Chicletes contêm DNA de três seres humanos que os mastigaram 10.000 anos atrás

Por , em 20.05.2019

Três antigos pedaços de chiclete feitos do alcatrão de uma casca de bétula mantiveram o DNA dos humanos ancestrais da Escandinávia que os mastigaram mais de dez mil anos atrás.

Descobertas na década de 1990 em um sítio pré-histórico da costa sueca, conhecido como Huseby Klev, os cientistas só puderam desvendar os mistérios das gomas de mascar recentemente.

Em dezembro do ano passado, pesquisadores afirmaram ter encontrado DNA humano antigo nos restos do material frágil pela primeira vez. Agora, cinco meses depois, a equipe publicou um artigo atualizado sobre a descoberta, revisado por especialistas.

Os mascadores

A equipe encontrou restos de saliva da Idade da Pedra nos pedaços de goma de mascar. A partir disso, os cientistas puderam sequenciar o DNA humano mais antigo localizado na área.

Cada pedaço, ao que parece, pertencia a um indivíduo: duas mulheres e um homem. Ao contrário de hoje, no entanto, mascá-lo não teria sido um hobby. O local onde os pedaços foram descobertos provavelmente era usado para fabricação de ferramentas, e o chiclete fazia parte do processo.

Segundo os pesquisadores, a casca de bétula – embora também tivesse fins recreativos – era usada como substância adesiva na tecnologia de ferramentas líticas do Paleolítico Médio em muitas partes da Eurásia, e como cimento para remendar e vedar madeira e vasos cerâmicos.

Combinando essas informações com dados genômicos, os cientistas chegaram à conclusão de que esses humanos primitivos eram na verdade mais geneticamente semelhantes aos caçadores-coletores ocidentais e indivíduos da Idade do Gelo da Europa.

Migração

Em outras palavras, tanto o local quanto esses humanos parecem estar exatamente onde as correntes de migração ocidental e oriental uma vez colidiram.

“Este cenário de cultura e influxo genético na Escandinávia a partir de duas rotas foi proposto em estudos anteriores, e estas gomas de mascar antigas fornecem uma ligação emocionante entre as ferramentas e materiais utilizados e a genética humana”, explica um dos autores do estudo, Emrah Kirdök, da Universidade de Estocolmo (Suécia).

Uma vez que o chiclete estava conectado à fabricação de ferramentas e sua manutenção, os cientistas creem que talvez seja preciso atualizar nossa compreensão dos papéis de gênero nas sociedades mesolíticas.

Por exemplo, vários dos pedaços de alcatrão do sítio histórico têm impressões de dentes decíduos (dentes de leite), bem como vimos que foram mascados por homens e mulheres. “As possíveis interpretações são de que a produção de ferramentas não se restringia a um sexo, ou, se os indivíduos examinados fossem crianças, que os papéis de gênero ainda não se aplicavam aos jovens”, explicam os pesquisadores em seu artigo.

Mais chicletes, mais informações

Em um mundo onde ossos e ferramentas humanas raramente sobrevivem, talvez existam outros remanescentes com informações ricas como estes chicletes perdidos em árvores por aí.

“O DNA dessas antigas gomas de mascar tem um enorme potencial não apenas para rastrear a origem e o movimento dos povos há muito tempo, mas também para fornecer insights sobre suas relações sociais, doenças e alimentação”, argumenta outro autor do estudo, Per Persson, do Museu de História Cultural em Oslo (Noruega).

O artigo foi publicado na revista científica Communications Biology. [ScienceAlert]

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