Pelo cocô desse caçador-coletor, sabemos que ele comeu uma cascavel inteira, até a presa

Por , em 24.04.2019

Um cocô humano fossilizado de 1.500 anos contém evidências de um antigo caçador-coletor que consumiu uma cascavel inteira, incluindo uma presa.

O fóssil foi encontrado em um sítio arqueológico conhecido como Conejo Shelter, na região de Pecos Canyonlands, no sudoeste do Texas (EUA).

Os arqueólogos nunca viram nada parecido, e acreditam que o consumo pode ter sido ritualístico.

Conejo

No final da década de 1960, arqueólogos coletaram mais de mil amostras de coprólitos (fezes fossilizadas) produzidos por humanos em Conejo. Recentemente, uma equipe liderada por Elanor Sonderman, da Universidade Texas A & M, deu uma nova olhada nos itens. Analisar cocô antigo pode parecer desagradável, mas é importante porque permite aos cientistas reconstruir costumes e dietas de povos antigos.

E, de fato, os pesquisadores fizeram uma descoberta notável. Uma amostra peculiar continha vários traços de vegetação e até mesmo um pequeno roedor que, aparentemente, foi comido cru. Para os caçadores-coletores de Pecos, isso não era incomum.

A mesma amostra de coprólito, no entanto, também continha vestígios de uma cascavel inteira, com pedaços de ossos, escamas e até uma presa.

Essa é provavelmente a primeira evidência do consumo de cobras inteiras cruas no registro fóssil. O ato ingestivo único – e potencialmente fatal – provavelmente foi feito por razões cerimoniais ou ritualísticas, não por nutrição.

Os povos antigos de Pecos

A região de Pecos foi habitada pela primeira vez por seres humanos há cerca de 12.000 a 14.000 anos atrás. Conejo é um abrigo rochoso localizado perto da junção dos rios Rio Grande e Pecos, que servia como espaço seguro para caçadores-coletores indígenas.

A quantidade de coprólitos encontrada em uma área específica do abrigo sugere que aquele espaço foi designado como uma latrina. Um segundo coprólito descoberto dentro da mesma camada estratigráfica que o cocô com a presa de cobra foi datado entre 1.529 a 1.597 anos atrás, aproximadamente 1.000 anos antes da chegada dos europeus ao Novo Mundo.

Segundo os pesquisadores, os caçadores-coletores pré-colombianos que viviam na região de Pecos tinham que lidar com condições relativamente adversas e desérticas, se alimentando de pequenos animais como roedores (incluindo coelhos), peixes, répteis e qualquer outra coisa que pudessem encontrar. Presas grandes, como veados, eram relativamente raras.

A vegetação desempenhava um papel importante na vida dos povos da região, que utilizavam plantas como alimento e medicamento e para produzir itens como sandálias, cestas e esteiras.

A cultura de Pecos também é conhecida por sua elaborada e extensa arte rupestre, que frequentemente representava cobras.

Comum

Na maior parte, a amostra bizarra de cocô era muito semelhante a outros coprólitos humanos encontrados no local.

Este indivíduo em particular consumiu uma grande variedade de plantas com valor nutricional e medicinal. A equipe de Sonderman encontrou traços de Agave lechuguilla e Liliaceae, plantas cujas flores eram tipicamente consumidas. O cocô fossilizado também continha evidências de Dasylirion, relacionada à família dos aspargos, e Opuntia, um cacto mais comumente conhecido como pera espinhosa. Estas plantas provavelmente foram consumida na primavera ou no início do verão.

Restos de um pequeno roedor também foram encontrados, “comido inteiro, sem indicação de preparação ou cozimento”, de acordo os autores do estudo, o que não é uma surpresa.

Restos de pelos e ossos de roedores são frequentemente encontrados em coprólitos humanos da região de Pecos que remontam a esse período, então os arqueólogos consideram que esta prática era corriqueira.

Incomum

O consumo da cobra inteira e sem preparação, no entanto, foi inesperado. Trata-se de uma serpente venenosa e víbora, ou uma cascavel conhecida como Diamondback ou uma serpente-cabeça-de-cobre, o que é menos provável devido ao tamanho da presa.

Evidências do consumo de cobras são comuns no registro arqueológico. O povo Tepehuan do nordeste do México, por exemplo, comia cascavéis, mas só depois de remover a cabeça, o chocalho e a pele (inclusive as escamas) e cozinhá-la. O mesmo ocorria com o povo Ute, de Utah e Colorado, que esfolava e assava cobras sobre brasas.

A presença de escamas, ossos, uma presa e a cabeça venenosa na amostra de coprólito é excepcionalmente incomum. Caso você esteja pensando que uma cobra morreu nas proximidades e se misturou sem querer com a matéria fecal desse indivíduo, isso é altamente improvável. Os materiais indigestos no coprólito estavam revestidos de matéria fecal, e a presa estava dentro das fezes fossilizadas.

Dados os outros itens alimentares encontrados no cocô, é improvável que o indivíduo estivesse morrendo de fome ou desesperado por comida. Tudo isso sugere que algo além de sustento, talvez algum tipo de ritual, foi o motivo da refeição.

Ritualístico

As cobras detinham um status simbólico importante para as pessoas que viviam nessa região. Os animais eram “considerados detentores do poder de agir sobre certos elementos da Terra”, segundo os pesquisadores.

Por conta de seu papel em várias mitologias, muitas culturas ao redor do mundo incluem cobras como uma característica de cerimônias e rituais. A partir de análises culturais e de arte rupestre da região, os arqueólogos confirmaram que as serpentes tinham significado ritual para as populações indígenas do Pecos.

Uma limitação importante deste estudo, entretanto, é que essa amostra é isolada. É possível que a cobra tenha sido comida por um indivíduo particularmente excêntrico ou curioso, e não no contexto de uma cerimônia.

Encontrar mais evidências do consumo de cobras inteiras entre os povos de Pecos daria mais suporte à alegação de que isso era algo feito “regularmente” em ocasiões especiais.

Um artigo sobre a descoberta foi publicado na revista científica Journal of Archaeological Science: Reports. [Gizmodo]

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