dessas linhas, teríamos a impressão de que apenas ela existe.

Objeções

A interpretação de Everett não foi bem recebida por seus colegas (e nem pelo público em geral), e ele acabou largando a pesquisa em física e se tornando consultor.

Uma das principais objeções é a de que viola o princípio da conservação da energia (de onde viria a energia necessária para que os infinitos “mundos” existissem?). Além disso, seus parâmetros foram considerados muito vagos, e a teoria daria margem a conclusões absurdas – a cada vez em que você faz uma aposta, pelo menos uma “versão” sua vai ganhar, por exemplo.

Outro questionamentos são: o surgimento de novas linhas inclui mudanças intelectuais e emocionais? Existe uma linha em que Richard Dawkins é religioso e o papa é ateu? Existe uma linha em que o técnico do Corinthians é torcedor fanático do Palmeiras?

O principal problema é que a interpretação de Everett não pode, a princípio, ser testada, uma vez que as diversas realidades estariam isoladas umas das outras. [io9, Quantum Physics]

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14 comentários

  • lottklein:

    isso me lembra e aquele negocio de que o LHC da cern se fosse usado poderia criar um buraco negro que destruiria a terra ?

    • PsychoCientist:

      Você acha que a CERN poderia estar trabalhando em uma possível máquina do tempo?

  • lottklein:

    o anime stein gate fala sobre linhas do tempo realidades alternativas, mas a teoria de everett para mim é interessante apesar de não comprovada

  • Lucas Wormsbecher:

    É difícil de compreender os infinitos acontecimentos que podem ocorrer nos supostos universos paralelos…Com base na experiência do suicídio quântico, haveria apenas 2 possibilidades a cada vez que a decisão fosse tomada em um determinado evento, mas no exemplo do texto que fala sobre as apostas, haveria muito mais do que 2 possibilidades.Por exemplo, além de ganhar e perder, poderia ganhar vestido de terno e gravata, perder vestindo outra coisa…….realmente o multiverso seria infinito!

  • Daum Comm:

    Li os comentários dos colegas PhysicistJB, Hercules Lima, Genioso Irreligioso e Vitor Carvalho, me surpreendeu ver que há gente que pensa em Ciência e sabe debater, formular e espor bem suas idéias e teorias. Legal isso!

    Sobre o ‘princípio da incerteza’ que permeia as teorias e observações do mundo a nível quântico, sinceramente acredito estarem equivocadas por uma razão muito simples. As ferramentas de medições das quais dispomos ainda são inadequadas mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico.

    Todas as verdades absolutas comprovadas nos últimos 30 anos pelo prisma científico repudiaram por fim velhas afirmações sobre as macro e micro estruturas cósmicas. Antes de se poder observar com precisão os átomos, teorizava-se e especulava-se muito sobre eles; quando puderam ser observados com precisão nenhuma das afirmações se sustentaram mais. E por que? As ferramentas evoluiram, pararam-se de ‘imaginar’ e passaram a DESCREVER.

    É o caso das estruturas subatômicas, apesar de existirem ferramentas estas ainda são rústicas para o timo e nível de demanda destas partículas formadoras de átomos. Ocorre que quando, e somente quando, as ferramentas alcançarem o grau de precisão adequado… a mecânica quântica revelar-se-á não tão “romântica” quanto as pessoas preferem-na hoje. Nada de incertezas, aleatoriedade, imprevisibilidade, nada disso. Um dia os cientistas ainda vão revelar ao mundo uma foto, uma imagem, de uma partícula subatômica da qual se descreverão velocidade e posição tão singela e naturalmente quanto se fazem com átomos e moléculas.

    Não sei se alguém entendeu minha proposta, mas resumindo: as ferramentas de que dispomos ainda não são poderosas o suficiente para se afirmar que estamos observando um reino de ‘incertezas’ no mundo quântico. A mecânica quântica é uma ciência equívoca incompleta justamente por não dispor de ferramentas poderosas. Quando dispor delas, vai revelar um universo tão previsível como aquele observado no cotidiano. É isso que tenho a dizer.

    • Deivid Vale:

      Sim claro.
      Mas nos baseando em observações conseguimos comprovar “vendo” esse mundo. É como Dalton que não podia sequer ver um átomo e conseguir
      “comprovar” sua existencia. Mas aí você diz: “Mas Dalton não estava totalmente certo”. De uma coisa eu sei, ele não estava errado também. Montou um paradigma para a idéia ser trabalhada no futuro, em sua época, se ele conseguisse comprovar o modelo atual ele seria um super – hiper gênio. Thomson também não estava errado. Charles Darwin não estava “errado” por não saber qual o FATOR de mudança nos seres, já que ele observou a natureza e descobriu um padrão. Somente depois descobriram que o FATOR era a Genética.
      Hoje as “maluquisses” da Física Quântica me surpreendem. Sabe porque? Por saber que estamos vivendo em um mundo de especulações, da mesma maneira que viveram os contemporâneos de Dalton com suas “especulações” sobre os átomos. Por isso a na ciência chamamos de teoria, sabemos que não conseguimos comprovar muitas coisas do universo. A definição das coisas é feita baseada no que conhecemos atualmente, por isso não podemos dizer que as teorias quânticas vão estar erradas no futuro, podem até estar, mas elas foram um pilar para chegar na verdade, ou que considerarmos verdade no futuro? Bem aí chegamos a um paradoxo.
      Já escrevi demais, acho que me entenderam.

