A falácia do argumento “E ficou tudo bem”

Por , em 4.12.2018

Você apanhou de criança e ficou tudo bem? Isso não significa que bater no seu filho seja uma boa estratégia de criação.

De acordo com Justin Coulson, especialista em criação de filhos e autor do best seller australiano “10 Things Every Parent Needs to Know”, o argumento “e não tive problemas” é popular para justificar uma ação punitiva física, bem como outras atitudes polêmicas. Significa que, com base em nossa experiência pessoal, sabemos o que funciona e o que não funciona para todas as pessoas.

Entende o erro da frase? Tal opinião é o que é conhecido como uma falácia anedótica.

Experiência pessoal x evidência científica

Com evidências de mais de cinco décadas de estudos envolvendo mais de 160.000 crianças destacando a ineficácia da surra e os perigos que a disciplina física representa, Coulson achou que as recomendações de pediatras contra esse ato seriam apoiadas pela população.

No entanto, durante um programa de televisão australiano, descobriu que os pais são contra uma proibição legal da surra – que aliás já existe em alguns países, como o Brasil.

O motivo era geralmente o seguinte: “Eu apanhei quando criança e fiquei bem”.

Existem inúmeras maneiras de ouvir esta frase. “Eu nunca usei cinto de segurança e isso nunca me machucou”; “Minha avó fumou desde 12 anos e morreu aos 90 anos” e etc. A falácia do “e não deu nada” é bem popular.

Em termos simples, se uma pessoa não foi afetada negativamente (até onde sabe) por alguma coisa, então acredita que ela deva ser inofensiva para todos. Mas só porque você não foi vacinado e não morreu de uma doença evitável, não significa que o mesmo vá ocorrer para todo mundo. Pelo contrário, você pode ter sido uma exceção.

Visão arrogante

Quando utilizamos esse tipo de argumento, estamos contando com um tamanho de amostra muito pequeno, geralmente de uma pessoa – nós mesmos, ou alguém que conhecemos. E estamos aplicando esse resultado para todos.

O fenômeno é conhecido como “heurística de disponibilidade”. Relacionado com a falácia anedótica, é quando extraímos informações que estão imediatamente disponíveis ao fazermos uma avaliação. Neste caso, a informação autobiográfica é facilmente acessível – já está na sua cabeça.

Nós apanhamos quando crianças e acabamos bem, então pensamos que bater não machuca ninguém. Mas estudos mostram que a heurística da disponibilidade é um viés cognitivo que pode nos impedir de tomar decisões precisas, utilizando todas as informações disponíveis. Isso nos cega para nossos próprios preconceitos.

Em outras palavras, dizer “deu tudo certo comigo” é uma rejeição arrogante de uma visão alternativa baseada em evidências. Não requer perspectiva nem envolvimento com uma visão alternativa. A declaração fecha o discurso e promove um “cegamento” a alternativas que podem ser mais esclarecidas.

A evidência anedótica frequentemente mina os resultados científicos, em nosso detrimento.

Mude de postura

Coulson defende que a sociedade se beneficiaria de abandonar a tal falácia do “comigo deu tudo certo”, uma vez que ela leva a atitudes arraigadas e equivocadas. Talvez a incapacidade de se envolver com pontos de vista que vão contra os nossos sugere que não nos saímos tão “bem” assim na vida.

Aliás, onde está o limite para o que constitui “acabar tudo bem”? Se significa que não fomos presos, podemos estar exigindo muito pouco. Empregado e com uma família? Ainda é um padrão bastante básico. É tão razoável dizer “terminou tudo bem por causa disso” quanto dizer “terminou tudo bem apesar disso”.

É verdade que nem toda criança que foi espancada se sairá mal na vida. Também é verdade que algumas crianças que nunca foram espancadas não ficarão bem. No entanto, pesquisas científicas mostram claramente que a probabilidade de resultados negativos aumenta quando você é espancado quando criança.

Afirmar que espancar uma criança é bom significa que somos vítimas de anedotas, confiamos em nossa heurística de disponibilidade, descartamos todos os dados mais amplos em contrário, rejeitamos visões alternativas e falhamos em aprender.

Se esperamos que nossos filhos adotem o aprendizado e progridam em seu pensamento à medida que envelhecem, eles merecem o mesmo de nós. [NYTimes]

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