Salve as baleias, salve a Terra!

Por , em 10.08.2014

Ao longo de mil anos de caça generalizada às grandes baleias, os seres humanos eliminaram entre dois terços e 90% das grandes populações destes animais. A biomassa total de baleias do planeta pode ter sido reduzida em até 85%. Algumas espécies se saíram pior do que outras: as baleias azuis, os maiores animais que habitam a Terra atualmente, foram reduzidas a apenas 1% de seus números históricos no hemisfério sul.

Fora a óbvia loucura dessa matança desenfreada, assassinar tantas baleias pode ser um erro ecológico que vai custar caro, inclusive para a sobrevivência do ser humano e do próprio planeta como nós o conhecemos. Com a diminuição do número de baleias, todo o ecossistema oceânico sofre alterações – uma das mais importantes dessas mudanças foi a diminuição na retenção de carbono. Sem as baleias para equilibrar o sistema de diversas maneiras diferentes, o carbono que ficava lá no fundo do mar subiu para a atmosfera.

Em um artigo recente na revista Frontiers in Ecology and Enviroment, o economista ecológico Joe Roman e alguns colegas descreveram quatro comportamentos básicos das baleias que são vitais para a saúde dos oceanos e para o futuro da nossa Terra cada vez mais quente, que foram desaparecendo conforme esses animais também foram.

A boa notícia é que, segundo o estudo, a caça às baleias está diminuindo e as populações dos grandes cetáceos estão lentamente se recuperando.

Baleias são predadoras

O fato das baleias consumirem toneladas – literalmente – de alimentos ajuda a manter o carbono sob o oceano, em vez de deixar que ele chegue na atmosfera, onde lentamente cozinha a Terra, produzindo o famoso efeito estufa.

Isso porque a quantidade de alimentos necessária para permitir que apenas uma baleia azul sobreviva é o suficiente para alimentar sete baleias Minke ou 1.500 pinguins. Na verdade, quando o número de baleias diminuiu, outras espécies, como pinguins e focas antárticas, tiveram um grande crescimento populacional, já que havia de repente muito mais comida para eles comerem. Mas, apesar da capacidade de 1.500 pinguins de comer a mesma comida que uma única baleia azul, sua biomassa equivale a apenas 8% da baleia.

A maior biomassa das baleias azuis permite que os ecossistemas marinhos armazenem mais carbono simplesmente porque estes animais – e suas carcaças, quando eles morrem – são maiores. Em outras palavras, pela mesma quantidade de comida, as grandes baleias permitem que os oceanos retenham uma quantidade maior de carbono do que animais menores jamais poderiam fazer.

Baleias são presas

Baleias são grandes, e as grandes baleias, como a baleia azul e a cachalote, são maiores ainda, mas isso não lhes fornece proteção contra todos os predadores. Por elas serem tão grandes, uma única baleia representa uma recompensa em energia e recursos para qualquer criatura grande, poderosa ou teimosa o suficiente para caçá-las.

Os fósseis fornecem evidências de que o antigo (e extinto) tubarão megalodonte caçava as grandes baleias, e ambos os relatos históricos e modernos verificam que as orcas fazem o mesmo. A alta frequência de arranhões e marcas da maioria das espécies de baleias grandes afirmam uma longa e generalizada utilização de baleias como presas.

Quando as baleias assassinas foram forçadas a encontrar outras fontes de energia, muitas se voltaram para mamíferos marinhos menores, como focas, leões marinhos e lontras marinhas. A diminuição de lontras do mar fez com que sua principal fonte de alimento, os ouriços do mar, de repente ficassem sem uma pressão de predação significativa. Logo, as populações de ouriço do mar no Oceano Pacífico norte floresceram e, como resultado, as florestas de algas que eles usam como alimento começaram a declinar.

O declínio das florestas de algas não só mudou substancialmente os ecossistemas locais, tanto em termos de biodiversidade e biomassa, mas também reduziu a capacidade dos ecossistemas marinhos de manter carbono. Assim como florestas terrestres, florestas de algas são um importante reservatório de carbono, um modo pelo qual ele pode ser sequestrado e ficar longe da atmosfera.

Baleias vão ao banheiro

Todo mundo faz isso, mas baleias fazem para valer. As baleias e outros mamíferos marinhos encontram comida nas profundezas dos oceanos – cachalotes mergulham nos mais sombrios e profundos mares para encontrar lulas -, mas, em seguida, retornam à superfície para ejetar seus resíduos, liberando grandes quantidades de nitrogênio e ferro na água por meio de plumas fecais. Isso permite o crescimento de fitoplâncton perto da superfície do mar. Eventualmente, esses fitoplânctons afundam, transferindo pelo menos 200 mil toneladas de carbono por ano da atmosfera para o fundo do mar.

