Livre-arbítrio: ilusão ou realidade?

Por , em 9.06.2014

Se você costuma passar algum tempo na internet, já deve ter visto por aí frases inspiradoras sobre viver de acordo com suas escolhas.

Se você ainda não viu, verá. Eventualmente, alguma tia sua vai compartilhar algo assim. Mas, apesar de parecer algo um tanto óbvio, e sábio, esse tipo de conversa motivacional pode ter um fundo de mentira. Talvez as nossas escolhas não sejam nossas, nem mesmo quando a gente tem 100% de certeza que as tomou de forma consciente. Complicou? Calma que já descomplicamos.

Bom, o pensamento de que existe uma força chamada ciência por trás do nosso livre-arbítrio pode parecer um pouco contraditório, talvez até um pouco paradoxal, mas se você acompanhar esse raciocínio comigo, verá que tem algo de verdade aí.

Conforme a ciência vai avançando, ela mergulha cada vez mais fundo em questões que geralmente eram abordadas pela filosofia e/ou religião. O livre-arbítrio é uma dessas questões.

Nós, como seres humanos, gostamos muito da existência dessa força, dessa “ideia de liberdade”. Mas será que nós somos completamente autônomos, como pensamos ser?

Livre-arbítrio é uma escolha ou uma ilusão?

Infelizmente, ainda não podemos responder esse questionamento, porque ainda não há uma resposta absoluta. O que podemos fazer é pensar a respeito. Por exemplo: a natureza da consciência humana, o funcionamento interno do cérebro e as influências externas imensuráveis que todo ser humano recebe, todos estes fatores contribuem para a certeza de que o livre-arbítrio existe, sim. Afinal, eu, você e todo mundo escolhemos, por exemplo, ligar o computador todos os dias. Escolhemos entre chocolate branco ou ao leite. Escolhemos tomar café ou não.

Mas ao mudar ligeiramente a pergunta – podemos estar sempre 100% confiantes de nosso livre arbítrio, ou escolha? -, a resposta vira “quase com certeza não”.

A ciência e a filosofia concordam que o universo é previsível e segue um conjunto determinado de regras. Cada coisa no universo que temos observado até agora segue essas diretrizes específicas, e nada está isento da influência de forças externas. Então, por que nós – os produtos do universo – estaríamos isentos de influências do ambiente?

O livre-arbítrio sugere que nós, como uma entidade, somos capazes de tomar decisões absolutamente livres de qualquer influência externa. Mas certamente forças externas desempenham algum papel na nossa tomada de decisões.

Então, no final, a escolha depende de nós ou não?

Talvez não

Acho que você pode estar virando os olhos agora, achando que isso é uma piada.

A razão pela qual a intuição nos diz que temos um livre-arbítrio é, provavelmente, porque a sua mente não consegue identificar todos os fatores que afetam sua escolha e, então, o procedimento padrão é concluir que ela veio de você.

Por exemplo: você está em uma confeitaria e lá têm duas opções de doces: bolo de chocolate e bolo de cenoura. Você tem que escolher entre um dos dois, de forma que (vamos supor) não exista a possibilidade de escolher nenhum, nem os dois. A escolha é simples: é um ou o outro. Ainda assim, devemos considerar as influências externas que estão em jogo aqui. Talvez você odeie chocolate, e nunca em sua vida tenha gostado do sabor do chocolate. Este fator é bem fora do seu controle – você não acorda um dia e decide “odeio chocolate”.

O mesmo vale para o bolo de cenoura. E se você escolher o de chocolate em vez de cenoura? Talvez seja porque ele tem uma cobertura mais apetitosa. Ou talvez tenha chovido naquele dia e o cheiro de chuva provoca – por uma razão qualquer – uma memória de chocolate. Talvez você esteja enjoado de bolo de cenoura, porque comeu bolo de cenoura de sobremesa todos os dias daquela semana até sair pelos ouvidos. Ou talvez você escolha o oposto do que você normalmente escolhe apenas para me irritar e contrariar esse artigo. Mas se você não tivesse lido isso, também não sentiria essa necessidade.

Consegue ver onde eu quero chegar?

