7 erros de pais e mães que impedem que as crianças se transformem em líderes

Por , em 29.01.2014

Em um artigo para a revista Forbes, a especialista em carreiras Kathy Caprino uniu sua experiência como escritora e instrutora de liderança com seu passado de terapeuta familiar para falar sobre comportamentos parentais funcionais e disfuncionais. De acordo com ela, mesmo toda a sabedoria e amor do mundo não necessariamente protegem as pessoas, como pais, de criar seus filhos de forma que eles não sejam tão prósperos e independentes e se tornem os líderes que têm o potencial de ser.

Kathy conversou com o especialista em liderança Tim Elmore para saber mais sobre como os pais estão falhando com as crianças de hoje – mimando e paralisando-os. Elmore é um autor best-seller com mais de 25 livros, incluindo “Generation iY: Our Last Chance to Save Their Future”, “Artificial Maturity: Helping Kids Meet the Challenges of Becoming Authentic Adults” (sem edições em português), e da série “Habitudes: Imagens que formam hábitos e atitudes de liderança”. Ele é fundador e presidente da Growing Leaders, uma organização dedicada à tutoria de jovens.

O autor falou a respeito de 7 comportamentos parentais prejudiciais que impedem as crianças de se tornarem líderes – de suas próprias vidas e de empresas de todo o mundo:

1. Não deixamos nossos filhos experimentarem o risco

Vivemos em um mundo que nos adverte do perigo a cada curva. A preocupação com a “segurança em primeiro lugar” reforça o nosso medo de perder nossos filhos, então nós fazemos tudo que podemos para protegê-los. Esse é o nosso trabalho, afinal de contas, mas acabamos os isolando de comportamentos de risco saudáveis – e isso tem um efeito adverso.

Na Europa, psicólogos descobriram que, se uma criança não brinca fora de casa e nunca é autorizada a experimentar um joelho esfolado, ela frequentemente têm fobias quando adulta. As crianças precisam cair algumas vezes para aprender que é normal; adolescentes provavelmente precisam romper com um namorado ou namorada para apreciar a maturidade emocional que relacionamentos duradouros necessitam. Se os pais removem o risco da vida das crianças, provavelmente nossos líderes em crescimento apresentarão alta arrogância e baixa autoestima.

2. Nós os resgatamos muito rapidamente

A geração de jovens de hoje não desenvolveu algumas das habilidades de vida que as crianças de 30 anos atrás tinham porque os adultos se intrometem e cuidam dos problemas para eles. Quando os resgatamos muito rapidamente e sufocamos nossos filhos com “ajuda”, isto elimina a necessidade de eles atravessarem dificuldades e resolverem os problemas por conta própria.

É paternalidade de curto prazo e passa longe do objetivo de liderança – equipar nossos jovens a alcançar feitos sem ajuda. Cedo ou tarde, as crianças se acostumam com alguém vindo sempre ao seu resgate, quando, na realidade, isso não é nem remotamente perto de como o mundo funciona, e, portanto, as desabilita para se tornarem adultos competentes.

3. Nós nos empolgamos com muita facilidade

O movimento da autoestima deu as caras nos anos 1950, mas criou raízes em nossos sistemas escolares nos anos 1980. É só assistir a um campeonato de futebol infantil para ver que todo mundo é um vencedor. Esta mentalidade de “todo mundo ganha um troféu” pode até fazer com que as crianças se sintam especiais, mas pesquisas têm indicado que este método tem consequências não intencionais.

As crianças eventualmente observam que a mãe e o pai são os únicos que pensam que eles são incríveis quando ninguém mais está dizendo isso. Eles começam a duvidar da objetividade de seus pais; aquilo dá uma sensação boa no momento, mas que não está conectada com a realidade. Quando os pais elogiam muito facilmente e ignoram o mau comportamento, os filhos, eventualmente, aprendem a enganar, mentir e exagerar para evitar a realidade difícil. Eles não foram condicionados a enfrentá-la.

