Autismo pode ser um trunfo no local de trabalho

Por , em 9.06.2016
Gerald Franklin

Gerald Franklin

Conforme a população de pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro do autismo continua a crescer, o mesmo acontece com o número de pessoas com esse diagnóstico que não estão encontrando emprego. Embora muitos jovens adultos no espectro sejam considerados altamente funcionais, uma pesquisa recente mostra que 40% deles não encontram trabalho nos Estados Unidos – uma taxa de desemprego mais elevada do que entre as pessoas com outras deficiências de desenvolvimento.

A pesquisadora Anne Roux, do Instituto de Autismo A. J. Drexel, na Filadélfia, EUA, estuda jovens adultos com autismo e foi a principal autora do estudo. “Quando soubemos disso no ano passado – que cerca de 40% das pessoas nunca encontravam emprego ou continuavam a sua educação – nos perguntamos: ‘Por que isso acontece e o que acontece com eles?'”. As informações são do site NPR.

Os jovens no espectro – assim como outros – estão ansiosos para viver de forma independente e trabalhar, conforme ela e sua equipe descobriram quando analisaram as informações mais profundamente. Porém, os serviços sociais destinados a ajudar as crianças a superar déficits precoces na comunicação e problemas com habilidades sociais se tornam menos disponíveis à medida que eles ficam mais velhos.

“Uma vez que você vira adulto, esses recursos despencam”, afirma Leslie Long, vice-presidente de serviços para adultos para o grupo de advocacia Autism Speaks.

Mercado de trabalho

Estima-se que 50 mil pessoas no espectro entram na idade adulta a cada ano. Entrevistas de trabalho podem ser um desafio para muitas delas e algumas se envolvem em comportamentos repetitivos, o que pode parecer estranho para os não iniciados. Mas essas idiossincrasias às vezes mascaram talentos escondidos, diz Long – como foco intenso ou uma facilidade com números e padrões.

“Quero dizer, veja o que aconteceu com a bolha da habitação e o mercado financeiro”, aponta. “Foi um homem no espectro que viu que as hipotecas iriam cair. E eu não acho que isso é algo que uma pessoa média teria sido capaz de fazer”.

Esse caso particular – de Michael Burry, o médico e gerente de fundos de cobertura retratado no livro e no filme “A Grande Aposta” – é excepcional de muitas maneiras, ela admite. (Burry tem um filho com síndrome de Asperger e disse que acredita que ele também se encaixa no diagnóstico.)

Ainda assim, conforme a geração dos baby boomers começa a se aposentar, e com talentos cada vez mais escassos, empresas variadas, como a Microsoft, a gigante de supermercados Walgreens e a P&G, estão começando a recrutar ativamente as pessoas que têm transtorno do espectro do autismo. Eles ainda não estão colocando muito mais pessoas para trabalhar, mas os seus programas de recrutamento e treinamento estão se tornando modelos para outras empresas.

Alta produtividade

Tomemos, por exemplo, o centro de apoio do Bank of America em Dallas, que imprime, checa e classifica pilhas e pilhas de papelada sobre os clientes dos bancos. O trabalho envolve, como gerente de Duke Roberson diz, “um monte de burocracia”.

Todos os 75 membros da equipe de Roberson tem algum tipo de deficiência. Segundo ele, seus trabalhadores com autismo de alto funcionamento tendem a ser ótimos em encontrar erros e gostam da repetição. Estes trabalhadores acham reconfortantes tarefas metódicas que outros podem achar monótonas. “[Um deles] tem que sentar no mesmo lugar todos os dias ou aquilo meio que o deixa chateado o dia inteiro”, conta Roberson.

A rotatividade dentro da equipe de Roberson é incrivelmente baixa e o desempenho, a rentabilidade e a moral são boas. “Isso tudo não é nenhuma caridade”, garante.

Comunicação é a chave

A empresa Specialisterne USA ajuda pessoas com autismo a encontrar trabalho como consultores em tecnologia da informação e outros setores com tarefas e empregos de orientação técnica. O diretor executivo da companhia, Mark Grein, acredita que o acolhimento de um trabalhador com autismo muitas vezes é tão simples quanto ajustar a iluminação para evitar a superestimulação ou permitir pausas frequentes.

“Nossa recomendação é apenas ter uma comunicação clara em termos de expectativas”, afirma Grein, sobre seus conselhos para empresas. “Seja capaz de fazer regras”. De acordo com ele, também ajuda treinar os colegas de trabalho de antemão e providenciar um mentor que possa ajudar o trabalhador com autismo a se adaptar ao local de trabalho.

Grein diz ter alocado com sucesso centenas de trabalhadores e espera, eventualmente, atingir uma meta de 250 mil pessoas.

Busca por emprego

Conseguir ultrapassar os obstáculos de uma busca de trabalho convencional, no entanto, pode ser difícil. No ano passado, a Autism Speaks lançou o portal thespectrumcareers.com, um site para reunir os trabalhadores que têm autismo com potenciais empregadores.

Gerald Franklin, de 24 anos, é o principal desenvolvedor do site. Entre outros auxílios, o site permite que candidatos a emprego postem vídeos. “O vídeo desempenha um grande papel em ajudar as pessoas com necessidades especiais a mostrar o que podem fazer”, explica Franklin.

Ele foi diagnosticado com autismo aos 4 anos e diz que tem desenvolvido soluções alternativas ao longo dos anos para se comunicar com sua equipe sem longas explicações. “Eu tentava explicar algo realmente legal ou interessante para alguém, mas eles não entendiam”, diz. “Então, [uma técnica] seria fazer muitos desenhos, muitas notas – e o membros da minha equipe são extremamente apreciativos”.

Franklin vê seu autismo como uma vantagem. Segundo ele, o autismo lhe dá uma visão para criar ferramentas que podem ajudar os outros. [NPR]

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2 comentários

  • Edgardo Prado:

    o trunfo é a diversidade das equipes
    😉
    só os robôs pensam sempre do mesmo jeito
    😎

  • Ivanna Fabiani:

    Tenho um filho dentro desse quadro, e ele e muito capaz, e ainda mais de enxergar soluções por ângulos que outros não veem. E genial!

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