Muitos, mas muitos fatores mesmo, entram em cena quando temos que tomar uma decisão. Até a mais simples das escolhas conta com fatores que não podemos sequer pensar em questionar, mas são muito reais.

Você diria que uma célula individual tem o livre-arbítrio? E um micróbio, teria? Ou uma árvore? E uma formiga, um cão, ou um chimpanzé – será que eles têm livre-arbítrio? Em que ponto a “complexidade” dessa ideia de liberdade para escolher surge em nós?

Para o biólogo Anthony Cashmor, acreditar que o livre-arbítrio existe é como acreditar em magia. Polêmico, não?

Evidências científicas

Em um estudo de 2008, voluntários foram convidados a escolher entre dois botões, e sua atividade cerebral poderia prever qual seria a escolha até 10 segundos antes dos participantes de fato apertá-los. Muitos veem esse estudo como uma evidência contra o livre-arbítrio, mas o filósofo Alfred Mele vê exatamente o oposto. Então eu pergunto: como podemos chegar a um consenso, se não conseguimos nem interpretar as evidências da mesma maneira?

Pois é, não podemos. Não até que algo mais sólido seja concluído a respeito desse tema.

O mais provável é que nunca tenhamos certeza se o livre-arbítrio existe ou não. [from quarks to quasars]

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20 comentários

  • Leocadio Silva:

    AQUELES QUE ACHAM QUE EXISTE LIVRE ARBÍTRIO, DEVEM SABER DE ONDE VEIO, PORQUE VEIO, E PARA ONDE VAI DEPOIS DA MORTE.

  • Yazmin Gatti:

    É óbvio que o ambiente influi nas escolhas… Nada novo aí.

    • Vinicius Park Almeida:

      Pra você, e para mim….
      para muitos pode ter sido o máximo do máximo

  • jose Senen de Alencar:

    Livre arbítrio é muito bom, mas é necessário ter conhecimento suficiente. E sabemos que os humanos ainda estão bem longe disso.

    • Vinicius Park Almeida:

      Psé. mal podemos esperar pra todos os humanos ter ao menos 40% de ideia sobre si mesmo.

  • A.S.S.:

    E o que eu acho mais engraçado é que se um dia inventarmos robôs inteligentes será muito provável que eles tenham um livre-arbítrio, porque eles não sentiriam o cheiro da chuva, por exemplo.

    • Cesar Grossmann:

      Ao contrário, eles tomariam decisões baseadas em um algoritmo, ou seja, se você souber as pré-condições antes da tomada da decisão, vai saber qual a decisão que será tomada, antes dela ser tomada.

      E existem estudos que demonstram que o “cérebro inconsciente” toma as decisões e depois informam elas para o “cérebro consciente”, que então inventa uma desculpa para a decisão tomada (ou seja, racionaliza).

      Um dos estudos está no artigo Case Closed for Free Will?. Talvez seja o caso de redefinir o significado de “livre arbítrio”…

  • Brian Carvalho:

    Quando eu leio “Livre-arbítrio” me remete automaticamente a ideia de religião.
    Deus deu o livre-arbítrio ao ser humano. Ao mesmo tempo, Deus ele é onisciente…
    Uma das duas afirmações está errada.
    Como ele pode te dar essa liberdade de escolha sabendo o que você vai escolher antes mesmo de você nascer??

    outra coisa que eu acho graça no “livre-arbítrio” cristão é: ou você adora Deus ou você queimará no inferno.
    Louco isso né?

  • Ewerton Arrais:

    … Porém a física quântica deu novos rumos a essa discussão. Então acho essa matéria “atrasada”. Mas de qualquer jeito é uma questão bem complicada…

    • Cesar Grossmann:

      Ewerton, como seria uma decisão feita segundo o livre-arbítrio?

  • Ewerton Arrais:

    Eu costumava pensar como essa matéria no sentido de que as coisas agiam sempre de acordo com o esquema causa-efeito previsível. Porém a física quântica já provou que partículas agem de acordo com uma função de probabilidade. Ou seja, a física newtoniana é apenas uma aproximação(muito boa) para o mundo macroscópico. Porém foi completamente destroçada como sendo uma lei universal. Ainda não se pode saber se existe ou não o livre-arbítrio. Continua…

    • Vinicius Park Almeida:

      O livre-arbítrio existe por enquanto, por não sermos Conscientemente conectados um ao outro, logo não ter vivido tudo oque o próximo viveu.

