O casamento gay no ano de 100 d.C.

O casamento gay soa como uma idéia ultracontemporânea. Mas há quase vinte anos, um estudioso católico em Yale chocou o mundo ao publicar um livro repleto de evidências de que os casamentos homossexuais foram sancionados pela Igreja Cristã durante uma era comumente chamada de Idade das Trevas.

John Boswell foi um historiador e religioso católico que dedicou grande parte de sua vida acadêmica ao estudo do tempo entre o final do Império Romano e início da Igreja cristã. Analisando os documentos legais e da igreja a partir desta época, ele descobriu algo incrível. Havia dezenas de registros de cerimônias da igreja, onde dois homens se juntaram em sindicatos que usaram os mesmos rituais de casamentos heterossexuais. Em compensação, não conseguiu quase nenhum registro de uniões lésbicas, o que demostra que a cultura é muito mais masculina.

Amparado por esta evidência, Boswell publicou um livro em 1994, um ano antes de sua morte por AIDS, chamado de “Uniões do mesmo sexo na Europa pré-moderna”. O livro será lançado no próximo mês pela primeira vez em uma edição digital. Era um pára-raios instante de controvérsia, atraindo críticas da Igreja Católica e da comentarista de sexo Camille Paglia. Sabendo da visão atual da Igreja sobre o casamento gay, esses detratores argumentaram que a história de Boswell parecia uma ilusão.

Mas não era. Boswell na verdade começou sua pesquisa na década de 1970, e publicou um trabalho igualmente controverso em 1980 chamado Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade: Pessoas gays na Europa Ocidental a partir do início da era cristã para o século XIV. Seu livro revela muito do que tinha aprendido ao longo de uma vida de pesquisa em fontes primárias em bibliotecas e arquivos espalhados.

Como esses casamentos foram esquecidos pela história? Uma resposta fácil é que – como Boswell argumenta – a Igreja reformulou a ideia do casamento no século 13 para fins de procriação. Acadêmicos e funcionários da igreja trabalharam duro para suprimir a história desses casamentos, a fim de justificar sua nova definição.

Naturalmente, a história é mais complicada do que isso. Boswell afirma que parte do problema é que a definição de casamento hoje é muito diferente, que é quase impossível para os historiadores reconhecer documentos de casamentos gays de 1800 anos atrás. Muitas vezes, esses documentos referem-se a unir “irmãos”, que na época teria sido uma maneira de descrever parceiros do mesmo sexo, cujos estilos de vida eram tolerados em Roma. Além disso, os casamentos mais de um milênio atrás não eram baseadas em procriação, mas na partilha da riqueza. Assim, o “casamento” às vezes significava uma união não sexual de duas pessoas ou de famílias. Boswell admite que alguns dos documentos que encontrou poderiam referir-se simplesmente ao fato da união não sexual de dois homens – mas também se referiu ao que hoje chamaríamos o casamento gay.

O jurista Richard Ante escreveu um artigo explicando que o livro de Boswell poderia até ser usado como evidência para a legalidade do casamento gay, uma vez que mostra a evidência de que as definições de casamento mudaram ao longo do tempo. Ele descreve algumas das evidências de Boswell desses ritos do mesmo sexo, no início do primeiro milênio: “O rito do enterro dada para Aquiles e Pátroclo, os dois homens, era o rito do enterro de um homem e sua esposa. As relações de Adriano e Antínomo, de Polyeuct e Nearchos, de Perpétua e Felicitas, e dos Santos Serge e Baco, são semelhantes aos casamentos heterossexuais de suas épocas. A iconografia de Serge e Baco foi a mesma usada em cerimônias nupciais do mesmo sexo pela Igreja cristã primitiva”.

A principal evidência de que essas uniões do mesmo sexo eram casamentos é que eles eram muito parecidos com cerimônias heterossexuais. O literário erudito Bruce Holsinger descreve histórias detalhadas de Boswell de cerimônias do mesmo sexo: “[Boswell] inteligentemente coloca o desenvolvimento de escritórios nupciais heterossexuais e pessoas do mesmo sexo como um fenômeno único, acompanhando o crescimento deste último de ‘meramente um conjunto de orações’ na Idade Média antes de sua floração no século XII, que envolveu ‘a queima de velas, a colocação das mãos dos dois partidos sobre o Evangelho, a união de suas mãos direitas, a ligação de suas mãos … com estola do sacerdote, uma ladainha introdutório coroação, a Oração do Senhor, comunhão, um beijo, e às vezes circulando ao redor do altar’. Boswell dedica um capítulo inteiro para comparar esses rituais com os seus homólogos heterossexuais, revelando uma série de semelhanças extraordinárias entre os dois, em vários apêndices, totalizando quase 100 páginas. Ele compilou inúmeros exemplos dos próprios documentos (incluindo cerimônias de matrimônio heterossexual e rituais de adoção) para permitir que ‘os leitores julguem por si mesmos’, como ele diz”.