    • Mauro Neto:

      Concordo que o nível dos instrumentos de pesquisa interfere no desenvolvimento da ciência, e que algumas das hipóteses mais “ousadas” da Física Quântica soam românticas e poéticas demais. Mas supor que quando tivermos “ferramentas poderosas” será revelado “um universo (micro) tão previsível como aquele observado no cotidiano”, em minha opinião, é desmerecer a complexidade e a profundidade das idéias construídas ao longo de décadas de estudos. Tais idéias estão realmente incompletas, ainda não verificadas e/ou ainda não verificáveis, e por vezes tangenciam o limiar da razoabilidade, porém o avanço do pensamento quântico tem se revelado extraordinário – ainda que diversificado e incerto. Não acredito que a realidade seja tão previsível, determinada, e certa como a vemos, até porque a vida cotidiana não se mostra completamente assim. Ainda não desvendamos a mente humana, e penso que essa também seja uma grande barreira aos avanços do conhecimento quântico. Enfim…
      O postulado de Everett não está totalmente descartado, mesmo que haja objeções – são elas que fazem as pesquisas irem mais fundo, não?! Violar o princípio da conservação da energia pode ser uma objeção óbvia, direta, e ‘primária’, pois a física quântica ainda carece de precisão (justamente pela questão de ferramentas). Mas as pesquisas são amplas e algumas soluções teóricas podem vir de outros campos como a matéria e energia escura, ou dos buracos negros, e podem revelar mais do que consigamos imaginar atualmente. Quem sabe? Descrições “românticas” (ainda que dentro de estudos científicos) de realidades paralelas são perfeitamente compreensíveis, visto que temos que avançar muito ainda. Entretanto, foi a partir de vislumbres, inspirações e deduções/intuições dos pensadores do mundo antigo que a ciência pode ser fundada no Renascimento, depois de séculos de estudos claudicantes.

  • Vitor Carvalho:

    Nesse exato momento, esse texto está sendo lido por uma pessoa em um outro universo e, nesse texto, informa-se que essa teoria é revolucionária e rebate uma série de outras teorias que postulam a existência de apenas um universo.

  • Genioso Irreligioso:

    “Vivemos em uma “teia” de linhas-do-tempo alternativas? ”

    Dá o que pensar e eu já refleti várias vezes à respeito… já escapei de morrer em acidentes de trabalho duas vezes: se há linhas do tempo alternativas; numa eu poderia ter morrido naquele desabamento de galpão; noutra; ter morrido naquele capotamento de caminhão… e ainda numa terceira; nem ter nascido pra digitar sobre isso! =[

  • Hercules Lima:

    Eu proponho a seguinte alegoria: imagine um objeto suspenso por um barbante. Se perguntarem onde está o objeto naquele momento estático, a maioria responderá que ele está ali parado voltado para baixo. Agora comecemos a dar movimento, rodando o objeto ainda preso pelo barbante, tendo nossa mão como centro da rotação. Se alguém perguntar onde está o objeto agora, alguns responderão “em várias posições ora”, ou “depende do exato segundo”. Porém o objeto ainda é um só. Se essa velocidade de movimento angular fosse próxima à da luz, a resposta para “onde está o objeto?” poderia ser “em vários lugares ao mesmo tempo”, pois o objeto poderia ser sentido em qualquer posição em que você encostasse um dedo. Assim, poderia ser também o multiuniverso. Nós seríamos os mesmos, porém em níveis de vibrações diferentes. Poderíamos estar vivendo outras realidades em frequencias diferentes, tendo consciencia apenas daquela em que estejamos focados. Isso estaria de acordo com a Teoria da Relatividade. Interessante, não? Aceito sugestões …

    • Murilo Mazzolo:

      Admito que fiquei admirado por essa ideia… muito intrigante e poderia(na minha opinião) representar meio que de forma não objetiva.
      Acho que só falta alguma forma de comprovar, encaixar ou adequar de forma mais conclusiva ás leis e conhecimentos na Física, principalmente!
      (isso, na minha opinião) 🙂 kk

    • Ana_Lu:

      É por isso que eu gosto de ler os comentários

    • Luiz De Queiroz:

      Eu lia os comentários esperando encontrar uma lógica que viesse de encontro com o meu raciocínio acerca desta questão. Completou a lógica!

  • PhysicistJB:

    Especificamente essa hipótese se encaixa no 3º nível de universos paralelos entre 4 propostos por Max Tegmark. É justamente esse que eu ACHO menos convincente e que não é muito provável que consigamos testar para possível validação. Os outros 3 níveis ME PARECE mais razoáveis que eu também definiria mais apropriadamente como o Multiverso. Mas, vamos lá, estudar, testar experimentalmente e tentar descobrir se essas hipóteses são boas ou se não condizem com a realidade.

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