4. Deixamos culpa atrapalhar nosso julgamento

Seu filho não tem que te amar a cada minuto. Seus filhos vão superar a decepção, entretanto não vão superar os efeitos de serem mimados. Então, diga “não” ou “não agora”, e deixe-os lutar por aquilo que eles realmente valorizam e necessitam. Como pais, temos a tendência de dar aos filhos o que eles querem, principalmente quando temos mais de um. Quando alguém vai bem em alguma coisa, nós sentimos que é injusto elogiar e recompensar um e não o outro. Isso é surreal e uma oportunidade perdida de fazer valer o ponto para os nossos filhos que o sucesso depende de nossas próprias atitudes e boas ações. Tenha cuidado para não lhes ensinar que uma boa nota é recompensada por uma ida ao shopping. Se o seu relacionamento é baseado em recompensas materiais, as crianças não vão experimentar nem a motivação intrínseca, nem o amor incondicional.

5. Nós não compartilhamos nossos erros do passado

Adolescentes saudáveis ​​vão querer abrir as asas e precisam tentar coisas por conta própria. Nós, como adultos, devemos deixá-los, contudo isso não significa que não podemos ajudá-los a navegar por essas águas. Compartilhe os erros relevantes que você cometeu quando tinha a idade deles, de forma que os ajude a aprender a fazer boas escolhas (evite “lições aprendidas” negativas que têm a ver com o tabagismo, álcool, drogas ilegais, etc).

Além disso, as crianças devem se preparar para encontrar deslizes e enfrentar as consequências de suas decisões. Conte a eles como você se sentiu quando enfrentou uma experiência semelhante, o que motivou suas ações e as lições aprendidas com tal situação. Como não somos a única influência sobre nossos filhos, devemos ser a melhor delas.

6. Confundimos inteligência, talento e influência com maturidade

Inteligência é frequentemente utilizada como uma medida de maturidade de uma criança, e como resultado, os pais assumem que uma criança inteligente está pronta para o mundo. Esse não é o caso. Alguns atletas profissionais e estrelas de Hollywood, por exemplo, possuem talento inimaginável, mas ainda são pegos em um escândalo público.

Só porque a superdotação está presente em um aspecto da vida de uma criança, não assuma que ela permeie todas as áreas. Não há uma “idade de responsabilidade” mágica ou um guia comprovado a respeito de quando uma criança deve ter liberdades específicas, mas uma boa regra de ouro é observar outras crianças da mesma idade que a sua. Se você perceber que elas estão fazendo mais do que o seu filho faz, você pode estar atrasando a independência dele.

7. Faça o que eu digo e não o que eu faço

Como pais, é nossa responsabilidade modelar a vida que queremos que nossos filhos vivam. Como os líderes de nossas casas, podemos começar apenas dizendo palavras honestas – mesmo mentirinhas virão à tona e lentamente irão corroer seu caráter. Observe a si mesmo nas pequenas escolhas éticas que outros possam perceber, porque seus filhos vão notar também. Se você não der “um jeitinho”, por exemplo, eles vão saber que não é aceitável que eles tenham o mesmo comportamento. Mostre a seus filhos o que significa se doar abnegadamente e com alegria a um projeto voluntário ou a um grupo comunitário. Deixe pessoas e lugares melhores do que você os encontrou, e seus filhos vão notar e fazer o mesmo.

Esses sete comportamentos citados, e outros, podem vir de uma vontade dos pais de compensar algo que a geração anterior fez. “Os adultos primários na vida das crianças hoje têm se centrado no agora ao invés de pensar no que vem depois. É sobre a sua felicidade hoje, não a sua prontidão amanhã”.

“Eu suspeito que é uma reação”, continua o estudioso. “Muitos pais de hoje tiveram pais e mães que pensavam apenas em como se preparar para o amanhã: poupar dinheiro, não gastá-lo, e se preparar para a aposentadoria. Em resposta, muitos compraram a mensagem de ‘abraçar o momento'”. E assim o fizeram.