  • Cardoso:

    Matéria tão espetacular quanto a autora.

  • frnkln91:

    O Livre-arbítrio existe pois o cérebro humano é capaz de calcular a “importância” e a “consequência” de uma escolha, antes da tomada de decisão.

    • Cesar Grossmann:

      Mas se você age de acordo com uma avaliação de importância e de consequência, você tem livre-arbítrio? Você não está agindo de acordo com uma receitinha pronta, que pode ser usada para calcular a tua resposta antes de você responder? Mesmo que você use “pesos” internos para determinar importância, mesmo que você use seu “bom senso” e “experiência” para determinar a consequência, você ainda assim estará agindo de forma mecânica, e aí não tem livre-arbítrio.

    • Clube de Rei ♛:

      Cesar não existindo livre-arbítrio é uma prova de que as coisas são controladas, mais o universo não funciona assim, ele age de forma moldada pelo acaso, não existe regra pras coisas acontecerem, o que existe são as leis da natureza, as leis que regem o universo, a inteligência evoluiu por acaso e existe sim o livre-arbítrio de algo que não foi criado e moldado para as coisas acontecerem de um jeito específico, agente não está dentro de um computador.

    • Cesar Grossmann:

      Não há incompatibilidade entre um universo onde o acaso e a evolução sejam verdadeiros e a ausência de livre-arbítrio. De fato, é para onde apontam as evidências que temos: que neste universo onde acaso e evolução são verdadeiros, não há livre-arbítrio.

      Pense em tudo que funciona na base do estímulo-resposta no seu organismo: você sente cheiro de comida que gosta, e começa a salivar. Você experimenta uma comida e ela traz prazer para seus sentidos e você passa a gostar.

      Ou você escolhe gostar de alguma coisa, sem se importar com o sabor dela? Não. Da mesma forma, as tuas experiências moldam tuas reações. Se um cachorro te assusta quando criança, você provavelmente passará a temer aquele cachorro e, por extensão, passará a temer cães. Poderá parar de ter medo de cães quando passar por alguma experiência que sobreponha o susto e o medo. Ou poderá ter medo o resto da vida, mas não é algo que você escolheu.

      Mas as experiências apontam para um aspecto mais profundo ainda, decisões que parecem não ter relação com nenhuma experiência passada, como o momento em que você vai apertar um botão, que você precisa apertar, mas não tem hora para apertar. Examinando o que acontece DENTRO do cérebro, percebe-se que a decisão acontece na porção inconsciente, onde não reside o suposto livre-arbítrio.

      E aí?

      Mas não necessariamente tem alguém no controle, ditando as tuas decisões e escolhas. É “apenas” um caso complexo, bem complexo, de estímulo-resposta… …muito provavelmente.

    • frnkln91:

      Dizer que tudo é mecânico, que tudo funciona na base do estimulo-resposta, é simplificar DEMAIS o potencial do cérebro humano.

      O cérebro trabalha com um grande fluxo de informações sensoriais e parte dessas informações são emitidas pela “consciência”, A consciência não apenas “assiste” as decisões, mas também envia informações que influenciam numa tomada de decisão.

      Uma prova disso é que a avaliação consciente das opções pode preceder uma ação. O pensar vem antes do agir.

    • Cesar Grossmann:

      Não é o que os experimentos neste sentido apontam. As decisões são tomadas pela parte inconsciente do cérebro. Por outro lado, o campo está aberto para estudos, se você puder PROVAR o que você diz, pode ganhar um prêmio NOBEL. Os neurocientistas que estudam isto estão divididos e a polêmica é grande, o que indica que não é tão simples assim provar um ou outro, só que do jeito que a coisa está posta, é mais provável que o fluxo de consciência seja uma ilusão, e as decisões são tomadas automaticamente.

  • Naldo Soares:

    Ontem eu passei o dia pensando sobre livre arbítrio e cheguei em um conclusão: Apesar do livre arbítrio humano ser apenas uma ilusão, com certeza isso não impede a construção de computador quântico com consciência e um livre arbítrio real.

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