Nutriente essencial pode combater a doença de Alzheimer ao longo de gerações

Por , em 10.01.2019

Pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona (EUA) descobriram um nutriente que pode ser muito importante no tratamento de uma das condições mais devastadoras da atualidade, a doença de Alzheimer: a colina.

O estudo

Acredita-se que a doença de Alzheimer comece seu caminho de destruição do cérebro décadas antes do início dos sintomas clínicos. Uma vez diagnosticada, a condição é invariavelmente fatal, desligando um sistema vital após o outro.

O novo estudo testou a eficácia de uma dieta rica em colina em ratos com sintomas semelhantes aos da doença de Alzheimer em humanos. Os resultados mostraram que os descendentes destes animais exibiam melhorias na memória espacial em comparação com ratos expostos a um regime normal de colina no útero.

Ou seja, notavelmente, os efeitos benéficos da suplementação de colina pareceram ser transgeracionais, o que significa que protegeram não apenas os ratos que receberam a dieta durante a gestação e a lactação, mas também seus filhos.

Enquanto esta segunda geração não recebeu suplementação direta, também colheu os benefícios do tratamento, provavelmente devido a modificações herdadas em seus genes, o que é chamado de epigenética.

Como a colina ajuda

A colina atua para proteger o cérebro da doença de Alzheimer de pelo menos duas maneiras. Na primeira, reduz os níveis de homocisteína, um aminoácido que pode atuar como uma potente neurotoxina, contribuindo para as marcas da doença: neurodegeneração e formação de placas amiloides.

A homocisteína é conhecida por dobrar o risco de desenvolver a doença de Alzheimer e é encontrada em níveis elevados em pacientes com a condição. A colina realiza uma transformação química, convertendo a nociva homocisteína na mais útil metionina.

Na segunda, reduz a ativação da microglia, células responsáveis pela remoção de detritos no cérebro. Embora suas funções de limpeza sejam essenciais para a saúde do cérebro, a microglia ativada pode ficar fora de controle, como ocorre tipicamente durante o Alzheimer. A ativação excessiva da microglia causa inflamação cerebral e pode levar à morte neuronal.

Nos animais

As melhorias na memória espacial foram testadas em um labirinto aquático. Exames subsequentes feitos no tecido extraído do hipocampo dos ratos, uma região do cérebro conhecida por desempenhar um papel central na formação da memória, confirmaram as alterações epigenéticas induzidas pela suplementação de colina.

Genes modificados associados à ativação microglial e inflamação cerebral e níveis reduzidos de homocisteína foram os fatores que resultaram nas melhorias de desempenho observadas nas tarefas de memória.

Devido às alterações epigenéticas induzidas pela colina, as melhorias foram transferidas para a prole dos animais que receberam a suplementação.

“Ninguém jamais mostrou benefícios transgeneracionais da suplementação de colina”, disse um dos principais autores do estudo, Ramon Velazquez. “Essa é novidade do nosso trabalho”.

Genética x dieta

De acordo com os cientistas, a exploração de alterações epigenéticas pode promover novos caminhos de pesquisa e maneiras de tratar uma ampla gama de doenças transgeracionais, incluindo a síndrome alcoólica fetal e a obesidade.

Pesquisas sobre as origens do Alzheimer sugerem fortemente que uma grande variedade de fatores está em jogo. Embora o avanço da idade continue sendo o maior fator de risco, predisposição genética e estilo de vida também desempenham um papel.

A dieta, por exemplo, pode ter um efeito significativo no risco de declínio cognitivo, e estes riscos podem ser transmitidos através das gerações. Um caso clássico é conhecido como o inverno da fome holandesa – uma fome severa que atingiu a Holanda em 1944-45 e afetou as mulheres grávidas e seus filhos. A severa privação alimentar sofrida pelas mães aumentou a ocorrência de obesidade, colesterol LDL e até esquizofrenia nas crianças.

Por outro lado, dietas saudáveis podem ajudar na prevenção de doenças. A mediterrânea – rica em frutas, vegetais, grãos integrais, legumes, nozes, peixes e aves – diminui o risco de Alzheimer em 54%, por exemplo.

(Muito) mais colina

A colina é necessária para muitos passos no nosso metabolismo. Todas as células vegetais e animais requerem colina para manter sua integridade estrutural. Ela é usada pelo organismo para produzir acetilcolina, um importante neurotransmissor essencial para as funções do cérebro e do sistema nervoso, incluindo memória, controle muscular e humor, e desempenha um papel vital na regulação da expressão gênica.

Os cientistas já sabiam que a colina era particularmente importante no desenvolvimento inicial do cérebro. Mulheres grávidas são aconselhadas a manter níveis de colina de 550 mg por dia para a saúde do feto em desenvolvimento, mas estudos mostram que “cerca de 90% das mulheres nem sequer cumprem essa exigência”, esclarece Velazquez.

Déficits de colina já foram associados ao fracasso no desenvolvimento de fetos. Por sua vez, o novo estudo mostrou que ingerir quantidades de colina acima da recomendada dão um benefício ainda maior.

A substância é um bom candidato para o tratamento do Alzheimer justamente porque é muito segura em comparação com outros fármacos. Os cientistas observam que leva cerca de 9 vezes a dose diária recomendada para produzir efeitos colaterais prejudiciais.

Próximos passos

Os próximos trabalhos vão explorar os efeitos da colina em adultos.

Os pesquisadores ressaltam que, embora os resultados com ratos sejam promissores, somente um ensaio clínico controlado em humanos determinará a eficácia do nutriente como uma nova arma na luta contra a doença de Alzheimer.

Um artigo sobre o estudo foi publicado na revista científica Molecular Psychiatry. [MedicalXpress]

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