Tecnologia mostra pegadas humanas de 14 mil anos perfeitamente preservadas

Por , em 17.05.2019

Cerca de 14 mil anos atrás, um grupo de cinco pessoas descalças, formado por dois adultos, um pré-adolescente e duas crianças, andou e se arrastou por uma passagem escura em uma caverna na Itália, deixando suas pegadas para trás. Certamente essa foi uma atitude comum em suas vidas e na de seus pares, mas, mesmo sem saber, eles estavam dando passos que, milhares de anos depois, entrariam para a história da humanidade.

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As pegadas deixadas pelo grupo ficaram registradas até hoje na caverna, e puderam ser observadas e detalhadas graças à tecnologia usada em um novo estudo que analisou essas pegadas e outras marcas deixadas por esses indivíduos.

“A preservação de tantas pegadas é verdadeiramente excepcional, preservando até mesmo os menores detalhes dos pés e outras partes dos membros que as criaram. No caso de algumas marcas de joelho, fomos capazes de reconhecer usando modelos 3D incríveis  que mostraram detalhes anatômicos da perna “, diz Marco Romano, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Estudos Evolucionários da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, ao site Newsweek.

Romano afirma que os pesquisadores acreditam que a caverna só foi explorada uma vez por este único grupo.

O que pode explicar as pegadas tão conservadas, segundo Romano, é que a entrada da caverna foi fechada por uma estalactite que tem a mesma idade das marcas que estão sendo estudadas. Assim, a partir daquele momento, ninguém conseguiu entrar na caverna, até a década de 1950, quando a estalactite foi explodida com dinamite para a primeira exploração moderna da área.

As marcas de mão encontradas na caverna indicam que o grupo poderia estar usando o local para uma variedade de propósitos, inclusive apenas para exploração. Marcas de mão intencionais sugerem que as câmaras internas da caverna foram usadas para atividades sociais e / ou simbólicas. “Caçadores-coletores podem, portanto, ter sido motivados por atividades divertidas durante a exploração, bem como simplesmente pela necessidade de encontrar comida”, diz Romano em um comunicado.


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O teto da caverna era tão baixo que, em uma parte, esses exploradores foram forçados a engatinhar, deixando para trás “a primeira evidência de pegadas humanas deixadas durante a locomoção engatinhada”, de acordo com Romano, em entrevista publicada no portal Live Science.

Pesquisadores já sabiam presença humana em Grotta della Bàsura durante a Idade da Pedra desde os anos 1950, mas esta nova análise é a primeira a usar alta tecnologia para estudar esses rastros específicos – os pesquisadores usaram varreduras a laser, análise de sedimentos, geoquímica, arqueobotânica e modelagem 3D para estudar as marcas.

Passo a passo

Havia tantas marcas – 180 no total – que os pesquisadores conseguiram reproduzir com certa precisão o que aconteceu naquele dia durante o período Paleolítico Superior. De acordo com os diferentes tamanhos de pegadas, parece que havia cinco pessoas: uma de 3 anos de idade, uma de 6 anos, um pré-adolescente (de 8 a 11 anos de idade) e dois adultos. O grupo estava descalço e não parecia estar usando qualquer roupa (pelo menos que tenham deixado impressões na caverna). Depois de caminhar cerca de 150 metros na caverna, o grupo chegou a um corredor, o Corridoio delle Impronte, e então passou a andar em fila, com a criança de 3 anos atrás.

“Eles caminharam muito perto da parede lateral da caverna, uma abordagem mais segura também usada por outros animais, como por exemplo, cães e ursos, quando se deslocam em um ambiente pouco iluminado e desconhecido”, disse Romano ao Live Science. Para iluminar o caminho, os caminhantes provavelmente queimaram feixes de varas de pinheiro (Pinus), que os arqueólogos também encontraram na caverna, conhecida como Grotta della Bàsura, no norte da Itália.

Pouco depois de passar pelo corredor, o teto da caverna começa a diminuir, chegando a menos de 80cm de altura, o que forçou os aventureiros a rastejar, “colocando as mãos e os joelhos sobre o substrato de argila”, explica Romano. Os exploradores passaram então por um gargalo de estalagmites ( formações de carbonato de cálcio que goteja de uma superfície superior e crescem a partir do chão e vão em direção ao teto), atravessaram um pequeno lago, deixando rastros profundos no solo encharcado, subiram uma pequena encosta além do “Cimitero degli Orsi” (cemitério dos ursos), e finalmente chegaram à “Sala dei Misteri” (sala dos mistérios), onde pararam.

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Uma vez naquela sala, “o adolescente e as crianças começaram a coletar argila do chão e a espalharam em uma estalagmite em diferentes níveis de acordo com a altura”, disse Romano. As tochas do grupo deixaram vários traços de carvão nas paredes. Então eles saíram da caverna.

Segundo Romano, esse grupo tão heterogêneo mostra que crianças muito jovens eram membros ativos das populações paleolíticas superiores, mesmo em atividades aparentemente perigosas.

O novo estudo é “um belo trabalho”, diz ao Live Science Matthew Bennett, professor de ciências geográficas e ambientais na Universidade de Bournemouth, no Reino Unido, que não esteve envolvido na pesquisa. “É um exemplo da sofisticação com a qual podemos agora registrar impressões, sejam de seres humanos ou animais” .

A respeito das crianças que faziam parte do grupo, Bennett diz que não é incomum encontrar as pegadas de crianças entremeadas com as dos adultos a partir desta época. Em parte, isso ocorre porque as crianças provavelmente superam em número os adultos durante o Paleolítico Superior e porque as crianças dão mais passos do que os adultos, já que suas pernas são mais curtas. “Além disso, crianças fazem coisas bobas – elas dançam por aí, correm por aí, não andam economicamente em uma direção. Faz sentido estatístico encontrar muitas pegadas de crianças”, afirma. [Live Science, Newsweek, ]

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