Como os transgênicos podem acabar com o problema da fome

Por , em 8.04.2015
Pamela Ronald

Pamela Ronald

Pamela Ronald é uma geneticista de plantas que participou de uma conferência TED2015 para falar um pouco mais sobre seu trabalho. Resumidamente, trata-se de estudar os genes que tornam as plantas mais resistentes a doenças.

Prazer, Pamela

Mas antes de começar a falar do seu trabalho, tem um fato bastante curioso para sabermos sobre ela: seu marido, chamado Raoul, é um agricultor orgânico. Seria esse um daqueles casos em que os opostos se atraem?

Bem, pode até parecer que eles jamais concordariam com alguma coisa em uma discussão profissional, mas a verdade é que eles compartilham de um mesmo objetivo: ambos querem ajudar a alimentar a população (que está cada vez maior) sem causar maiores danos ao meio ambiente.

Melhoramento genético não é novidade

Para quem chega a uma notícia como essa achando que a tecnologia deu um salto do dia para a noite, calma. Não é bem assim. Essa técnica, aliás, já vem sendo usada há muitos anos. Antigamente, o milho era tão duro que não podia ser mastigado. As bananas já foram cheias de sementes. As couves de Bruxelas não eram porções individuais. E assim vai. Como bem lembra Pamela, para criar essas culturas, os agricultores tiveram que utilizar alguns tipos de técnicas de manipulação genética.

A diferença é que, hoje em dia, as técnicas são mais variadas. E com todos os avanças nesse campo, algumas se tornaram absolutamente precisas.

Arroz com feijão

Pamela tem como objeto de estudo principal o arroz, que é o alimento básico de mais da metade da população mundial. Segundo ela, a cada ano, 40% da colheita de arroz é perdida por conta de pragas e outras doenças. Sendo assim, os agricultores dependem de genes mais resistentes para salvar a plantação.

Não precisamos ficar ao acaso

Quando Pamela começou seu trabalho, ninguém sabia exatamente o que esses genes eram. Seu laboratório ajudou a isolar um chamado “Xa21” que faz com que o arroz fique resistente à infecção bacteriana, e o desenvolveu em plantas. Após a publicação deste trabalho, Pamela foi abordada por um colega, chamado Dave Mackill, que estava justamente trabalhando em como tornar o arroz mais resistente em casos de alagamento.

De acordo com a cientista, embora o arroz cresça bem em água parada, a maioria das variedades vai morrer se ficar submersa por mais de três dias.

E tem outro problema muito sensível: o inundamento de colheitas é um problema cada vez mais presente e comum por conta das mudanças climáticas que o planeta vem sofrendo.

Segundo o pesquisador Mackill, 70 milhões de produtores de arroz estão tendo problemas pois os seus campos estão inundados. Eles estão vivendo com menos de 2 dólares por dia.

Para mudar essa história

Os dois começaram uma pesquisa que durou uma década e contou com a colaboração do estudante Kenong Xu para identificar e isolar um gene que pode ajudar a reverter esse problema e tornar plantas mais resistentes.

Eventualmente, eles tiveram sucesso com a descoberta do gene Sub1.

Em um teste de efeito estufa, o arroz geneticamente modificado que contava com o gene Sub1 sobreviveu a 18 dias de inundação, enquanto o arroz padrão morreu.

E tem mais

“E eles produzem três vezes mais grãos do que a variedade convencional”, comemora Pamela.

No ano passado, 3,5 milhões de agricultores cultivaram arroz com o gene SUB1, graças ao apoio financeiro da Fundação Bill e Melinda Gates.

“Muita gente não se importa com a modificação genética quando se trata de genes de arroz”, comenta Pamela, “mas quando se trata de tomar genes de vírus e bactérias e colocá-los em plantas, as pessoas dizem ‘Eca! Por que os cientistas fazem isso?'”.

A resposta de Pamela é certeira. “Porque às vezes é o mais seguro, a tecnologia mais barata e mais eficaz para avançar a agricultura sustentável e melhorar a segurança alimentar”.

