Pesquisadora descobre por que muitas mães ocidentais têm problema em amamentar

As pessoas que nunca tiveram um bebê costumam se surpreender com a dificuldade em amamentar nos primeiros dias. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que 92% das mães relataram problemas nos primeiros dias da amamentação. Elas tiveram dor, mamilos doloridos, não conseguiam fazer o bebê sugar e se preocuparam se estavam produzindo leite suficiente.

Brooke Scelza, uma antropóloga da Universidade de Los Angeles (EUA), conta que passou por esta experiência. “Antes de ter meu primeiro filho, eu pensava: ‘oh, eu vou descobrir como se faz. Quão complicado pode ser?’”, relembra ela. “Fiquei chocada com a dificuldade. Isso é surpreendente porque a amamentação era uma função crítica para garantir a sobrevivência dos bebês no passado, então se você não conseguisse descobrir como se faz, seu bebê estaria com problemas muito sérios”, diz ela.

É como se a mulher moderna tivesse perdido seu instinto de amamentar. Scelza então quis descobrir como isso pode ter acontecido, e viajou para um local onde as mães são conhecidas pelo sucesso na amamentação: Himba, um deserto no norte da Namíbia.

Ali vive um grupo étnico isolado das cidades modernas. Os integrantes desta comunidade vivem em cabanas feitas de argila e vivem da terra e de alguns animais. Eles plantam milho, sorgo e abóboras. As mães ali ainda têm seus filhos em casa, e todas amamentam.

“Ainda não encontrei uma mulher que não pudesse amamentar. Ali há mulheres que não produzem leite suficiente e acabam complementando a alimentação do bebê com leite de cabra. Mas não há uso de mamadeira ou leite em pó”, descreve a pesquisadora.

As mães da região fazem a amamentação parecer coisa fácil. Elas carregam os bebês nas costas e quando eles choram, o pegam, alimentam, e devolvem às costas.

Por que mães ocidentais têm maior dificuldade em amamentar?

Scelza e sua equipe pensaram em várias hipóteses para explicar esta facilidade das mães da Namíbia. Uma delas é que quando os bebês nascidos em hospitais são retirados do contato da mãe para exames, um momento importante da ligação entre mãe e filho é interrompido, e o bebê perde o reflexo para sugar. As mães do vilarejo ficam com os filhos nos braços assim que eles nascem, sem nenhum tipo de restrição.

Esta hipótese veio da observação de que animais de fazenda que são separados de seus bebês logo após o nascimento costumam ter problemas para mamar. “Apenas recentemente percebemos que os bebês humanos têm o mesmo tipo de reflexo projetado para selar o pacto entre mãe e bebê logo após o nascimento.”, diz a antropóloga Meredith Small, no livro Our babies, ourselves: how biology and culture shape the way we parent. Se o bebê é retirado dos braços da mãe nas primeiras horas de vida, o processo todo pode ser prejudicado.

A segunda hipótese levantada é que as mulheres de Himba aprendem a amamentar desde pequenas. Elas fazem isso ao observar de perto suas mães, irmãs mais velhas e amigas amamentando os bebês. “Amamentar em público não é um estigma de forma alguma”, diz Scelza. Então quando chega a hora delas terem seus próprios bebês, as mulheres de Himba sabem como amamentá-los.

No final das contas nenhuma das duas hipóteses se mostrou 100% correta. Um outro fator cultural deste grupo tem peso muito maior no sucesso das mães em alimentar seus recém-nascidos: a ajuda das avós.

Scelza entrevistou 30 mulheres do grupo para entender melhor suas experiências com a amamentação, especialmente nos primeiros dias depois do nascimento. Sua descoberta é que 60% delas passam pelas mesmas dúvidas e desconfortos que as mães ocidentais, mas que recebem informações preciosas de suas próprias mães.

“Quando as mulheres esperam pelo bebê, elas costumam ir para a casa das mães ainda no terceiro trimestre da gestação, e ficam ali por meses depois do nascimento”, explica ela. A avó da criança mostra tudo que a mãe de primeira viagem precisa saber para cuidar do recém-nascido.

“Suas mães geralmente dormem com elas na cabana a partir do nascimento, e acordam a nova mãe dizendo: ‘está na hora de alimentar seu bebê!’”, conta a pesquisadora.

A hipótese mais provável deste estudo de observação é que não há instinto natural e simples de entrar em ação, mas sim a presença de uma professora 24 horas por dia, todos os dias.

Exemplos em outras partes do mundo

“Conforme comecei a ler sobre isso, encontrei mais exemplos em outras culturas”, diz Scelza. Um pequeno grupo que vive na Costa do Marfim, conhecido como Beng, costuma ensinar as mães de primeira viagem a lidar com a amamentação.

“Durante as primeiras semanas a mãe que acabou de ter o parto recebe visitas constantes, especialmente de mulheres. A maioria delas já amamentou, e compartilha a sabedoria sobre amamentação de forma espontânea. Através delas, a nova mãe é socializada rapidamente e recebe sugestões quase ininterruptas de mulheres mais experientes”, conta a antropóloga Alma Gottlieb no livro The afterlife is where we come from.

Em várias culturas asiáticas, as mulheres que acabam de parir passam 30 dias em casa recebendo ajuda da mãe, sogra ou tia. Essas mulheres fazem refeições nutritivas para as novas mães e explicam como fazer o bebê sugar o leite corretamente.

“Pesquisadores frequentemente escrevem sobre este período de recuperação. Mas estou mais interessada em vê-lo como período crítico de aprendizado para as mães”, aponta Scelza.

A pesquisadora também acredita que a pressão da sociedade ocidental para que a mulher amamente com sucesso acaba atrapalhando a mãe. As mulheres acabam achando que se não puderem fazer isso, estarão falhando como mães. Em Himba isso é visto de forma diferente. “Quando o bebê tem problema para sugar, eles apenas dizem ‘é, isso faz parte do que você precisa aprender se quiser amamentar’”, afirma Scelza. [NPR]

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