Cientistas transplantaram a memória de uma lesma para a outra e funcionou

Por , em 15.05.2018

Um novo estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles (EUA) sugere que memórias podem ser armazenadas no código genético, e transferidas de um animal para outro.

Quando os pesquisadores pegaram esse código de uma lesma marinha e o colocaram em outra, o segundo animal pode se lembrar de coisas que só o primeiro conhecia.

O método

A equipe, liderada pelo neurocientista e biólogo David Glanzman, extraiu RNA de uma molécula mensageira genética de uma lesma, implantando-o em outra. Também colocou o mesmo RNA em neurônios soltos em uma placa de Petri.

Em ambos os experimentos, o receptor – a segunda lesma ou os neurônios – lembrou-se de algo que o doador havia experimentado.

A memória era simples, o tipo de coisa que até mesmo o sistema nervoso baseado em reflexos de uma lesma marinha pode armazenar: um choque elétrico no bumbum.

Quando as Aplysia californica são atingidas na traseira, seus sistemas nervosos enviam sinais simples: a reação é retrair o parápode, um apêndice encontrado no corpo dos animais. Ou seja, quando levam um choque, esse sinal faz as pequenas abas carnudas das lesmas se retraírem.

A transferência

Se você der choques em uma lesma com frequência suficiente, ela se lembrará disso e seus parápodes se retrairão por períodos de tempo cada vez maiores. Esse é um comportamento simples baseado em uma memória simples. O que os cientistas mostraram foi que podiam “sugar” essa memória de uma lesma e colocá-la em outra.

As lesmas destinatárias, que não haviam levado choque, foram expostas ao RNA ou de um animal treinado – uma lesma que já tinha levado muito choque – ou de outra lesma também não treinada.

Quando o RNA veio de uma lesma que não havia sido atingida, as receptoras da memória agiram de forma mais “ingênua”, retraindo brevemente seu parápode após um choque.

Já quando as destinatárias foram expostas ao RNA de um animal que já havia sido atingido, retraíram seus parápodes por períodos mais longos, como se tivessem esperando mais choques. Em outras palavras, como se tivessem recebido os próprios choques iniciais de “ensino”.

Nos neurônios

Os cientistas conseguiram ver o efeito em um nível ainda mais básico, nos neurônios em uma placa de Petri.

Quando os pesquisadores banharam os neurônios com o RNA de um caracol treinado por 24 horas, ao sinal do choque, as células liberam uma substância química chamada serotonina e dispararam violentamente, como uma forma de avisar seus parápodes inexistentes para se retrair.

Quando os neurônios foram banhados em RNA de caracóis não treinados, as reações das células nervosas foram mais curtas e menos intensas.

Onde fica a memória?

Tem havido um longo debate na neurociência sobre o local onde as unidades essenciais da memória são armazenadas – principalmente no “transcriptoma” (as longas moléculas dentro das células também usadas para registrar genes) ou no “conectoma” (a rede de ligações entre as células nervosas)?

A teoria do transcriptoma foi mais popular no século 20, enquanto mais tarde as pesquisas e financiamentos voltaram-se para o conectoma.

Atualmente, existem várias tentativas de mapear o conectoma em humanos, e alguns pesquisadores até sugerem que ele poderia ser usado para preservar memórias humanas após a morte. Poucos estudos produziram evidências conclusivas, no entanto.

Segundo Glanzman, a sua pesquisa é uma forte evidência para deixarmos de lado as conexões sinápticas e nos concentrarmos nas mudanças epigenéticas baseadas no RNA, ou seja, mudanças na forma como as células interagem com seu código genético.

Próximos passos

Apesar dos resultados promissores, mais experimentos confirmatórios são necessários para validar essas descobertas em outros modelos.

Os pesquisadores ainda não sabem dizer como essa transferência aconteceu, e o tipo de memória transferida, a sensibilização de um reflexo, está entre as mais básicas que existem.

Glanzman afirmou que o próximo passo da pesquisa é tentar feitos similares de transferência de memória envolvendo tipos mais complexos de lembranças em modelos animais também mais complexos, como ratos.

O estudo foi publicado na revista científica eNeuro. [LiveScience]

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