A NASA quer enviar humanos para Vênus: por que essa é uma ideia brilhante

Por , em 23.10.2018

Levar seres humanos para Marte tem sido uma obsessão da ciência – e da ficção – há bastante tempo, mas, em breve, uma missão tão emocionante quanto pode nos levar para nosso outro vizinho de Sistema Solar: Vênus. Com suas temperaturas ultra quentes – mais quentes até do que Mercúrio, apesar da maior distância para o Sol – e superfície nada animadora, cheia de vulcões e metal derretido, Vênus sempre esteve à margem de missões tripuladas no nosso imaginário, mas segundo dois pesquisadores americanos, a Nasa está planejando uma viagem com seres humanos a bordo para lá em breve.

Colônias em Vênus serão flutuantes?

Em um texto publicado no site The Conversation, Gareth Dorrian e Ian Whittaker, pesquisadores da Universidade Nottingham Trent, na Inglaterra, mostram que já há uma missão tripulada para Vênus programada pela NASA e explicam como isso seria possível. “É improvável que Vênus seja um destino de sonho para aspirantes a turistas espaciais. Conforme revelado por inúmeras missões nas últimas décadas, o planeta é um mundo de temperaturas infernais, uma atmosfera tóxica corrosiva e pressões esmagadoras na superfície. Apesar disso, a NASA está atualmente trabalhando em uma missão tripulada conceitual para Vênus, chamada de Conceito Operacional de Vênus da Alta Altitude (HAVOC)”, escrevem.

Flutuando na atmosfera de Vênus

Para driblar esse território inóspito, o plano é não chegar ao solo. “As temperaturas na superfície do planeta (cerca de 460 ° C) são, de fato, mais quentes que Mercúrio, embora Vênus tenha aproximadamente o dobro da distância do Sol. Isso é mais alto que o ponto de fusão de muitos metais, incluindo o bismuto e o chumbo, que podem até cair como “neve” nos picos das montanhas mais altas. A superfície é uma paisagem rochosa estéril composta por vastas planícies de rocha basáltica pontilhada de características vulcânicas e várias regiões montanhosas de escala continental. A ideia por trás da nova missão da NASA é não aterrisar as pessoas na superfície inóspita, mas usar a densa atmosfera como base para a exploração”, explicam.

A missão HAVOC não tem uma data oficial, e missões teste precisarão ser feitas (e ser bem-sucedidas) para que haja essa possibilidade, mas, segundo os pesquisadores, tal missão já seria realmente possível com a tecnologia atual.

O plano é usar aeronaves que possam permanecer suspensas na atmosfera superior de Vênus por longos períodos de tempo.

“Por mais surpreendente que possa parecer, a atmosfera superior de Vênus é o local mais parecido com a Terra no sistema solar. Entre altitudes de 50 km e 60 km, a pressão e a temperatura podem ser comparadas a regiões da baixa atmosfera da Terra. A pressão atmosférica na atmosfera venusiana a 55 km é cerca de metade da pressão ao nível do mar na Terra. Na verdade, você ficaria bem sem um traje de pressão, pois isso é aproximadamente equivalente à pressão de ar que você encontraria no topo do Monte Kilimanjaro. Nem seria preciso se isolar (termicamente), pois a temperatura varia entre 20 ° C e 30 ° C”, apontam no texto.

A atmosfera acima dessa altitude também é densa o suficiente para proteger os astronautas da radiação ionizante do espaço. A proximidade do sol fornece uma abundância ainda maior de radiação solar disponível do que na Terra, que pode ser usada para gerar energia.

O dirigível conceitual flutuaria ao redor do planeta, sendo soprado pelo vento. Os pesquisadores sugerem que ele poderia ser enchido com uma mistura de gás respirável, como oxigênio e nitrogênio, proporcionando flutuabilidade. “Isso é possível porque o ar respirável é menos denso que a atmosfera venusiana e, como resultado, seria um gás de elevação”, diz o texto.

Drama e calmaria

A HAVOC seria diferente de qualquer missão espacial já tentada, segundo matéria publicada no site da rede americana de TV NBC. Ela começaria com dois lançamentos para Vênus: uma espaçonave para a tripulação e outra que carregaria o dirigível, que seria dobrado dentro de uma cápsula de 30 metros de comprimento.

A viagem da Terra a Vênus levaria cerca de 100 dias usando um poderoso foguete – isso é cerca de metade do tempo necessário para ir a Marte. Na chegada, ambas as naves HAVOC entrariam na órbita de Vênus.

Segundo o texto da NBC, a cápsula então mergulharia na atmosfera de Vênus a mais de 25 mil km/h. O atrito atmosférico branco-quente e um enorme pára-quedas supersônico retardariam as coisas para uma velocidade de cerca de 150 km/h. Nesse ponto, a cápsula lançaria sua concha externa, a aeronave se desenrolaria e latas de hélio a inflariam para um volume de 2,7 milhões de pés cúbicos. Totalmente inflado, o dirigível teria quase três vezes o tamanho de um Boeing 747. A imagem abaixo mostra um rascunho do projeto:

Manchas escuras em Vênus podem ser sinal de vida

Depois desse drama na chegada, a vida no HAVOC seria calma. O dirigível se instalaria na corrente de jato venusiana, balançando ao longo de 50 km acima do solo. “A gravidade seria semelhante à da Terra, e a atmosfera espessa forneceria proteção contra radiação, ajudando a mitigar dois dos maiores medos da saúde com viagens espaciais”, diz na matéria Chris Jones, analista de missões da NASA e líder da equipe HAVOC.