Eram estas uniões do mesmo sexo na idade média a mesma coisa que casamentos gays de hoje? Provavelmente não. Pessoas da época podem não ter visto dois homens que formam uma união como algo fora do comum. O próprio casamento significava algo diferente de milhares de anos atrás, e os tabus sociais contra a homossexualidade ainda não tinham solidificado. Ainda assim, na obra de Boswell, encontramos registros de instituições onde os casais do mesmo sexo foram homenageados com as mesmas cerimônias que os casais de sexo oposto. Dois homens podiam viver como irmãos, partilhando riqueza, casa e família. E sim, eles podiam amar uns aos outros, também.

Embora Boswell tenha morrido antes de seu país começar a permitir essas uniões, ele poderia se vangloriar por saber algo que a maioria das pessoas não conhecia. Mesmo os tipos mais fundamentais das relações humanas mudam com o tempo. Aqueles que foram banidos hoje pode ser abençoado amanhã – assim como eles eram mais de mil anos atrás. [io9]

Por: Ana Claudia CichonEm: 30.07.2013 | Em Comportamento, Principal  | Tags:  
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23 respostas para “O casamento gay no ano de 100 d.C.”

  1. Já é um fato conhecido de que o Cristianismo perdeu muito de seu conteúdo original quando se tornou a religião oficial de Roma através da conversão do imperador Constantino que visava mais a situação política do que um ato de fé. Coisas como o batismo de bebês,adoração de imagens,comemoração do Natal em 25/12 etc foram adaptações da religião pagã para atrair novos seguidores.Cristo nunca falou nada contra homossexuais.As pessoas parecem esquecer que sua principal lição foi “Amar ao próximo como a si mesmo”.

  2. Só lembrando que DC quer dizer “Depois de Cristo” Mas não vamos condenar a intensão da bíblia originalmente, mesmo hoje para aprendermos bem uma língua com suas sutilezas temos que passar uma temporada num país que a fala e sempre aparece gírias, expressões novas e palavras que nada têm a ver com sua origem etimológica; agora imagina traduzir textos numa língua morta, escrita a milhares de anos para outros povos, cultura, conhecimento,compreensão e sujeita a interpretações subjetivas, políticas, interesses, sonegações e tudo que pode influenciar quando só poderosos sabiam ler, quem questionasse poderia perder a cabeça como ocorre até hoje em algumas religiões mais atrasadas. A bíblia é um texto religioso, não adiantaria nada ser científica a 4 mil anos atrás, só podia ser simbólica mesmos. Será difícil saber exatamente o que pensavam ao escrever se até hoje um texto, já traduzido e exatamente igual com as mesmas palavras dão interpretações diferente, mas não é privilégio de religiosos; nossas leis escrita por maioria num congresso onde a maioria é advogado e intelectuais letrados, sempre têm que se reunirem entre eles mesmos para saber qual a interpretação correta de tanto duplo sentido que aparece depois. A vantagem de cientistas é que entram mais em consenso pelo mundo do que religiosos, mas também, como sempre falo em tópicos políticos, a matemática e física não têm religião, partido ou interesses.

    • Lembrando que tenho religião e sou hétero. Mas obviamente eu só acredito; saber eu não sei nada. Nunca vi Deus, mas também nunca vi um quarks ou boson de higgs. Cientistas dizem que com maquinas podem presumir que existem, mas monges também dizem que com conhecimento e meditação também podem presumir Deus. Tecnicamente nos dois casos é só uma questão de crer porém, como já dito, cientistas entram mais em consenso que religiosos.

      Quando (supostamente) foi dito para nos multiplicarmos havia só duas pessoas na terra. Dizer que Deus fez Adão e Eva também não justificaria homofobia se não justificaria o incesto entre irmãos também. Hoje somos mais de 7 bilhões e muitas famílias se desfazendo e se perdendo devido a miséria, baixo poder de compra, má distribuição de renda que leva a falta de estrutura familiar, abandono, brigas, deselejo, crimes e exploração sexual; além de muitos no mundo que morrem de fome, sede, guerras, preconceito, frio, falta de saneamento e muito mais. Acho que há outras prioridades para religiosos e políticos antes de culparem gays de destruir família e ameaçar a procriação humana. Mas também acho tolice querer que a igreja libere, quem faz leis que temos que seguir são políticos e ninguém é obrigado a ter uma religião.

  3. 1*) NAO EXISTE SER GAY OU SER HÉTERO , MAS O QUE EXISTE é A “AÇAO” ou o “ATO” DE FAZER O SEXO , e os BISSEXUAIS JA DESCOBRIRAM essa “AÇAO ou ATO” de FAZER SEXO A décadas /séculos. 2*) DEUS =(a fonte conciencia das almas)nao criou o casamento ,nem o casamento héteros ,nem o casamento gay . mas a UNIAO DE 2 SERES HUMANOS (TERRAQUEOS) que se juntao por amor/tesao . o casamento foi inventado pelo EGO VAIDOSO dos seres humanos. MAS O AMOR FOI POSTO SEM O PRECONCEITO POR DEUS( a fonte conciencias) PORTANTO O IMPORTANTE É O AMOR E NAO DE QUE SEXO É O OUTRO , pois sexo nao tem sexo .