Ela nos dá alguns exemplos. Como, por exemplo, na década de 1950, quando a cultura do mamão, na ilha de Oahu, no Havaí (Estados Unidos) foi ameaçada por um vírus da mancha anelar. Muitas pessoas pensaram que o mamão havaiano estava condenado à extinção. Mas um patologista da planta havaiana local chamado Dennis Gonsalves teve uma ideia. Ele emendou um trecho do DNA do vírus no genoma do papaya, e funcionou – criou uma mamão resistente ao vírus. “Seu trabalho pioneiro é conhecido por resgatar a indústria do mamão”, diz Pamela.

Vinte anos mais tarde, nenhum outro método ainda é tão eficaz. 80% de todo o mamão havaiano é agora manipulado deste modo.

Agricultura de precisão

Em Bangladesh, uma praga de lagarta está devastando a cultura da berinjela. “Para controlar esta praga, os agricultores pulverizavam inseticidas 2 a 3 vezes por semana, às vezes até duas vezes por dia”, conta Pamela. É claro que isso ameaçava a própria saúde do agricultor. “Estima-se que 300.000 pessoas morrem todos os anos por causa da exposição e uso indevido de inseticidas”.

Os agricultores biológicos, como seu marido, usam um spray chamado Bt, que é altamente específico para lagartas, e absolutamente seguro para os seres humanos, aves e outros animais. Ele é considerado menos tóxico do que o sal de mesa, alerta Pamela.

Mas essa abordagem não funciona para os agricultores em Bangladesh, porque o inseticida em questão é caro e difícil de encontrar. “Na abordagem genética, os cientistas cortam o gene Bt para fora das bactérias e o inserem diretamente no genoma de berinjela”, diz Pamela. Esta técnica foi utilizada na última temporada e ajudou os agricultores a reduzir o uso de inseticidas a zero.

Cura para a fome?

Um último exemplo tem a ver com a desnutrição. Nos países menos desenvolvidos, a deficiência de vitamina A faz com que cerca de 500.000 crianças fiquem cegas a cada ano. Mais da metade morre.

Para tentar ajudar, cientistas criaram um arroz geneticamente modificado chamado de “arroz dourado”, que tem B-caroteno, um precursor da vitamina A. A estimativa é que apenas uma xícara de arroz dourado por dia irá reduzir a cegueira e as mortes de milhares de crianças cada ano.

Mas, ainda assim, o “arroz dourado” foi violentamente atacado por grupos de ativistas.

Ela aponta para um momento no ano passado quando alguns deles invadiram e destruíram uma cultura do arroz dourado. “Quando eu ouvi sobre isso, eu me perguntei se os ativistas perceberam que tinham destruído muito mais do que um importante projeto de investigação científica – que tinham destruído os medicamentos que as crianças precisavam desesperadamente”, lamenta Pamela.

Engenharia genética para o futuro

A engenharia genética tem sido utilizada comercialmente há mais de 40 anos para a fabricação de vinhos, queijos e muito mais. E nesse tempo, não houve um caso de danos à saúde humana ou para o meio ambiente, ressalta a pesquisadora.

Ela faz um apelo: “Eu não estou pedindo para você acreditar em mim. A ciência não é um sistema de crenças. Minha opinião não importa. Vamos olhar para as provas. Após 20 anos de estudos cuidadosos e rigorosa revisão por pares por milhares de cientistas independentes, cada grande organização científica do mundo concluiu que o processo de engenharia genética é tão seguro ou mais seguro quanto os mais velhos métodos de modificação genética”.

E finaliza: “O que me assusta mais sobre os argumentos e a desinformação sobre genética de plantas é que as pessoas mais pobres, as pessoas que mais precisam da tecnologia, podem ter o acesso a essa tecnologia negado por causa dos medos e preconceitos daqueles que têm o suficiente para comer”. [TED]

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