LSD: estudo encontra potencial terapêutico para a droga

Por , em 12.03.2014

Estudos científicos muitas vezes abrem novas portas para descobertas inéditas, mas de vez em quando também são capazes de reabrir portas fechadas há muito tempo. Psiquiatras experimentais de Santa Cruz, na Califórnia, EUA, publicaram recentemente os resultados do primeiro ensaio clínico controlado de LSD (Ácido Lisérgico Dietilamida) em mais de 40 anos. E as conclusões são surpreendentemente positivas.

O estudo, publicado na revista científica Journal of Nervous and Mental Disease, encontrou evidências de que o LSD, quando administrado em um ambiente terapêutico, reduz a ansiedade vivida por indivíduos que enfrentam doenças fatais. Apesar do tamanho reduzido da amostra (apenas 12 pessoas), os resultados oferecem justificativa convincente para um estudo mais aprofundado abordando a droga, que é ilegal e muitas vezes estigmatizada.

“Este estudo é histórico e marca o renascimento da investigação em psicoterapia assistida com LSD”, considera Rick Döblin, diretor-executivo da Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos, que patrocinou o estudo. “Os resultados positivos e as provas de segurança mostram claramente por que são necessários estudos adicionais e maiores”.

O fato de que o LSD pode ser terapeuticamente benéfico já é conhecido há décadas. Os primeiros estudos sobre a substância química começaram em 1949 como uma forma de simular doenças mentais, mas não demorou muito para os pesquisadores descobrirem os efeitos benéficos da droga.

Até 1965, mais de mil estudos já haviam sido publicados anunciando a eficácia terapêutica do LSD. A substância foi utilizada para tratar o alcoolismo, e em vários estudos a partir dos anos 1960, os pesquisadores descobriram que a droga reduzia a ansiedade, a depressão e a dor – quando usada em conjunto com acompanhamento psicológico – em pacientes com câncer. Benefícios semelhantes também foram encontrados em outras substâncias psicodélicas, como cogumelos alucinógenos.

No entanto, apesar das promessas, as pesquisas sobre LSD encontraram um impasse depois que a substância foi proibida nos Estados Unidos em 1966, em resposta ao aumento do seu uso recreativo. No Brasil, o Ministério da Saúde não reconhece o uso médico da droga, sendo considerado crime sua produção, uso e comércio em território nacional.

Realizado na Suíça, onde o cientista Albert Hoffman foi o primeiro a sintetizar o LSD, em 1938, o novo estudo reafirma muitos dos resultados de 40 anos atrás. Os pesquisadores separaram 12 pacientes com ansiedade associada a doenças fatais em dois grupos, que foram submetidos a duas sessões preparatórias antes de receber o LSD. Quatro participantes receberam um placebo durante o tratamento e serviram como controle.

Para o estudo, os pacientes deixaram de tomar qualquer medicação antiansiedade ou antidepressivos. A um grupo, foram administrados 200 microgramas de LSD e, ao outro grupo, 20 microgramas (uma dose pouco perceptível). Cada participante foi submetido a duas sessões, com algumas semanas de intervalo uma da outra, e receberam atendimento psicológico de terapeutas, a quem poderiam relatar suas experiências com os efeitos da substância psicodélica. Não foram relatados efeitos negativos prolongados da droga.

Como resultado do estudo, os cientistas descobriram que o LSD ajudou a estimular um estado psicodélico profundo nos participantes, permitindo que eles alcançassem o que descreveram como um estado de sonho emocional intensificado. “Minha experiência com o LSD me trouxe de volta algumas emoções perdidas, a capacidade de confiar, diversos insights psicológicos e um momento atemporal quando o universo não me pareceu ser uma armadilha, mas uma revelação de beleza absoluta”, descreve o austríaco Peter, um dos pacientes que participou do estudo.

Os que receberam a baixa dosagem de LSD relataram que sua ansiedade piorou, enquanto o grupo de maior dosagem considerou que suas sessões de drogas tiveram profundos efeitos positivos sobre a sua ansiedade – uma indicação clínica de que a terapia psicodélica pode ter potencial para ser utilizada como tratamento médico. “As pessoas têm mais medo de morrer do que de usar drogas. É por isso que nós fomos capazes de começar a pesquisa do LSD com pessoas que apresentavam um quadro de extrema ansiedade sobre a morte”, explica Rick Döblin.

Os autores do estudo são claros ao afirmarem que esta é apenas uma investigação preliminar com uma amostra muito reduzida – os resultados estão longe de serem conclusivos. No entanto, ao combinar os resultados da pesquisa atual com os de estudos de décadas atrás, os autores esperam incentivar outros pesquisadores a olhar para além do estigma associado ao LSD e explorar outras aplicações médicas possíveis da droga. [Discover e Huffington Post]

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3 comentários

  • Amaral Junior:

    O governo é ridículo, mesmo sabendo de seus benefícios ele proibiu a droga até para meios de estudos.
    Tomara que esse estudo realmente incentive e prove as pessoas oque o governo tenta esconder com sua proibição.
    E que os estudos continuem!

  • Genioso Irreligioso:

    Já li em algum lugar na net que um derivado do L.S.D. sem a “viagem fantástica” seria o mais eficiente anestésico conhecido pela ciência; nos casos aonde pacientes com dor crônica já não respondem mais nem à morfina! 😉

    • Marcelo Ribeiro:

      Estaria sendo vendido em barrios. 🙂

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