O medo do futuro e o problema da indução

Por , em 17.08.2014

Medo do futuro?

Como vimos em nosso artigo “O Particular e o Geral” o problema da indução é uma das questões filosóficas mais medulares na construção do método científico e parte do que questionamento base se o raciocínio indutivo, ou seja, uma generalização levaria ao conhecimento.

Talvez você esteja se perguntando, afinal o que isso tem a ver com o medo do futuro.

Recordamos aqui que uma generalização, do ponto de vista científico, fundamenta-se em argumento não dedutivo caracterizado por apresentar uma conclusão invariavelmente mais geral do que as premissas.

Podemos então afirmar que o problema da indução se fundamenta – pelo menos em parte – por estabelecer uma conclusão sobre todos a partir da observação do comportamento de alguns.

Por exemplo:

Se os animais que observamos que possuem bicos são aves podemos afirmar que todas as aves são caracterizadas por possuírem bico.Pela observação de algumas aves, estabelecemos uma característica geral para todas as aves.

Evidentemente a descoberta do ornitorrinco derrubou tal generalização e demonstra aqui a fragilidade desse aspecto do pensamento indutivo.

Assim, mais uma vez, chamamos atenção aqui para o perigo que é a generalização. Tão usada pelo senso comum, e como já dissemos aqui tantas vezes, é um dos motores mais famigerado do preconceito e que faz que queiramos sempre condenar a todos pelo mau comportamento de alguns.

Mas, existe outro perigo na indução, que talvez possamos relacionar com o tão propalado medo do futuro.

O pensamento indutivo também estabelece pressupostos da avaliação dos eventos no tempo e pressupõe que uma sequência de eventos se dará no futuro da mesma forma que ocorreu no passado.

Por exemplo:

O sol sempre nasce do leste e se põe no oeste. Isso ocorreu no passado e continuará a ocorrer da mesma forma no futuro. Nesse caminho torna-se possível afirmar, por inferência indutiva, que o passado age como um confiável guia do futuro.

Daí que se destaca na cognição a capacidade humana de evocar o passado tanto quanto a de planejar o futuro, porque estão interligadas. E toda a mudança conceitual ou comportamental fundamentada na recordação do passado – com o intuito de obter vantagens no futuro, por exemplo – podemos denominar aprendizado.

Se recordarmos do evento do passado podemos agir hoje para nos precavermos de sua repetição no futuro.

É fácil observar esse pensamento atuando na sobrevivência dos povos antigos em sua necessidade de se preparar para o inverno, por exemplo. Tinham que construir abrigos, acumular alimentos ou até mesmo migrar. Em qualquer hipótese era sempre esse pensamento indutivo que ditava o seu comportamento nas demais estações.

Porém Hume rejeitou tal pressuposto e questionou também esse aspecto do pensamento indutivo.

Isso em pleno século XVIII.

Hume imaginou um mundo caótico, no qual o futuro poderia ser completamente diferente do passado.

Ele imaginou um futuro vertiginoso com profundas transformações que o diferenciaria completamente do passado.

E nesse cenário imprevisível, mais uma vez o pensamento indutivo é fragilizado.

Mesmo com os trabalhos de Popper e Russel o problema da indução permanece.

Porém, tais dramas científicos infelizmente se perdem em meio a um novo obscurantismo que quer grassar na nossa sociedade.

Algo como morrer de sede ao lado da fonte. Simplesmente por acreditar que a água lhe fará mal.

Uma visão inconsequente obcecada exclusivamente no aqui e no agora.

Esse imediatismo hedonista que sequer prepara o indivíduo para os invernos de um tempo cíclico e que é incapaz de superar a indução para a antevisão de um futuro mutável e desafiador.

É por isso que alguns possuem o medo do novo e por essa razão evitam encará-lo.Se agarram desesperadamente ao passado, desprezam o presente e negam o futuro.

Enquanto isso outros, por pura preguiça, esquecem frequentemente o passado, desperdiçam o presente e assim se predispõem a repetir os mesmos erros no futuro.

Com um quadro assim, não há nada que impeça o mundo de se aterrorizar ante um futuro que virá sem nenhuma prescrição.

E você, tem medo do futuro?

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5 comentários

  • Cesar Grossmann:

    Mas a descoberta de um animal com bico e que não é ave invalida totalmente a regra obtida pela indução ou apenas inclui uma exceção?

    • GoogleUser46:

      A descoberta do ornitorrinco constitui um modus tollens da regra original. Ela exige uma reformulação da regra para que esta venha a ser válida.

      A indução acaba constituindo uma “maneira segura” de se viver a vida, em geral conclusões sobre situações práticas resultantes do método indutivo estarão corretas, entretanto seu valor científico é muito questionável e a aplicação do método indutivo tende a resultar em resultados falaciosos (sem adentrar os outros problemas da indução, vide Popper)

    • cesarjbn:

      Entendo que não; porquanto vejo apenas como uma exceção!

    • Pedro:

      O problema não é o animal com o bico que não é ave mas sim a regra.

    • Cesar Grossmann:

      Acho que não é modus tollens. Pelo que eu vi, o modus tollens pode ser resumido assim:

      Se A, então B
      Não B
      Então, Não A

      Ou seja:
      Se “tem bico” (A) então “é ave” (B)
      Não “tem bico” (não A)
      Então, Não “é ave” (B)

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Modus_tollens

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