Vida pode surgir do nada? Descoberto metabolismo acontecendo fora de células

Por , em 3.06.2014
Será que a vida pode surgir?

Será que a vida pode surgir “do nada”?

A vida pode surgir do nada?

Uma das características-chave de um ser vivo é o metabolismo, ou seja, aquela série de reações em cadeia que permitem que as células funcionem e sobrevivam.

Um dos nossos grandes problemas atuais para entender como a primeira forma de vida surgiu é justamente explicar como o metabolismo pode ter surgido – muita gente acha que a série de passos químicos é muito complexo para “aparecer” do nada, de forma espontânea, baseada apenas na química.

Entretanto, uma descoberta feliz e acidental acabou por apontar para evidências que os processos metabólicos podem surgir espontaneamente, sem precisar de uma célula ou DNA/RNA. É um golpe severo na tese de que a origem da vida precisa de interferência de alienígenas ou divindades, e é também mais uma peça no quebra-cabeças de como a vida pode ter surgido.

Uma das hipóteses sobre a origem dos blocos fundamentais da vida afirma que o RNA é o bloco essencial inicial, já que ele ajuda a produzir enzimas que catalisam as sequências complexas de reações. A outra possibilidade é que as reações metabólicas surgiram antes do RNA, talvez até gerando as moléculas necessárias para a formação do RNA, só que faltavam evidências de que isto fosse possível.

Serendipidade

Mas então eis que o acaso ajuda os cientistas.

Um dos alunos de Markus Ralser, da Universidade de Cambridge, que estava encarregado dos testes de controle de qualidade dos meios de cultura de células utilizadas nas experiências do laboratório de Ralser, resolveu passar por um espectrômetro de massa um meio de cultura que ainda não havia sido utilizado. Surpreendentemente, foram encontrados traços de piruvato ou ácido pirúvico, um produto gerado pela metabolização anaeróbica da glicose, processo chamado de glicólise.

A equipe de Ralser abordou então uma outra equipe que estava estudando o arqueano, a era geológica em que a vida se originou, quase 4 bilhões de anos atrás, e obteve a informação que a atmosfera era sem oxigênio, com as águas oceânicas ricas em ferro e outros metais, além de fosfatos, todas substâncias que potencialmente facilitariam as reações químicas vistas em células.

Utilizando então soluções com composição semelhante às dos oceanos arqueanos, a equipe acrescentou substâncias conhecidas por fazerem parte do ponto inicial dos caminhos metabólicos das células modernas, e depois aqueceu a mistura a temperaturas entre 50°C e 70°C, as prováveis temperaturas da época, por cinco horas.

Depois de cozinhar esta sopa, a equipe a analisou para ver quais moléculas estavam presentes. A expectativa de Ralser era de encontrar uma ou duas, mas surpreendentemente eles conseguiram praticamente reconstruir dois caminhos metabólicos. Cerca de 29 reações químicas semelhantes às metabólicas foram identificadas, aparentemente catalisadas pelos íons de ferro.

Os caminhos metabólicos identificados em sua quase totalidade foram o da glicólise e a via das pentoses-fosfato. Os processos metabólicos não eram idênticos aos modernos, já que alguns dos componentes formados em passos intermediários não foram detectados.

O professor Ralser aponta que o metabólito ribose 5-fosfato é notável, já que se trata de um precursor do RNA. Além disso, a descoberta aponta para pistas de como enzimas complexas podem ter evoluído — as substâncias que tornam estes processos mais eficientes podem ter sido selecionadas, segundo o professor Matthew Powner, da University College London.

Por enquanto, as críticas ao trabalho partem do professor Powner e do professor Jack Szostak, que estudam a origem da vida em Harward. Powner aponta que não há ainda uma demonstração de que as moléculas que tornam mais eficiente estes processos possam ter surgido espontaneamente, e o professor Szostak nota que por enquanto o metabolismo encontrado é de degradação, transformando moléculas complexas em moléculas mais simples.

Ralser discorda. Segundo ele, não importa se a reação foi catalisada por uma enzima ou por uma molécula do Oceano Arqueano, o resultado é mesmo: “Toda reação química é, em princípio, reversível, não importa se o catalisador é uma enzima ou uma molécula simples”. O trabalho do professor Ralser e equipe foi publicado na revista Nature, em 25 de abril. [NewScientist, LiveLeak]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (1 votos, média: 5,00 de 5)

12 comentários

  • SamaraWenlendau:

    Sou evolucionista, mas, ter certeza dessa descoberta….é questionável.
    Vamos aguardar outras pesquisas.

    • Cesar Grossmann:

      A Teoria da Evolução não investiga nem explica a origem da vida, que é assunto de outra teoria, a da Biogênese ou Biopoiese.

  • Willian Floriano:

    Finalmente.. apesar que isso é apenas o início, os humanos ainda tem muito o que caminhar, em menos de 100 anos já é possível determinar nossa origem, esse é só um dos catalizadores, o Universo é muito para nossa mente, depois que os humanos entenderem como nosso planeta funciona realmente, a vida fora da terra e a própria, será revelada, boa sorte pessoal a caminha é longa, abraços.

  • Sakya Maria:

    uia, que delícia… então mais vidinhas alienígenas fora da Terra do que já supúnhamos até então.

  • Jeronimo E. Rosa:

    Se, no laboratório, a mistura de gases representa a atmosfera primordial, e a sopa aquecida representa o caldo orgânico primevo — o que, ou a quem, representa o cientista que faz a experiência?
    .

    • Cesar Grossmann:

      Nada, o cientista não faz absolutamente nada para que surjam os aminoácidos, ele não inventou nada, os gases e elementos químicos são extremamente comuns no Universo e juntar eles em um planetinha não tem nada de mais, devem haver bilhões de planetas com esta combinação de elementos químicos e condições, em que estas condições estejam se replicando e reações metabólicas simples estejam ocorrendo sem a presença de vida.

    • Kauê Oldrei Bedin:

      As altas temperaturas acima de 50º que haviam na terra antes da formação da camada de ozônio.
      A radiação solar que caía sobre a terra com muito mais intensidade, porque não havia a camada de ozônio.
      Os bilhões de anos que todo esse processo levou para ocorrer de forma natural…
      É isso que os cientistas estão tentando recriar em escala reduzida, para poder estudar e entender os processos que levaram ao surgimento da vida.

  • Mário Secco:

    Golpe severo para aqueles que acreditam que existe “algo mais” no surgimento da vida por que?
    Isso pode muito bem fazer parte do “plano”.

  • Herberti Pedroso:

    (…) testes de controle de qualidade dos meios de cultura de células utilizadas nas experiências do laboratório de Ralser (…).
    A reação inesperada ocorreu não em condições ambientais aleatórias, mas em um meio que estava sendo cuidadosamente mantido. O fenômeno apenas mostra que, reações parecidas com as que envolvem vida biológica, podem ocorrer se os elementos certos estiverem juntos e nas condições certas. E tal harmonização acontecer naturalmente é, convenhamos, muito improvável.

    • Cesar Grossmann:

      Por que a “harmonização” seria improvável de acontecer naturalmente, se naturalmente os oceanos arqueanos tinham aquela “harmonização”?

    • Danilo:

      Se um determinado fenômeno foi provocado artificialmente, então desde que as mesmas circunstâncias no experimento são recriados naturalmente devido a algum fator ou outro, o mesmo fenômeno ocorre com nenhuma ajuda dos seres humanos!!!!!

  • Naldo Soares:

    Eu sou evolucionista independentemente de como a vida tenha começado, mas saber exatamente como a vida poderia ter começado seria bem legal.

Deixe seu comentário!