Os médicos conseguem mesmo ressucitar seus pacientes?

Por , em 12.08.2013

Não contentes em apenas salvar vidas, os médicos estão recebendo os créditos (ou sendo acusados?) por trazer os mortos de volta à vida. Mas o que de verdade há nas histórias que ouvimos sobre pessoas “voltarem” da morte e como esse processo funciona?

A morte, geralmente, é considerada o fim ou a cessação da vida. Esta definição comum, em última análise, depende da definição de vida, sobre a qual não há um consenso.

A reanimação cardiorrespiratória (a famosa “CPR”, em inglês), popularizada inicialmente na década de 1960 e amplamente ensinada a socorristas e ao público em geral, evita muitas mortes em todo o mundo. No entanto, não é capaz de trazer pessoas mortas de volta à vida. E esta distinção é bem importante.

O problema pode ser facilmente identificado. A morte é um processo, mas é forçada a ser interpretada como um evento. Os organismos morrem de forma fragmentada, com as partes mais vulneráveis indo mais rápido. Algumas funções residuais podem ser encontradas até várias horas depois do momento em que o coração parou de bater (embora, ao contrário do mito, as unhas não continuem a crescer).

Mesmo assim, há razões convincentes tanto médicas, quanto jurídicas e filosóficas para a morte ser considerada um evento. Medicamente, é preciso haver um momento em que as tentativas de prolongar a vida devam cessar (com a doação de órgãos sendo um motivo raro, porém importante). A doação de órgãos, aliás, coloca uma grande pressão sobre os médicos para definir o momento da morte. Isso acontece para cumprir com a “regra do doador morto”, que afirma que apenas as pessoas mortas podem ser doadoras.

Legalmente, o momento da morte é importante para determinar questões de testamento e inventário – e, assim, prosseguirem os trâmites da partilha dos bens da pessoa falecida. Filosoficamente, ao que parece, pelo menos para alguns, as categorias “vivo” e “morto” não devem se sobrepor.

Considere isso a partir de um trabalho de pesquisa sobre a definição de morte: “Se considerarmos a morte como um processo, então o processo ou começa quando a pessoa ainda está viva, o que confunde o “processo de morte” com o processo de morrer, pois afinal todos nós nos referimos a alguém que está morrendo ainda não como morto, ou o ” processo de morte” começa quando a pessoa não está mais viva, o que confunde a morte com o processo de desintegração”.

Agora temos um problema: nós precisamos saber o que é a morte, e nós precisamos de provas irrefutáveis para declará-la. Como nós estamos nesse sentido?

Obviamente, tudo ficou muito mais difícil quando foram introduzidas as leis que definiram os dois tipos distintos de morte: a morte cardíaca (a tradicional) e a bola da vez, a morte cerebral. Estas leis foram introduzidos na Austrália no início de 1980 para legitimar a morte cerebral como uma forma de morrer. Isso trouxe os benefícios de permitir a interrupção do tratamento e permitir a doação de órgãos, sem quebrar a “regra do doador morto”.

Morte cardíaca é a “interrupção irreversível da circulação do sangue no corpo da pessoa”, ao passo que a morte cerebral é a “cessação irreversível de todas as funções do cérebro da pessoa”.

Muitos pesquisadores estão lutando para unificar essas duas definições, ao afirmar que a perda de circulação, inevitavelmente, provoca a cessação irreversível de todas as funções cerebrais. Entretanto, uma vez que não sabemos quanto tempo a circulação tem que parar antes que possamos ter certeza de que todas as funções do cérebro pararam, parece que teremos de manter as duas definições por enquanto.

A palavra-chave em cada definição é “irreversível”. A razão pela qual a reanimação cardiorrespiratória, mesmo que melhorada por novas tecnologias, não traz as pessoas de volta à vida é que, claramente, a cessação da circulação e das funções do cérebro não são irreversíveis.

Ou seja, as pessoas que são “trazidas de volta à vida” nunca estiveram mortas, para começo de conversa.

Porém, os resultados aparentemente milagrosos da CPR representam um sério desafio: como, então, podemos ter certeza que a cessação da função é irreversível? A lei é clara na Austrália, e a decisão é delegada aos médicos. Este poder de decisão foi desafiado em um caso de Justiça, mas a lei, tal como está, foi confirmada.

A perda irreversível da função cerebral possui um conjunto de testes que parecem extremamente fiáveis, contanto que sejam adequadamente conduzidos. Até hoje, nenhuma pessoa declarada morta cerebralmente na Austrália já viveu para contar o fato. Já a perda irreversível da circulação, por incrível que pareça, é mais difícil de comprovar. Essa questão tem sido cada vez mais debatida com a possibilidade da doação de órgãos após a morte cardíaca, o que exige, obviamente, a certeza da morte do paciente e a hora exata do óbito.

A doação de órgãos após a morte cardíaca se tornou um prática muito comum na Austrália nos últimos dez anos, como uma resposta aos números baixos de doadores, e já corresponde a cerca de 25% de todas as doações. O que se sabe, empiricamente, é que um coração que parou de bater não vai espontaneamente voltar a fazê-lo logo na sequência (a chamada “autorressurreição”).

Portanto, a cessação da circulação é permanente, mas é irreversível? É, mas somente em um contexto: após a decisão moralmente e clinicamente defensável de não continuar tentando revertê-la. Tais decisões são comuns na prática médica moderna (o não CPR ou a “ordem de não ressurreição”), e têm uma história quase tão longa quanto a própria CPR.

Ou seja, há pessoas que não podem, não devem ou não querem ser ressuscitadas. Para eles, a perda permanente da circulação é irreversível. Para o resto, você deve, sim, tentar a reanimação cardiorrespiratória. E boa sorte. [Medical Express]

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1 comentário

  • Marcos Pereira:

    Ótimo artigo. O site de vocês em geral é ótimo, extremamente interessante. Parabéns!

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