Tendo isto em vista, fica a questão de como os pais podem se afastar destes comportamentos negativos – sem ter que contratar um terapeuta familiar para ajudar. O especialista também tem a resposta. “É importante que os pais tornem-se extremamente autoconscientes de suas palavras e ações ao interagir com seus filhos, ou com os outros quando os seus filhos estão nas proximidades. Eles devem se importar o suficiente para treiná-los, e não apenas dar a eles uma vida boa. Orientá-los, mais do que dar carinho”.

Abaixo estão dez itens que podem ajudar a evitar os comportamentos negativos listados por Elmore e Kathy:

  1. Fale sobre os problemas que você desejaria ter conhecido a respeito da vida adulta.
  2. Permita-lhes tentar coisas e até mesmo os deixe falhar.
  3. Discuta as consequências futuras se eles não conseguirem dominar certas exigências.
  4. Ajude-os a combinar suas forças para enfrentar os problemas do mundo real.
  5. Forneça projetos que requerem paciência, para que eles aprendam a adiar a gratificação.
  6. Ensine-os que a vida é feita de escolhas e trocas, pois eles não podem fazer tudo.
  7. Inicie (ou simule) tarefas de adultos como pagar contas ou fazer negócios.
  8. Apresente-os a potenciais mentores de sua rede de contatos.
  9. Ajude-os a vislumbrar um futuro gratificante e, em seguida, discuta os passos para chegar lá.
  10. Celebre o progresso que eles fazem em direção à autonomia e à responsabilidade. [Forbes]

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9 comentários

  • Eneida Melo:

    Gostei bastante do texto. Só não usaria o termo líder, porque acho que isso depende muito da personalidade intrínseca da criança.

    Mas, de fato, esses comportamentos prejudicam o processo natural de amadurecimento das crianças. Devemos observar atentamente as crianças sob nossos cuidados, e verificar quando é que a criança realmente precisa de ajuda ou não, e de que tipo. Muitas vezes basta um “Eu já vi você fazer isso antes, você sabe fazer, então vai lá. Eu confio na sua capacidade.”

  • Robert Oliveira:

    Ótimo texto.
    Me identifiquei em muitas situações.
    Matheus, também vejo graves consequências em minha vida devido ao fato de meus pais estarem bitolados aos ensinamento religiosos e não perceberem a forma com que eu crescia e interpretava-os.
    Bruno, gostei muito da interpretação sobre o que significa “oferecer a outra face”, porém a sua análise do comentário ficou meio destorcida, principalmente no comentário que vc fez no Facebook. Não acredito que a mãe tenha tido tanta sabedoria no ensinamento, pois hoje o filho lamenta ter interpretado de forma errada. Um pai quando utiliza de metáforas como forma de aprendizado deve estar muito atento a interpretação do filho, e ela não estava.
    Ele também não reclama da mãe ser evangélica, ele enfatiza o comentário utilizado o termo, pois quer deixar claro que ela deveria estar apta e ter conhecimento do que estava transmitindo.
    Vc diz que sente pena por ele não ter aprendido, infelizmente, mas podemos perceber que ele admite que interpretou de forma errada e vê a necessidade de mudança, e isso é muito admirável, não é mesmo?

  • pmahrs:

    “Como pais, é nossa responsabilidade modelar a vida que queremos que nossos filhos vivam.” O autor original deve estar brincando.

