Por que você deve passar um tempo sem fazer nada, de acordo com a ciência

Por , em 5.06.2018

O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade no mundo todo. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, divulgadas no ano passado, 9,3% dos brasileiros têm a condição marcada por sintomas como dificuldade de concentração, problemas de sono e preocupação excessiva.

O Brasil é ainda o quinto país com mais casos de depressão – 5,8% da população é afetada. Fatores socioeconômicos, como pobreza e desemprego, e ambientais, como o estilo de vida em grandes cidades, são alguns dos responsáveis por tais números.

Em outras palavras, estar constantemente ocupado definitivamente não é sinônimo de estar constantemente feliz, muito menos saudável.

E, no entanto, o estilo de vida moderno nos faz pensar que isso é verdade, ou, ao menos, não nos deixa tempo para perceber que não é.

A era da atividade

Na década de 1950, estudiosos temiam que, graças às inovações tecnológicas, os americanos não saberiam o que fazer com todo o seu tempo de lazer. O contrário ocorreu: conforme observa a socióloga Juliet Schor, os americanos estão hoje sobrecarregados de trabalho, gastando mais horas nisso do que em qualquer período desde a Grande Depressão, na década de 1930, e mais do que qualquer outra cultura na sociedade ocidental.

Isso provavelmente está relacionado ao fato de que o acesso instantâneo e constante se tornou o padrão: nossos dispositivos nos expõem a uma disponibilidade infinita em meio a uma avalanche de mensagens “urgentes” que podem chegar a qualquer hora do dia de qualquer dia.

Essa era “sempre ativa” perturba nosso tempo de lazer, nosso tempo em família e até mesmo nossa consciência.

O professor de sociologia Simon Gottschalk, da Universidade de Nevada (EUA), tem tentado entender os efeitos sociais e psicológicos dessas crescentes interações com novas tecnologias de informação e comunicação, o que resultou em seu livro “The Terminal Self: Everyday Life in Hypermodern Times” (em tradução livre, “O eu terminal: a vida cotidiana nos tempos hipermodernos”).

Segundo ele, enquanto a perspectiva de não fazer nada pode parecer irrealista e irracional nos dias atuais, nunca foi tão importante.

Força de aceleração

Essa é uma questão complexa, mas Gottschalk crê que uma maneira de explicar esse estado irracional da vida moderna é algo chamado de força de aceleração. Segundo o teórico crítico alemão Hartmut Rosa, os desenvolvimentos tecnológicos impulsionaram a aceleração do ritmo das mudanças nas instituições sociais.

Quanto mais e-mails você recebe, mais tempo precisa para processá-los. Isso exige que você realize essa ou outra tarefa em menos tempo, ou execute várias tarefas de uma vez.

A produtividade dos trabalhadores americanos aumentou dramaticamente desde os anos 1970. No mesmo período, a diferença salarial entre produtividade e remuneração também aumentou consideravelmente: embora a produtividade entre 1973 e 2016 tenha subido em 73,7%, o pagamento por hora cresceu apenas 12,5%.

Claramente, a aceleração exige mais trabalho – mas para qual fim? Esse gasto adicional de energia reduz a capacidade das pessoas de se engajarem nas atividades essenciais da vida: família, lazer, comunidade, cidadania, anseios espirituais e autodesenvolvimento. Além disso, se torna um ciclo vicioso: a aceleração impõe mais estresse aos indivíduos e reduz sua capacidade de gerenciar seus efeitos, agravando-os.

A importância da ociosidade

Em uma sociedade hipermoderna impulsionada pelos motores da aceleração e do excesso, não fazer nada é equiparado a desperdício, preguiça, falta de ambição, tédio ou tempo de inatividade.

Mas essa é uma compreensão bastante instrumental da existência humana. Diversas pesquisas científicas – além de muitos sistemas espirituais e filosóficos, como o budismo, por exemplo – sugerem que o desapego das preocupações diárias e o tempo gasto em simples reflexão e contemplação são essenciais para a saúde, sanidade e crescimento pessoal.

Da mesma forma, equacionar “não fazer nada” com a não produtividade revela uma compreensão míope da produtividade. Na verdade, a pesquisa psicológica sugere que não fazer nada é essencial para a criatividade e inovação, e a inatividade aparente de uma pessoa pode realmente cultivar novos insights e invenções.

É só pensarmos nas lendas como Isaac Newton, que compreendeu a lei da gravidade sentado debaixo de uma macieira, ou Arquimedes, que descobriu a lei da flutuabilidade relaxando em sua banheira, ou ainda Albert Einstein, conhecido por ficar horas olhando para o espaço em seu escritório.

Tire o pé

A chave é equilibrar o período gasto fazendo tarefas e não fazendo “nada”. O primeiro passo consiste em simplesmente desacelerar.

Uma maneira relativamente fácil de fazer isso é simplesmente desligar todos os dispositivos tecnológicos que nos conectam à internet por pelo menos um tempo, a fim de avaliar o que acontece conosco quando fazemos isso.

Pesquisadores dinamarqueses descobriram, por exemplo, que estudantes que se desconectaram do Facebook por apenas uma semana relataram aumentos notáveis na satisfação com a vida e nas emoções positivas. Em outro experimento, neurocientistas que fizeram uma viagem pela natureza relataram um melhor desempenho cognitivo.

Enquanto corremos, não tomamos tempo para examinar seriamente a lógica por trás de nossas vidas frenéticas, e erroneamente assumimos que os que são muito ocupados devem estar envolvidos em grandes projetos.

Os meios de comunicação de massa e a cultura corporativa levam a esse “mito da ocupação” que contradiz o modo como a maioria das pessoas em nossa sociedade define “uma vida boa”, bem como os princípios de muitas filosofias orientais que exaltam a virtude e o poder da quietude.

Talvez você queira se inspirar em Albert Camus para começar a se permitir um tempo “sem fazer nada”; segundo o escritor francês, “[a] ociosidade é fatal apenas para os medíocres”. [LiveScience]

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1 comentário

  • Darley Vieira Lages:

    Bertrand Russell, o maior filósofo do século vinte dizia que “não é perdido o tempo que você gasta por gostar”.

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