Ao final da missão de 30 dias, a cápsula se soltaria do dirigível e transportaria os astronautas de volta à órbita de Vênus. Lá eles se encontrariam com a tripulação principal, que os levaria de volta à Terra. A viagem de retorno demoraria cerca de 300 dias, uma vez que o foguete teria que lutar contra a atração gravitacional do sol. Com uma duração total de cerca de 450 dias, a missão seria significativamente mais curta do que uma missão a Marte, que poderia levar dois anos completos.

Condições adversas

O veículo que flutuaria sobre a superfície de Vênus teria que ser bastante resistente para suportar os perigos da atmosfera venusiana. “A atmosfera de Vênus é famosa por conter uma pitada de ácido sulfúrico que forma nuvens densas e é um dos principais contribuintes para seu brilho visível quando visto da Terra. Na verdade, o planeta reflete cerca de 75% da luz que chega até ele vinda do sol. Esta camada de nuvens altamente reflexiva existe entre 45km e 65km, com uma neblina de gotículas de ácido sulfúrico abaixo de cerca de 30km. Como tal, um projeto de dirigível precisaria ser resistente ao efeito corrosivo desse ácido”, apontam Dorrian e Whittaker.

Mas, segundo eles, já temos a tecnologia necessária para superar este problema. “Vários materiais comercialmente disponíveis, incluindo teflon e vários plásticos, têm uma alta resistência ácida e podem ser usados ​​para a cobertura externa do dirigível. Considerando todos esses fatores, seria possível dar um passeio em uma plataforma fora do dirigível, carregando apenas o suprimento de ar e usando um traje de risco químico”, apontam.

Mudanças climáticas

As condições climáticas atuais de Vênus e a composição da sua atmosfera são o resultado de um efeito estufa descontrolado que transformou o planeta de um mundo hospitaleiro semelhante à Terra em sua história inicial no inferno escaldante que é hoje. Para os pesquisadores, isso pode ser um alerta para nosso planeta. “Embora atualmente não esperemos que a Terra passe por um cenário igualmente extremo, isso demonstra que mudanças drásticas em um clima planetário podem acontecer quando certas condições físicas surgem”, dizem.

“Ao testar nossos modelos climáticos atuais usando os extremos vistos em Vênus, podemos determinar com mais precisão como vários efeitos climáticos forçados podem levar a mudanças drásticas. Vênus, portanto, nos fornece um meio de testar os extremos da nossa atual modelagem climática, com todas as implicações inerentes à saúde ecológica do nosso próprio planeta”, apontam os pesquisadores.

“Ainda sabemos relativamente pouco sobre Vênus, apesar dele ser nosso vizinho planetário mais próximo. Em última análise, aprender como dois planetas muito semelhantes podem ter passados ​​tão diferentes nos ajudará a entender a evolução do sistema solar e talvez até mesmo de outros sistemas estelares”, prevêem.

Vida em Vênus?

Os pesquisadores também especulam se seria possível encontrar vida nessa atmosfera mais hospitaleira do que a superfície do planeta.

“A superfície de Vênus foi mapeada na missão Magellan dos EUA. No entanto, apenas alguns locais já foram visitados pela série de missões Venera de sondas soviéticas no final dos anos 1970. Essas sondas retornaram as primeiras – e até agora únicas – imagens da superfície venusiana. Certamente as condições da superfície parecem totalmente inóspitas para qualquer tipo de vida. A atmosfera superior é uma história diferente, no entanto. Certos tipos de organismos extremos existentes na Terra poderiam suportar as condições da atmosfera na altitude em que o HAVOC voaria”, explicam no texto.

As evidências se amontoam de que Vênus foi habitável

“Espécies como o Acidianus infernus podem ser encontradas em lagos vulcânicos altamente ácidos na Islândia e na Itália. Também se descobriu que micróbios transportados pelo ar existem nas nuvens da Terra. Nada disso prova que a vida existe na atmosfera venusiana, mas é uma possibilidade que poderia ser investigada por uma missão como a HAVOC”, apontam.

“Vênus pode ter sido o primeiro planeta habitável do sistema solar. Ele registra a origem e o destino dos planetas habitáveis. Essa divergência nos ajudará a entender onde no universo se um planeta do tamanho da Terra significa um planeta parecido com a Terra”, diz à NBC Robert Grimm, especialista em Vênus no Southwest Research Institute, nos EUA.

“Tudo o que sabemos diz que a vida deveria ter tido tempo para começar lá. Se Vênus não teve vida, então nós realmente não entendemos porque a Terra tem vida, complementa David Grinspoon, astrobiólogo do Planetary Science Institute, também nos EUA. Grinspoon afirma ainda que os recentes modelos climáticos sugerem que Vênus pode ter sido um mundo hospitaleiro por mais da metade de sua história. [The Conversation, NBC News]

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