Método de edição de DNA pode aumentar inteligência e beleza

Por , em 23.03.2015
Jennifer A. Doudna

Jennifer A. Doudna

Um grupo de biólogos pediu recentemente uma moratória mundial para pausar a utilização de uma nova técnica de edição de genoma que alteraria o DNA humano de uma forma que pode ser herdada.

Os biólogos temem que a nova técnica seja tão eficaz e fácil de usar que alguns médicos abusarão dela antes de sua segurança poder ser avaliada. Eles também querem que o público compreenda as questões éticas que envolvem a técnica, que poderia ser usada para curar doenças genéticas, mas também para melhorar qualidades como beleza ou inteligência. Este último é um caminho que muitos especialistas em ética acreditam que nunca deve ser tomado.

“Você poderia exercer o controle sobre a hereditariedade humana com esta técnica, e é por isso que estamos levantando a questão”, explica David Baltimore, ex-presidente do Instituto de Tecnologia da Califórnia e membro do grupo que está pedindo a moratória.

Mudanças hereditárias no DNA

Eticistas, por décadas, têm se preocupado com os perigos de alteração da linha germinal humana – ou seja, alterações de esperma humano, ovários ou embriões que vão durar durante toda a vida do indivíduo e ser transmitidos às gerações futuras. Até agora, estas preocupações foram teóricas. Mas uma técnica inventada em 2012 faz com que seja possível modificar o genoma de forma precisa e com muito mais facilidade. A técnica já foi usada para editar os genomas de camundongos, ratos e macacos, e poucos duvidam que iria funcionar da mesma forma nas pessoas.

A técnica tem o poder para reparar ou melhorar qualquer gene humano. “Isso levanta a mais fundamental das questões sobre como nós vamos ver a nossa humanidade no futuro e se vamos dar o passo dramático de modificar nossa própria linha germinal e em um sentido assumir o controle de nosso destino genético, o que suscita enorme perigo para a humanidade”, alerta George Q. Daley, especialista em células-tronco do Hospital Infantil de Boston.

Os biólogos apoiam a continuidade das pesquisas de laboratório com a técnica, e poucos – talvez nenhum – acreditam que ela está pronta para uso clínico. Tal uso é fortemente regulado nos Estados Unidos e na Europa. Cientistas norte-americanos, por exemplo, teriam que apresentar um plano para tratar doenças genéticas na linha germinal humana.

Os autores do artigo, no entanto, estão preocupados com países que têm menos regulamentação na ciência. Eles pedem que “os cientistas evitem até mesmo a tentativa, em jurisdições mais flexíveis, de modificação do genoma da linha germinal para aplicação clínica em seres humanos”, até que todas as suas implicações “sejam discutidas entre as organizações científicas e governamentais”.

Embora tal moratória não seja juridicamente vinculativa e pareça improvável de exercer influência global, há um precedente. Em 1975, cientistas do mundo todo foram convidados a se abster de utilizar um método para manipular genes, a técnica de DNA recombinante, até que as regras fossem estabelecidas.

“Pedimos então que ninguém fizesse certas experiências, e de fato ninguém fez, que eu saiba”, diz Baltimore, que era membro do grupo de 1975.

Precisão é a chave

DNA recombinante foi o primeiro de uma série de passos cada vez melhores para a manipulação de material genético. O principal problema é o da precisão, de editar o DNA precisamente no local pretendido, uma vez que qualquer alteração fora do alvo pode ser letal. Dois métodos recentes, conhecidos como dedos de zinco e efetores TAL, chegaram perto da meta de edição precisa do genoma, mas ambos são difíceis de usar. A nova abordagem foi inventada por Jennifer A. Doudna da Universidade da Califórnia e Emmanuelle Charpentier, da Universidade de Umea, na Suécia.

O método, conhecido pela sigla CRISPR-Cas9, coopta o sistema imunológico natural, fazendo com que as bactérias se lembrem do DNA dos vírus que as atacam para que estejam prontas na próxima vez que esses mesmos invasores aparecerem. Os pesquisadores podem simplesmente preparar o sistema de defesa com uma sequência de sua escolha e, em seguida, ela vai destruir a sequência de DNA correspondente em qualquer genoma que seja apresentado. Doudna é a principal autora do artigo que pede o controle da técnica e organizou a reunião em que a declaração foi desenvolvida.

Embora altamente eficaz, a técnica ocasionalmente corta o genoma em locais não pretendidos. A questão de quanto erro poderia ser tolerado em um ambiente clínico é aquele que o grupo de Doudna quer ver exaustivamente explorada antes de qualquer genoma humano ser editado.

Os cientistas também dizem que a substituição de um gene defeituoso por um normal pode parecer totalmente inofensivo, mas talvez não seja.

Muitos especialistas em ética aceitam a ideia de terapia genética se as alterações morrem com o paciente, mas traçam uma linha clara em alterar a linha germinal, uma vez que esta se estende para as gerações futuras.

Pragmatismo x alteração da natureza

Existem duas grandes escolas de pensamento sobre como modificar a linha germinal humana, afirma R. Alta Charo, bioeticista da Universidade de Wisconsin e membro do grupo de Doudna. Uma é pragmática e busca equilibrar benefícios e riscos. A outra “estabelece limites inerentes sobre quanto a humanidade deve alterar a natureza”, diz ela. Algumas doutrinas cristãs se opõem à ideia de brincar de Deus, ao passo que no Judaísmo e no Islã existe a noção “de que a humanidade deve melhorar o mundo”.

Outros cientistas concordam com a mensagem do grupo de Doudna. “É muito claro que as pessoas vão tentar fazer a edição genética em humanos”, supõe Rudolf Jaenisch, biólogo de células-tronco no Instituto Whitehead, em Cambridge. “Este documento apela para uma moratória sobre qualquer aplicação clínica, o que eu acredito que é a coisa certa a se fazer”.

Edward Lanphier e outros cientistas envolvidos no desenvolvimento da técnica do dedo de zinco, rival da edição do genoma, também pediram uma moratória sobre a modificação da linha germinal humana, dizendo que o uso de tecnologias atuais seria “perigoso e eticamente inaceitável”. A Sociedade Internacional de Pesquisa em Células Tronco também apoia a moratória proposta.

O grupo também ainda trabalha para desenvolver algum processo mais formal, como uma reunião internacional organizada pela Academia Americana de Ciências, para estabelecer diretrizes para o uso humano da técnica de edição do genoma. “Precisamos de um acordo se queremos melhorar a humanidade dessa forma ou não”, afirma Jaenisch. “Você tem que ter essa discussão porque as pessoas estão se preparando para fazer isso”. [NY Times]

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1 comentário

  • Daniel Champoski:

    Quem sabe futuramente não teremos um “Bertrand Zobrist” real…

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