Mulher que doou corpo para ciência tinha vários órgãos nos lugares incorretos

Por , em 11.04.2019

Rose Marie Bentley teve uma vida bastante saudável. Ela nasceu em uma cidade litorânea no estado americano de Oregon em 1918, se voluntariou como auxiliar de enfermeira na Segunda Guerra Mundial, casou-se e teve cinco filhos enquanto trabalhava como cabeleireira.

Ela morreu aos 99 anos, de causas naturais, sem saber que seu corpo era muito especial. O caso raro só foi descoberto quando estudantes da Universidade de Ciência e Saúde de Oregon (OHSU) abriram o seu peito para estudar seu coração em março de 2018.

O estudante de medicina Warren Nielsen fazia parte da turma de anatomia que estava estudando cadáveres no laboratório da universidade. Quando o seu grupo de cinco estudantes olhou para o coração de Rose, todos ficaram confusos pela falta da veia cava inferior, uma grande veia que normalmente fica do lado direito do órgão.

Os alunos chamaram os professores, que inicialmente pensaram que a dúvida se devia à falta de experiência e estudo dos alunos. Mas logo eles também ficaram perplexos com a configuração do coração da idosa.

A anatomia de um coração normal (esquerda) e do coração de Rose (direita), segundo esquema dos pesquisadores

A veia cava de Rose passava pelo lado esquerdo do coração, e a equipe logo percebeu que vários outros órgãos da mulher estavam no lugar errado: o fígado estava do lado esquerdo do corpo, o baço estava do lado direito e o colo ascendente do intestino estava invertido.

Anatomia normal dos órgãos (esquerda) e do sistema digestivo de Rose (direita), segundo pesquisadores que relataram o caso

Várias veias que ficam na região do fígado e da cavidade do peito estavam faltando ou surgiam de lugares incomuns. O pulmão direito dela tinha apenas dois lóbulos, ao invés de três. Já o átrio direito do coração tinha duas vezes o tamanho normal.

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Situs inversus com miocardia

Rose tinha situs inversus com miocardia, ou seja, vários de seus órgãos tinham posição espelhada em seu abdômen, mas o coração estava no local certo, apesar de ter várias anomalias morfológicas.

Essas mutações do feto acontecem cedo na gestação, entre os primeiros 30 e 45 dias. Ainda não se sabe a causa. Esse problema acontece em um em cada 22 mil bebês, e praticamente sempre é associada com doenças cardíacas severas.

Por conta desses problemas cardíacos, apenas entre 5 e 13% dessas crianças chegam aos cinco anos de vida. Pessoas com situs inversos que chegam à adolescência ou vida adulta são raríssimas: sabe-se apenas de um menino que chegou aos 13 anos e uma pessoa que chegou aos 73 anos.

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Vida longa e saudável

Rose provavelmente teve uma vida longa e saudável porque seu coração não tinha defeitos, apesar de ser diferente do normal. Ela apenas sofria de queimação de estômago, que pode ser explicada pela anatomia gástrica incomum.

Seus filhos ficaram surpresos ao serem informados sobre a anatomia da mãe. Eles contam que ela sempre foi uma mulher ativa que adorava acampar, pescar e nadar. 

A única pista de que poderia ter algo de incomum nela foi uma anotação que um médico fez em sua ficha médica quando o apêndice dela foi removido. O médico anotou que o órgão não estava no local correto, mas nem chegou a avisar a paciente ou a família sobre isso.

Ninguém falou nada fora do normal quando sua vesícula biliar foi retirada ou quando Rose passou por uma histerectomia.

Rose e seu marido Jim sempre pensavam em doar seus corpos para serem estudados em universidades, e o corpo de Jim foi doado quando ele morreu de pneumonia, doze anos antes da morte de Rose.

Inspiradas pelos pais, três das filhas do casal também querem doar seus corpos para pesquisas.

Pesquisadores da OHSU apresentaram suas descobertas na reunião anual da Associação Americana de Anatomistas na Experimental Biology, que aconteceu em Orlando entre os dias 5 e 8 de abril. [CNN, IFLScience]

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