Antártida: veja o que aconteceria se queimássemos todos os combustíveis fósseis

Por , em 21.09.2015

Um novo trabalho de uma equipe internacional de cientistas demonstra que os recursos restantes de combustíveis fósseis do planeta seriam suficientes para derreter quase toda a Antártida se forem queimados, levando a um aumento de 50 ou 60 metros no nível do mar. Isso representaria colocar muitas áreas altamente povoadas do planeta, onde mais de um bilhão de pessoas vivem, debaixo da água.

“Nossos resultados mostram que, se não queremos que a Antártida derreta, não podemos continuar a retirar o carbono dos combustíveis fósseis do solo e apenas jogá-lo na atmosfera como CO2, como temos feito”, afirma Ken Caldeira, do departamento de Ecologia Global da Universidade de Sanford, nos EUA. “A maioria dos estudos anteriores sobre a Antártida centraram-se na perda da Camada de Gelo da Antártida Ocidental. Nosso estudo demonstra que a queima de carvão, petróleo e gás também traz o risco de perda da Camada de Gelo do Leste, que é muito maior”.

Um conjunto complexo de fatores irá determinar o futuro da camada de gelo – que já está diminuindo -, incluindo o efeito estufa causado pelos gases na atmosfera, o aquecimento oceânico adicional perpetuado pelo aquecimento da atmosfera, e os possíveis efeitos contraditórios de neve adicional.

“É muito mais fácil prever que um cubo de gelo em uma sala aquecida vai derreter, eventualmente, do que dizer precisamente o quão rápido ele vai desaparecer”, compara Ricarda Winkelmann, uma das autoras do estudo.

A equipe usou um modelo para estudar a evolução da camada de gelo ao longo dos próximos 10.000 anos, já que o carbono persiste na atmosfera milênios depois que é liberado. Eles descobriram que a camada de gelo da Antártida Ocidental ficará instável se as emissões de carbono continuarem nos níveis atuais nos próximos 60 a 80 anos, o que representaria apenas de 6% a 8% dos 10 trilhões de toneladas de carbono que poderiam ser liberados se usarmos todos os combustíveis fósseis acessíveis.

Danos irreversíveis na Antártida e resto do mundo

O manto de gelo da Antártida Ocidental já pode ter entrado em um estado de perda de gelo imparável, seja como resultado da atividade humana ou não. Mas se quisermos manter cidades como Tóquio, Hong Kong, Xangai, Calcutá, Hamburgo e Nova York como nosso patrimônio no futuro, precisamos evitar que isso aconteça na Antártida Oriental”, afirma Anders Levermann, coautor do estudo, do Instituto Postdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha.

A equipe descobriu que, se o aquecimento global não ultrapassar a meta dos 2 graus Celsius frequentemente citada pelos formuladores de políticas climáticas, o derretimento da Antártida faria com que o nível do mar subisse apenas alguns metros e permanecesse administrável. Mas um aquecimento maior poderia reformular os mantos de gelo orientais e ocidentais de forma irreparável, de uma maneira que cada décimo de grau aumentaria o risco de perda total e irreversível de gelo da Antártida.

Este é o primeiro estudo a modelar os efeitos da desenfreada queima de combustíveis fósseis na totalidade do manto de gelo da Antártida. O estudo não prediz fortemente o aumento das taxas de perda de gelo para este século, mas descobriu que as taxas médias de elevação do nível do mar ao longo dos próximos 1.000 anos poderia ser de cerca de 3 centímetros por ano, levando a cerca de 30 metros de elevação do nível do mar até ao final deste milênio.

Ao longo de vários milhares de anos, o aumento do nível do mar poderia chegar a até 60 metros. “Se nós não pararmos de jogar nosso CO2 para o céu, lugares que agora são o lar de mais de um bilhão de pessoas ficarão debaixo d’água”, prevê Caldeira. [Phys.org]

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