Consumismo e as cumbucas pós-modernas

Por , em 13.05.2013

O consumismo e as cumbucas pós-modernas

Em janeiro de 2011 adquiri por um preço módico um desses “smartphones” queridinhos da moda numa promoção realizada por uma operadora.

Muitos colegas de trabalho, clientes, alunos e até familiares elogiaram minha aquisição, citando todas as inegáveis vantagens dessa “maravilha da tecnologia”:

  • Além de telefone é máquina fotográfica;
  • É também computador,
  • Possibilita o acesso à internet,
  • Possui GPS integrado,
  • Pode carregar e-books, ler e enviar e-mails,
  • Etc., etc., etc.

Ficando cada vez mais surpreso com minha inteligência e meu senso de oportunidade por tê-lo comprado. (Hoje vejo que a inteligência e o senso de oportunidade foi de quem me vendeu o aparelho).

De fato fiquei muito feliz com a compra naquela ocasião.

Fui órfão dos “Pocket-PCs” por muito tempo e quando pude aliar telefone ao computador numa única gerigonça portátil, fácil de carregar pelos aeroportos da vida, tornando-se tábuas de salvação em intermináveis horas de espera em “check ins” por esse mundo afora, comecei a ter fé nos tecnólogos de plantão.

Sem perceber que eu tinha sido fisgado vivi o sonho durante um semestre.

Em agosto de 2011 o mesmo aparelho ainda figurava em minha aljava e meus antigos admiradores transformaram-se em meus inquisidores:

– Ainda com o mesmo aparelho?

– Não vai trocar?

– Já chegou o novo modelo, sabia?

– Deixa de ser pão-duro!

E assim por diante.

Eu nem cogitava trocar de aparelho.

Afinal o pobrezinho estava praticamente novo e atendia todas as minhas necessidades.

Quando manifestei essa ideia de gente comedida – que só compra coisas que realmente necessita – quase fui crucificado.

A lição do pós-modernismo é simples:

– Mantenha seu status a qualquer preço.

Afinal a imagem de pessoa “antenada” que eu havia conquistado não tinha preço!

Em verdade tinha preço, sim! – e era muito alto.

Ora, dane-se!  Afinal eu “podia” comprar um aparelho novo!  Eu trabalhava para isso. Para me proporcionar esse conforto.

O fato de que o antigo continuasse atendendo minhas necessidades era apenas um detalhe. Eu poderia vendê-lo, doá-lo, etc.

– Afinal, o novo modelo era mais bonitinho e tinha uma tela 0,25 polegadas maior!

Com esses e outros pensamentos, confesso que quase sucumbi à tentação – mesmo percebendo a sutil armadilha do consumismo:

– Tentado fazer com que eu preenchesse com coisas materiais um vazio que não poderia nunca ser preenchido com coisas materiais.

Eu sabia que o telefone era apenas a ponta do iceberg. Teria o carro zero, a moto, o trailer, o barco, a casa de praia, a casa de campo, a casa da montanha, a casa da serra, a casa do bosque…

De repente entendi por que meu vizinho trabalhava muito, fazendo o que não gostava, para comprar tantas coisas que não precisava:

– Ele queria muito impressionar um monte de pessoas que não conhecia!

Acho que devido a esse exemplo de obsessão e infelicidade que grassava ao meu lado eu não me conformava com a ideia:

Por que estourar meu cartão de crédito para comprar coisas que eu não preciso?

Sem tantas contas para pagar eu posso trabalhar menos. Ter mais tempo para descansar, curtir a família e os amigos.

Ser um pouco mais livre e  ter um pouco mais de vida, afinal!

Para concluir,

Uma releitura de uma das fábulas de Louis Pauwels,  de como as antigas tribos caçavam os macacos que compunham parte de seu cardápio:

Eles amarravam nos coqueiros preferidos desses primatas algumas cumbucas, todas cheias de pistaches.

No entanto, a abertura de cada cumbuca era estreita o suficiente para permitir a passagem de apenas uma das mãos – e esta – sempre estando aberta.

Uma vez que o animalzinho fechasse sua mão sobre a prenda, o punho assim cerrado ficaria preso no estrangulamento da cumbuca, aprisionando, por sua vez, o próprio animal.

Evidentemente se o animal abrisse a mão, ele escaparia facilmente. No entanto, seu instinto não o permitia.

E assim, ficava o infeliz aprisionado à cumbuca, gritando, forçando suas amarras, sem abrir sua mão e, portanto, sem conseguir escapar de seu destino.

Por vezes eu flagro boa parte da humanidade nessa mesma situação:

– Sendo prisioneira de seus pertences.

E nas palavras de Pauwels:

“- É necessário apalpar, examinar os frutos-armadilhas, depois afastarmo-nos com rapidez. Satisfeita a curiosidade, convém dirigir imediatamente a nossa atenção para o mundo em que estamos, recuperar a nossa liberdade e a nossa lucidez, retomar o caminho sobre a Terra dos Homens da qual fazemos parte.”

