Por que alguns cães comem cocô?

Por , em 22.01.2018

Não é todo cão que tem esse comportamento, mas certamente você já observou pelo menos uma vez na vida algum cachorro se deliciando com um banquete de fezes recém-fabricadas.

Por quê?

Alerta

Antes de mais nada, se você ainda está lendo esse artigo apesar do assunto, talvez seja pessoal. Seu melhor amigo é um comedor de cocô.

Iremos esclarecer algumas (apenas algumas) de suas dúvidas, mas é bom preparar o seu estômago para os parágrafos seguintes.

O estudo

O termo científico para este fenômeno é coprofagia, ou “prática de ingestão de fezes”, um comportamento que não é incomum entre muitos animais.

Um novo estudo conduzido pelo veterinário Benjamin Hart e seus colegas da Universidade da Califórnia em Davis (EUA) tentou analisar tal comportamento em cães, usando duas pesquisas online: uma delas com animais que comiam e não comiam fezes, e outra focada exclusivamente nos comedores.

Mais de 3.000 donos de cães participaram, sendo que a maioria era dos EUA seguido do Canadá.

Enquanto os proprietários observaram que os cães comiam fezes de outras espécies também, como de gatos, vacas, cavalos, pássaros, porcos, ovelhas e cabras, o estudo analisou exclusivamente o consumo de fezes de cães.

Seu cão é realmente um comedor de cocô?

16% dos proprietários relataram ver seu cão comer cocô mais de 6 vezes. Esse foi o critério da pesquisa para definir um verdadeiro “comedor de cocô”. Ou seja, muitos dos donos nunca viram ou raramente viram seu cão fazendo isso, embora exista a possibilidade de que os proprietários de cachorros coprófagos simplesmente não tenham feito a pesquisa.

O questionário focado exclusivamente nos cães comedores, entretanto, teve quase 1.500 respostas, com 62% dos animais comendo cocô diariamente e 38% semanalmente.

O que faz um cachorro comer cocô?

Os especialistas geralmente sugerem que animais comem fezes por seu valor nutricional. Será que isso significa que seu cachorro está passando fome, ou está desnutrido?

Não necessariamente. Os pesquisadores tentaram, mas não conseguiram diferenciar muito bem os comedores dos não comedores de cocô. No estudo, a coprofagia não foi associada à idade do cachorro, ao sexo, à castração, à idade de separação da mãe, à facilidade de treinamento doméstico ou a numerosos comportamentos problemáticos descritos pelos proprietários.

Comedores e não comedores também não diferiram na dieta, o que é notável, uma vez que a nutrição pode ser ligada à coprofagia. Contudo, há uma chance de as perguntas da pesquisa não terem levantado as nuances necessárias para explorar uma relação entre dieta e consumo de cocô.

Por fim, o estudo não identificou uma relação entre coprofagia e comportamentos compulsivos ou ansiosos, como outros estudos fizeram. Em resumo: é difícil adivinhar corretamente por que um cão come caca.

Mas pode haver alguns indicadores

Algumas diferenças entre comedores e não comedores de fato surgiram na pesquisa.

Por exemplo, em famílias com mais de um cão, era mais propenso haver comedores de cocô, possivelmente porque há mais cocôs para serem aproveitados como refeição, ou talvez porque o consumo de fezes tenha um componente social, mesmo que aprendido.

Para alguns cães, o tédio pode desempenhar um papel no desenvolvimento ou manutenção desse comportamento, também. E, dado o entusiasmo com que alguns cães se banqueteiam, é preciso considerar que o comportamento pode afetar (positivamente) os sentidos dos animais, como odor e sabor.

Aliás, os cachorros coprófagos eram mais propensos a ser descritos como “comedores gananciosos”, em oposição a comedores “normais” ou “contidos”. E 85% estavam interessados em “produtos” frescos, preferindo fezes com menos de dois dias de idade.

Esse interesse por fezes frescas levou os pesquisadores a sugerirem que “comer cocô” poderia ser um comportamento adaptativo herdado de antepassados selvagens, a fim de eliminar fezes do meio ambiente antes que infecções parasitas pudessem se espalhar. Ou, talvez, os cães tenham aprendido esse comportamento à medida que eliminaram fontes de alimentos em ambientes humanos. Ambas as hipóteses precisam de mais estudos, no entanto.

Como fazer meu cão parar de comer cocô?

Agora, passando para as verdadeiras más notícias: Hart e seus colegas pediram para os donos dos cães relatarem a eficácia de 11 produtos comerciais destinados a ajudar os animais a parar com o comportamento, e eles não pareciam ajudar em nada.

A taxa de sucesso relatada para aditivos alimentares ou comprimidos comercializados para coprofagia variou de 0 a 2%.

Os donos também compartilharam suas experiências com treinamentos de modificação de comportamento. Nada conseguiu extinguir de vez o hábito, mas tentar recompensar o cão por não comer cocô não custa nada.

Conclusão: não há solução, exceto limpar o cocô rapidamente. Essa é a maneira mais segura de diminuir o comportamento.

Devo me preocupar?

No geral, comer cocô não é um grande problema de saúde, mas já foi ligado a diarreia e a propagação de diferentes doenças, dependendo do que foi consumido. Logo, o comportamento pode ter bases médicas e um veterinário deve ser consultado se você estiver preocupado com seu bichinho. [ScientificAmerican]

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