  4. Não tenho nada contra o casamento gay,pois esse comportamento dentro de nossa sociedade vem de muito tempo atrás,temos relatos de historiadores que relatam a pratica da homossexualidade desde a pré historia,e se adiantarmos mas um pouco a Roma antiga tinha em sua cultura o ato homossexual como sendo uma maneira de torna seus homens mais afetivos uns com os outros,em que o amor só existia entre dois homens e que a mulher simplesmente era uma necessidade física do homem e para fins reprodutivos,o que não pode acontecer é a elite homossexual de nosso tempo exigir direitos para se tornarem mais que um cidadão normal…

  5. Pra que clicaste pra ler então? Vá destilar teu mau humor noutra página.

  6. não vejo mal algum no casamento gay. Aliás, essa fixação anti-gay sai da mente aloprada dos fanáticos religiosos, cuja maioria é composta de frustrados e amargos. A maioria dos fanáticos religiosos são misóginos ou não tem coragem para sair do armário. Francamente, nunca me interessei pela vida sexual alheia e nunca quis ser polícia do desejo sexual dos outros. Aliás, a maioria dos gays que conheço são gente do bem, bons pagadores de impostos, e sobretudo carinhosos e humanos.

  7. O mundo vai ler um livro-mentira, sem autenticidade de conteúdo. Isto começa pelos EUA, origem de toda maldade que o mundo conquista. Deus nos livre. Temos livro-verdade, cujas palavras não passarão.

    • Sai das carvenas da idade média! Cobra falando num jardim, sarça ardente falante, mulher saindo de costela, isso é livro-verdade? A Bíblia é o maior lixo já escrito por mentes doentias e fanáticas. Os EUA são malvados??? Foi graças aos EUA que temos hoje o computador, a internet, quase todos os avanços tecnológicos da humanidade sairam dos EUA, eles podem ser durões, mas não malvados.

  8. Até hoje não sei no que Gay pode atrapalhar héteros; é mais fácil outro hétero fazer isto. Eu até prefiro que possam assumir e se unirem entre eles sem preconceito ou ameaças; assim, ao menos, temos menor chance de ficar ou até casar com alguém que só está conosco para satisfazer familiares, sociedade, igrejas ou por medo de discriminação ou represálias; pois qualquer pessoa jovem e saudável e de boa imaginação pode fingir prazer, ter ereção, lubrificação, orgasmos e até filhos biológicos.

    • Alguns dizem que eles querem mais direitos que a maioria, mas na verdade só querem os mesmos direitos de andar pelas ruas e serem felizes sem sofrerem discriminação ou emboscadas de grupos em superioridade numérica como de fato acontece. Primeiro vem as estatísticas e depois as leis, então não são as leis que geram as estatísticas e sim vice-versa; quando o fato de ser homem, branco e hétero, for por este motivo, vítima de emboscadas, surras e mortes pode ter certeza que haverá leis para nos proteger também. Os movimentos e slogans de autoafirmação foram criados para elevar a autoestima e moral de grupos ou povos que de fato historicamente, por séculos, foram condicionados desde crianças a acreditarem que eram inferiores perante a sociedade, natureza e até para Deus; movimentos masculinos, brancos e héteros soam como preconceituoso ou negação do outro direito, por que ser assim nunca no foi motivo para baixa autoestima e nem estatisticamente vítima de ataques ou motivo de discriminação e humilhação, logo, completamente desnecessários; a não ser que alguém não se sinta tão seguro de sua heterossexualidade e precisa de reconhecimento de outros para se autoafirmar. Óbvio que pessoas morrem todos os dias e devemos ficar indignado com qualquer violência, mas é diferente de morrer por uma coisa que não traz benefício nenhum ao agressor, não se comprou nem pediu para ter ou ser, cientista sabe como ocorre, não existe reversão ou inversão testada e aprovada cientificamente e não se pode simplesmente tirar e entregar ao agressor como se fosse um relógio, carteira ou celular para tentar sair ileso ou ao menos vivo.

    • Errata. No final da respostas abaixo leia-se: cientistas “não sabem” como ocorre, não existe reversão ou inversão testada e aprovada cientificamente e não se pode simplesmente tirar e entregar ao agressor como se fosse um relógio, carteira ou celular para tentar sair ileso ou ao menos vivo.

  9. Tá meio confuso isso tudo, se a igreja fazia estas cerimônias porque a homossexualidade não tinha conotação pecaminosa no Império Romano de onde era a igreja inicial, por outro lado não havia casamento gay no Império Romano, havia homossexualidade normalmente, como um lazer, mas mesmo assim o passivo da relação era discriminado, geralmente coisa declarada aos efebos no máximo.