Baleias não percorrem apenas grandes distâncias em profundidade; elas também migram horizontalmente em toda a superfície do planeta. As baleias de barbatana têm algumas das maiores migrações no mundo, movendo-se entre a alimentação em altas latitudes ao parto em latitudes mais baixas. Durante a lactação, as fêmeas liberam todo o nitrogênio que elas têm armazenado em sua gordura corporal enquanto ele é queimado para manter a sua energia. Assim, de acordo com uma estimativa, baleias azuis transportam 88 toneladas de nitrogênio por ano a partir de suas áreas de alimentação de alta latitude perto do Alasca ou Antártida até os trópicos, onde elas dão à luz a seus filhotes.

Antes da caça comercial começar, esse número teria estado mais perto de 24 mil toneladas de nitrogênio. Isso permitiria o crescimento de mais fitoplâncton, o que teria fornecido o sequestro de um adicional de 140 mil toneladas de carbono por ano.

Roman chama a transferência de nutrientes e produtos químicos através das baleias de “bomba de baleia” e “grande cinturão de transporte das baleias”, para descrever os processos verticais e horizontais, respectivamente. Com a recuperação das populações de baleias, escreve ele, esses processos podem permitir que os nossos oceanos comecem lentamente a agir como o grande reservatório de carbono da Terra, mais uma vez.

As baleias são meras mortais

As baleias podem ser criaturas magníficas, mas acabam morrendo. Uma vez que elas são feitas principalmente de proteínas e lipídios, baleias mortas fornecem pequenos banquetes para moradores das profundezas, um lugar que é em grande parte desprovido de nutrientes e energia. Depois que uma baleia cinzenta de 40 toneladas tem o seu último suspiro, ela afunda silenciosamente, trazendo cerca de 2 milhões de gramas de carbono junto com ela. Ao todo, a morte natural de baleias atualmente transfere cerca de 190 mil toneladas de carbono por ano da atmosfera para o fundo do mar.

Mas isso é uma estimativa baseada em populações de baleias de hoje, que só agora começaram a se recuperar. Se grandes populações de baleias forem restauradas a seus tamanhos pré-caça, o aumento da exportação de carbono seria “comparável em magnitude aos hipotéticos projetos destinados a mitigar a mudança climática”, afirma Romano. A conservação das baleias teria o mesmo efeito, em termos de sequestro de carbono, que realizar o projeto de fertilização do oceano com ferro e nitrogênio, que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) descreveu em 2007 como “especulativo” e “sem um quadro institucional claro para a implementação”.

E isso importa?

Baleias oferecem mais serviços ao ecossistema além do seu papel na transferência global de carbono. Na verdade, Roman e seus colegas reconhecem que a contribuição de baleias para fluxos globais de carbono é de fato relativamente pequena em comparação com outros processos. Ainda assim, um esforço contínuo para a conservação das baleias “pode ajudar a amortecer os ecossistemas marinhos de tensões desestabilizadoras”, diz ele.

Quando você remove grandes predadores em massa de seus habitats, coisas ruins tendem a acontecer. Quando os lobos foram expulsos de Yellowstone, nos EUA, a população de alces explodiu porque eles já não eram suprimidos pelos seus caçadores naturais. Mas mais alces fez com que as plantas que eles comiam ficassem escassas – ninguém pensou em plantar mais alimento quando expulsou os lobos. E os ursos, castores e bisões, que comiam muitas das mesmas plantas que o alce, de repente se viram sem comida suficiente. Todo o ecossistema de Yellowstone mudou.

Quando os lobos foram reintroduzidos, a cadeia alimentar começou a se estabelecer em seu antigo equilíbrio. A população de alces foi mantida em xeque. O número de castores e bisões aumentou. Os lobos, que já foram vistos como animais que apenas causavam incômodo, começaram a ser encarados por ambientalistas, pesquisadores e formuladores de políticas públicas como parte fundamental do meio ambiente local.

Da mesma forma, o comércio pensa nas baleias como grandes fontes para se ganhar dinheiro. A partir da caça de grandes baleias são extraídos carne, óleo, barbatanas e espermacete, uma substância cerosa encontrada na cabeça dos cachalotes, usada em velas, pomadas e como lubrificante.

Mas, agora, elas estão se tornando cada vez mais reconhecidas pelos serviços que prestam ao ecossistema. Só agora cientistas começam a quantificar empiricamente o quanto as baleias são importantes para a saúde dos ecossistemas oceânicos. Esperamos que isso sirva para mudar a atitude dos humanos em relação a elas. [Io9]

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