    Existem pessoas bem sucedidas e fracassadas com vários tipos de educação além de líderes para qualquer coisa que se imaginar tanto para coisas importantes que lhe traga sucesso, quanto para coisas fúteis que não levam a nada ou até o prejudique além de para crimes ou procedimentos não éticos e imposições a força. Infelizmente não existe uma fórmula e as variantes intrapessoais são muitas fora as interpessoais num mundo globalizado com informação na velocidade da luz. Há muitas pessoas para ajudar e dar bons exemplos, mas também há alienadores e outros com interesses próprios, não só nas ruas como na internet escola e até igrejas. Fazer tudo certinho teríamos que ser um computador frio, programado e sem emoções e discernimento próprio, mesmo assim seria desafiar a teoria do caos. Nem filhos de psicólogos ou psiquiatras tem estas garantias e nem todos tem que ser grandes líderes bem sucedidos para serem felizes. Óbvio que se deve evitar mentiras, “”eu por exemplo, nunca menti na minha vida”” Rs!!! Atire a primeira pedra, mas não vamos confundir mentiras provida de mal intenção com cultura, crença, costumes da época ou formas lúdicas de apresentar o mundo para criança que ainda não tem a mente desenvolvida para entender certas coisas. Mentiras as vezes têm boas intenções; nossos pais não tiveram o conhecimento e acesso a informação que temos hoje inclusive coisas pesquisadas e descobertas só recentemente, provavelmente cometeríamos os mesmos “erros” que somos capazes de apontar só de 5 anos para cá. Só quando ter filhos vamos ver que não vem com manual. Vamos querer ter filhos perfeitos? Queríamos ter pais perfeitos? É hora de inocentar nossos pais e perdoá-los; também a coisas que ainda não sabemos apesar de todo estudo e tecnologia.

  • Matheus Miranda de Assis:

    É uma ótima matéria. Eu vejo a consequência desse tipo de comportamento hoje em mim. Um dos meus maiores defeitos é enfrentar as coisas e as pessoas. Minha mãe que é evangélica sempre dizia sobre uma passagem que Jesus dizia em oferecer a outra face. Claro que é uma metáfora. Mas isso me tornou fraco, infelizmente, umas das coisas que mais preciso mudar. Depois que cresce vem as consequências…

    • Bruno Macedo da Silva:

      Caro Matheus, entendo que você não entendeu o verdadeiro sentido da expressão. Dar a outra face significa conter sua raiva. Também pode significar para alguns conter a boca e os instintos. Não quer dizer ser fraco ou vulnerável, mas sim forte, visto que é mais fácil rebater a uma ofensa do que suportá-la. Aceitar o jugo ou fardo nos diferencia dos demais. Submeter-se as situações nos ensina auto-domínio e força de vontade. Por fim, a resposta a humilhações sempre vem e surpreende àqueles que só fazem reclamar. Espero ter esclarecido o que sua mãe tão sabiamente tentou te ensinar.

    • Matheus Miranda de Assis:

      Acho que talvez você não tenha entendido a minha frustração. Hoje eu entendo perfeitamente a passagem e o que ela significa. Entendo sua colocação também de sabermos lidar com o fracasso e com críticas porque isso nos tornam pessoas mais maduras. Mas a questão que eu quis relatar foi ela sempre me deixar como conselho a minha falta de reação as adversidades da vida, à humilhações sofridas quase que a minha vida inteira no colégio. Talvez se eu tivesse sido mais duro, soubesse me defender e não simplesmente abaixar a cabeça e esperar que a vida dê uma lição á essas pessoas. Você já deve ter ouvido falar em bullying? Pois é, sofri isso, e muito e a única coisa que me ensinavam era abaixar a cabeça. A vida pode até ‘dar’ uma lição nessas pessoas, mas as vítimas nem sempre dão a volta por cima. O mundo é selvagem e sem piedade, e precisamos saber lidar com ele.

      E como você disse em sua postagem no facebook eu não reclamo pela minha mãe ser evangélica, muito pelo contrário, aprendi muito mais coisas boas do que coisas ruins, isso que relatei foi apenas um detalhe.

  • Rubens Campos Pimentel Pimentel:

    …….tudo isso tem que ser de forma natural e alegre, buscando o entendimento da criança ou adolescente ao mesmo tempo que, sem invasão, procuremos participar do ” mundo” deles. Ótimo artigo, parabéns !

  • Daum Comm:

    Excelente matéria! Com toda certeza deste mundo vou aplicar este conhecimento como pai e educador aos meus filhos quando os tiver. E assim fazer a sociedade que elegi para viver ser ainda melhor, pois aqui na Coreia do Sul os pais investem muito nos filhos, não apenas dinheiro mas suas próprias vidas e conhecimentos adquiridos ao longo dela.

  • Kleber Rebouças:

    Muito bom, Jéssica!

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