Como a genética nos ajuda escolher entre direita e esquerda

Por , em 23.04.2014

Já falamos aqui no Hype que foram encontrados os genes que determinam a mão dominante. Ou seja: é fato consumado pela ciência que essa característica é uma determinação genética, e não está sujeita a “escolhas”.

Digo isso porque, especialmente durante a Idade Média, escrever com a mão esquerda era visto como uma aberração, podendo a pessoa canhota, quando descoberta, até ser condenada à pena de morte. Ao longo da história, existiram vários jeitos de se referir a uma pessoa canhota, e uma delas foi “sinistro” – palavra do latim que originalmente significa “esquerda”, mas com o passar o tempo começou a ser associada ao mal.

No entanto, fora o fato de ter uma predisposição genética para escrever com a mão esquerda, essa característica tem alguma implicação médica mais séria?

Para nossa surpresa, a resposta é sim. Estudos revelaram que mulheres canhotas têm duas vezes mais chances de desenvolverem câncer de mama na pré-menopausa, em comparação com mulheres destras. Alguns pesquisadores acreditam que esse efeito pode estar ligado à exposição a certas substâncias químicas no útero, durante a gestação. Essa exposição pode afetar os genes tanto para ser canhota como para uma maior suscetibilidade ao câncer.

Pés de Pateta

Quando se trata de nossas mãos, pés e até mesmo os nossos olhos, a maioria dos seres humanos tem o lado direito dominante. Agora, você pode pensar que pés e mãos estão sempre alinhados, mas esse nem sempre é o caso. A verdade é que muitas pessoas não são congruentes. O que significa que ter o lado direito dominante nas mãos não exclui a possibilidade de que você tenha o lado esquerdo dominante nos pés – e tenha, assim, os chamados “pés de pateta”.

Essa expressão é bastante popular nos Estados Unidos. Foi usada pela primeira vez em 1937, em um filme de 8 minutos do Walt Disney. Na animação, os personagens Mickey, Minnie, Pluto, Donald e, como não poderia faltar, o Pateta, foram passar férias no Havaí. Quando eles chegaram à praia, o Pateta foi tentar surfar. Quando ele finalmente conseguiu pegar uma onda, ele ficou de pé com o pé direito na frente e o pé esquerdo atrás.

Para saber se você é uma dessas pessoas, faça um teste. Quando você estiver em frente a uma escada, prestes a subir o primeiro degrau, repare qual dos pés você move primeiro. Se for o pé esquerdo, então é bastante provável que você seja um membro do grupo de pessoas de “pés atrapalhados”.

Genética do destro

Acredita-se que o motivo de alguns de nós nascermos canhotos, outros destros, ou com pés de pateta, se relaciona com um momento importante no início da formação do nosso cérebro. Uma das explicações mais populares para a lateralização, nome dado a este fenômeno, é que cada um dos lados do nosso cérebro evolui para uma especialização funcional. Essa divisão do trabalho nos permite realizar várias tarefas complexas, por exemplo, assobiar enquanto digitamos, ou dirigir e falar no viva-voz do celular ao mesmo tempo.

Esses são exemplos de coisas que podemos fazer graças à lateralização do cérebro.

Mas por que existem mais destros? Para alguns cientistas, a resposta está no fato de que uma das tarefas mais importantes para a nossa espécie, e a mais executada também, é a comunicação, que é um processo geralmente realizado pelo lado esquerdo do cérebro. Dada sua vital importância, ela acaba ocupando muito a cabeça, proporcionando um desenvolvimento maior para o lado esquerdo. E como ele é o responsável por controlar os músculos do lado direito do corpo, é mais comum que a gente tenha mais habilidades para executar funções com as partes da direita.

Então, por que você deveria se preocupar se tiver “pés de pateta”? Bem, é a mesma pergunta que muitas pessoas têm feito para Amar Klar, um pesquisador sênior do Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos. Ele é defensor de uma causa genética direta para lateralidade, e considera até a hipótese dela ser provocada por um único gene.

A teoria, que a equipe de Klar apoiou com um modelo preditivo de traços dominantes e recessivos, explica até mesmo o fato de que gêmeos monozigóticos nem sempre compartilham a mesma predominância. Isso pode parecer um argumento contra a herança genética, mas o que Klar e vários outros geneticistas respeitados propõem é que este gene possui dois alelos, um dominante (destro) e um recessivo. Uma pessoa que herda um par de alelos recessivos tem uma chance de 50% de ser destro e 50% de ser canhoto.

Já se passou mais de uma década desde que Klar começou a procurar esse gene, e até agora ainda não o encontrou. Mas, para ele vale a máxima: a esperança é a última que morre.

Influências externas

Como uma alternativa para uma causa exclusivamente genética de destreza manual, uma linha de pensamento diferente sugere que os indivíduos canhotos sofrem algum transtorno neurológico, ou dano, durante o desenvolvimento, o que pode alterar a forma como seus cérebros são conectados. Inclusive, algumas pessoas têm apontado estudos que encontraram uma correlação entre crianças que nasceram prematuras e o fato de elas serem canhotas.

Saber mais sobre a biologia por trás da lateralização, descobrindo seus fatores genéticos e ambientais, poderia nos dar mais noções sobre atitudes que deveríamos tomar, e que obviamente vão muito além de pura e futilmente apontar a diferença entre as pessoas. Isso porque os canhotos também têm sido associados a taxas mais elevadas de dislexia, esquizofrenia, déficit de atenção e hiperatividade, alguns transtornos de humor e, como falamos no começo, até mesmo de câncer. [Discover Magazine]

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1 comentário

  • André Luiz Antunes Dos Santos:

    Eu sou canhoto e posso dizer: Dislexia e Esquizofrenia, não; câncer, ainda não; agora, déficit de atenção, hiperatividade e transtorno de humor, com certeza. 🙂

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