Devastação gigante da Amazônia é guiada pela demanda global de carne

Por , em 3.07.2019

Segundo uma investigação conduzida pela organização não governamental TRASE, uma alta demanda global por carne bovina tem acelerado o desflorestamento da Amazônia brasileira.

A extensão da destruição está diretamente ligada a grandes corporações alimentícias. Até 5.800 km² de floresta estão sendo devastados anualmente para serem convertidos em pasto para gado, mais tarde levado a abatedouros para suprir mercados globais.

Companhias como a infame JBS são potencialmente responsáveis pela devastação de 28.000 a 32.000 hectares (280 a 320 km²) de floresta por ano para exportação de carne. Enquanto a própria empresa aponta que seu gado é muito bem monitorado e não provem de áreas ilegais de pastagem, a JBS compra gado de muitas outras companhias que estariam atuando em regiões embargadas e protegidas ambientalmente.

De acordo com o principal pesquisador da TRASE, Erasmus zu Ermgassen, nenhum abatedouro monitora seus fornecedores indiretos. “Há um enorme potencial para usar a terra de forma mais eficiente e sustentável no setor de carne bovina brasileiro, e para melhorar a subsistência rural, investindo na pecuária em pastagens existentes”, disse.

Um campo de futebol por minuto

Segundo a BBC, imagens de satélite mostram um aumento substancial de desflorestamento na primeira metade deste ano na Amazônia, desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o cargo.

A análise mais recente aponta que, principalmente nos últimos dois meses, a devastação da floresta tem aumentado: um hectare ou campo de futebol por minuto.

Um funcionário do governo brasileiro, falando anonimamente, disse à BBC que o governo estava encorajando o desmatamento. Bolsonaro já falou várias vezes a favor do desenvolvimento versus conservação ambiental, chamando o Ibama de “indústria de multas”. A BBC esclareceu que o funcionário foi entrevistado em segredo e seu rosto e voz precisaram ser disfarçados, porque Bolsonaro proibiu sua equipe ambiental de falar com a mídia.

Por conta do volume de carne que é vendido à China e Hong Kong, esses mercados podem ser associados com a maior parte da destruição amazônica no total: cerca de 16.000 a 22.500 hectares por ano. A União Europeia também importa mais de US$ 600 milhões de carne bovina do Brasil por ano, número que pode aumentar se nações europeias e sul-americanas firmarem um acordo para permitir que 99.000 toneladas de carne sejam gradualmente exportadas para a Europa a tarifas mais baixas.

A BBC informou que todos os pedidos para entrevista com os ministros brasileiros do Meio Ambiente e Agricultura foram recusados. Além disso, no início do ano, Bolsonaro teria convidado o presidente americano Donald Trump para ser um parceiro na exploração dos recursos amazônicos.

Fazendas em regiões embargadas

Uma investigação liderada em parte pelo jornal inglês The Guardian descobriu que uma enorme fazenda de 145.000 hectares, de propriedade da companhia AgroSB Agropecuária SA (conhecida na região como Santa Bárbara), está localizada em uma área protegida ambientalmente, embargada desde 2010. Embargos são conferidos por violações ambientais, por exemplo, quando fazendeiros cortam árvores ilegalmente. O Ibama já multou a AgroSB em mais de US$ 18 milhões pelo desmatamento na fazenda, chamada Lagoa do Triunfo.

A AgroSB, que também tem várias outras fazendas, é uma das fornecedoras de gado à JBS, por sua vez a maior empresa fornecedora de carne bovina, frango e couro no mundo. Atualmente, a JBS exporta para mais de 150 países. Durante 2018, somente a Lagoa do Triunfo enviou centenas de cabeça de gado para abatedouros da JBS.

O The Guardian afirmou que a AgroSB faz parte de um poderoso império agrícola que possui meio milhão de hectares em todo o Pará e pertence ao grupo Opportunity, cofundado pelo “bad boy das finanças” Daniel Dantas. Ao longo da última década, a empresa foi acusada de desmatamento ilegal, empregar trabalho escravo e uso abusivo de pesticidas. Em um e-mail para o jornal, um porta-voz da empresa disse que a “AgroSB não realiza o desmatamento para aumentar sua área, mas recupera áreas degradadas. Isso traz progresso social e ambiental para todos, porque na mesma área é possível produzir mais, sem desmatamento”.

A JBS também não passa longe de escândalos. Em 2017, após uma investigação do Ibama, a empresa foi multada em US$ 7,7 milhões pela compra de gado de fazendas com áreas embargadas. No mesmo ano, o CEO Joesley Batista abriu a boca sobre uma extensa rede de suborno e acusou o então presidente Michel Temer de endossá-la. Temer chegou a ser indiciado, mas negou as acusações e nunca foi a julgamento.

O outro lado da moeda

Os fazendeiros da região parecem estar de acordo com as declarações da AgroSB e de Bolsonaro.

“Como você vai trabalhar se não conseguir desmatar uma área, principalmente uma pequena?”, disse Arlindo Rosa ao The Guardian, atual presidente do sindicato dos produtores rurais de São Félix do Xingu, no Pará, uma das últimas cidades na fronteira com a floresta amazônica protegida.

Vanderley Wegner, do sindicato de produtores rurais da cidade de Santarém, por sua vez, criticou “outros países”, como os EUA e nações da Europa, que desmataram suas florestas para a agricultura e agora não querem que o Brasil faça o mesmo.

“Temos que desenvolver a Amazônia. Mais de quatro milhões de pessoas vivem aqui e precisam de desenvolvimento também, é um direito constitucional de todo cidadão brasileiro”, afirmou à BBC. [TheGuardian, BBC]

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