Humanos: a incrível evolução de caçadores-coletores a detentores de iPad

Por , em 11.11.2014
Índio Kayapó

Índio Kayapó

Como passamos de caçadores-coletores a uma espécie que domina tão completamente o planeta?

Certamente, o caminho foi longo. Ruth DeFries, do departamento de ecologia, evolução e biologia ambiental da Universidade de Columbia (EUA), crê que a comida teve um papel central nessa evolução.

Autora do livro “The Big Ratchet: How Humanity Thrives in the Face of Natural Crisis” (em português, algo como “A Grande Cremalheira: Como a humanidade prospera em face da crise natural”), DeFries passou grande parte de sua carreira utilizando imagens de satélite para rastrear o desenvolvimento humano.

A cremalheira é uma ferramenta mecânica que, quando acionada em uma direção, não pode voltar atrás. O dispositivo foi usado do título do seu livro para referir-se às maneiras como as pessoas descobriram como manipular a natureza para produzir alimentos.

Uma vez que criamos essas tecnologias, que produzem mais alimentos, elas passaram a engrenar toda a nossa fabricação, e esse processo só anda para frente. Nos últimos 50 anos, a quantidade de alimentos produzidos superou até mesmo o crescimento explosivo da população.

Assim, a história da Grande Cremalheira é como chegamos a este ponto: através da genética, dos nutrientes, da irrigação e de pesticidas, entre outras milhares de tecnologias inventadas para superar as restrições que a natureza colocou para nós.

Evolução da produção de comida = evolução da sociedade

DeFries fez um trabalho na floresta tropical brasileira usando dados de satélite para monitorar o desmatamento. Ela descobriu a maior taxa de deflorestação do mundo no estado de Mato Grosso, no início de 2000. No mesmo cenário, porém, também encontrou uma reserva pertencente aos índios Kayapó, que ainda viviam como caçadores-coletores.

“Houve essa justaposição surpreendente entre esse grupo e a agricultura moderna, com tratores, aviões liberando pesticidas e tudo o mais que você puder pensar”, contou a pesquisadora.

Segundo ela, antes de começarmos a domesticar plantas e animais dez ou doze mil anos atrás, todos viviam como os Kayapó, caçando animais silvestres e colhendo sementes, bagas e frutos – essa era a maneira com que interagíamos com a natureza para obter alimentos.

Hoje, uma porcentagem muito pequena da população mundial ainda vive desse jeito. A maioria vive em cidades e compra comida no supermercado.

Segundo DeFries, todo esse progresso tecnológico na produção de alimentos também permitiu que a sociedade evoluísse como um todo.
A comida é fundamental para a civilização – sem ela ninguém vive. Quando domesticamos pela primeira vez culturas e fomos capazes de produzir grãos excedentes e armazená-los, isso mudou completamente a forma como podíamos viver.

Os seres humanos passaram a ter a possibilidade de se reunir em assentamentos e se alimentar desse excedente de grãos, ao invés de viajar por toda a paisagem para perseguir comida.

Isso por sua vez tornou possível para algumas pessoas se especializarem em determinadas tarefas, desde cerâmica a ser governantes.
Hoje, coisas como computadores, smartphones e iPads existem por causa da nossa capacidade de produzir excedente de alimentos. Se ainda tivéssemos que nos concentrar em procurar comida acima de tudo para viver, não seria possível para algumas pessoas aplicar sua criatividade em desenvolver tecnologias que levam a essas invenções “supérfluas”.

A diferença entre nós e o resto

E como passamos de viver como os Kayapó a transportar comida cultivada em larga escala para o outro lado do mundo para alimentar animais que acabam no prato de jantar de alguém em um lugar muito distante?

Mais: por que só nós fazemos isso?

Uma das teorias para explicar por que nossa espécie é a mais inteligente e tem cérebros grandes em relação ao nosso tamanho do corpo é que há milhões de anos, durante o Pleistoceno, vivemos em um clima muito variável.

Ter um cérebro grande, capaz de descobrir as coisas sozinho ao invés de apenas confiar no que foi aprendido anteriormente, permitiu que os seres humanos sobrevivessem melhor em um clima mutável.

Essa característica ajudou cada geração humana a aprender algo de novo.

Os grandes símios, como chimpanzés e outros parentes próximos dos humanos, sabem copiar, imitar e podem até aprender, mas não podem passar isso adiante.

Por exemplo, na década de 1950, cientistas estudaram Imo, uma macaca japonesa muito inteligente. Quando ela aprendeu a lavar sua batata antes de comer, outros macacos começaram a imitá-la e a lavar suas batatas no córrego também. Mas a tecnologia não foi além disso.

Os outros macacos não encontraram outras maneiras de lavar as batatas e passar essa informação aos seus descendentes que conseguiram descobrir ainda melhores maneiras de lavar batatas.

Nós, os seres humanos, temos a capacidade de acumular conhecimento. Podemos passar uma tarefa para a próxima geração, que vai melhorá-la. Essa geração vai passar para a próxima, que também vai melhorá-la ainda mais e assim por diante.

Resta torcer para que usemos todo esse conhecimento para gerenciar essa produção excedente de alimentos, também. O mundo está enfrentando sérios problemas ambientais, e um dos mais graves é o desperdício.

DeFries não é nem otimista nem pessimista quanto a nossa capacidade de lidar com esses problemas, mas ela reconhece que temos um grande problema a resolver nos próximos anos: o de produzir alimentos suficientes para a população mundial, que sejam saudáveis tanto para as pessoas quanto para o meio ambiente. [NatGeo]

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