 

-o-

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

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Navegando entre a literatura fantástica e a ficção especulativa Mustafá Ali Kanso, nesse seu novo livro “A Cor da Tempestade” premia o leitor com contos vigorosos onde o elemento de suspense e os finais surpreendentes concorrem com a linguagem poética repleta de lirismo que, ao mesmo tempo que encanta, comove.

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Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.

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19 comentários

  • Robson Da Silva:

    “Quanto menos comes, bebes, lê livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça.” Karl Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos

    O pensamento consumista já está tão difundido no pós-modernismo que é difícil pensar em uma sociedade sem ele. Leiam Marx, ele ensina que dá pra mudar esse sistema, mas isso só será possível com luta.

  • Will Singer:

    Putz! Excelente!!! Obrigado.

  • Deivid Rodrigues:

    Gostei muito do artigo.
    Tenho um Nokia de 2007, que por sinal me atende muito bem. Também sou crucificado por essa atitude.
    Vivem me dizendo: Como alguém que trabalha com tecnologia não possui um celular moderno? Mas as pessoas simplesmente não entendem que só compro o que me é necessário. Vou mandar um link do artigo para eles verem.
    Obrigado Professor.

  • Evandro Oliveira:

    excelente texto…

    infelizmente, a escravidão não para nos materiais…
    mas nos vicios, hábitos, estilo de vida, pensamentos, ideologias…

  • Ana Suzuki:

    Se tenho que trocar um aparelho recém-antigo por um novo, quase tenho que faz um curso para saber como operá-lo. Acho isso
    muito aborrecido, além de dispendioso. Mas tenho a impressão de que, no íntimo, os seres humanos sempre foram consumistas. Só faltava uma coisa para que a mania se manifestasse – o crediário.

  • Paulo Basso:

    “A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga, um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”. Se não me engano é do Huxley, sintetiza bem o que estamos vivenciando. E, mais uma vez, meu parabéns ao Mustafá pelas suas abordagens claras e pertinentes.

  • MIG10:

    Como diz o sábio:
    Quando aumentam os bens, também aumentam os que os consomem. E que benefício trazem os bens a quem os possui, senão dar um pouco de alegria aos seus olhos?

    Todo o esforço do homem é feito para a sua boca, contudo, o seu apetite jamais se satisfaz.

  • Odicesar Santi:

    Ótimo artigo! Adorei!
    Penso muito a respeito desse assunto quando vejo alguns amigos trocando de celular a cada 6 meses ou assumindo dívida para trocar de carro todo ano.
    Hoje em dia, infelizmente, é mais importante “ter” do que “ser”.
    Uma inversão total de valores. Uma pena.

  • tommy lommy:

    Mais aterrorizante é que a cada vez mais se aprisionam pessoas com gaiolas falsas, o físico tende a tornar-se virtual, um mundo de mentiras e não estou falando de computadores.

  • Elizabeth:

    Excelente artigo. Parabéns!!!

  • Sonia Margarida Ribeiro Guedes Rocha:

    Esse texto diz tudo. Excelente!!

    • Sonia Margarida Ribeiro Guedes Rocha:

      É claro que gostei

  • Aldejane:

    ultimamente o consumismo supera até carater.
    se voce tem o celular da hora ou o carro do ano … muito pouco importa sua indole. conheço pessoas com estes pensamentos e fico boba em perceber que somos o que temos!
    o consumismo acima de tudo vem acabando com os recursos naturais que temos. deviamos parar de investir em modernidade e passar a pensar em conservação!
    é eu penso assim!!!!

  • Matianelus:

    Parabéns pelo artigo! Um dos melhores que já li e o que mais me fez refletir!…

  • Bruno Rosa:

    É claro, há algum tempo, pra mim que vivemos num mudo de valores contrários. Ninguém pensa por si, se influenciam e aceitam tudo que é dito pela televisão ou canais de mídia.
    Já fui consumista e não imagina as consequencias de nenhuma das pequenas ações que tomamos todos os dias… Enfim. Tenho hoje cada vez mais divulgado e tentado trazer as pessoas a idéia que podemos viver em um mundo de abundancia (não exageros) e que ninguém mais precisa passar fome. Que o mundo é um palco e que poucos realmente se “dão bem”.

  • Elcio Ielpo:

    Brilhante crônica! Professor…

  • Angelo Di Santo Neto:

    Torna-se escravo de bens materiais é realmente algo fútil, em um mundo transitório em que nada pode ser levado para o outro lado, depois da grande viagem.

  • Marcelo Ribeiro:

    Eu tenho pensado muito sobre esta armadilha que é o excesso de bens materiais, de toda a natureza. Eles acabam sendo sugadores de tempo e energia.

    • Marcelo Ribeiro:

      Principalmente os parcelados e os financiados.

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