Como lutar contra a masculinidade tóxica

Por , em 1.08.2019

Nos últimos tempos, o termo masculinidade tóxica entrou no vocabulário comum de muita gente. Isso sinaliza que, ao menos em alguns setores da sociedade, estamos mais dispostos a discutir comportamentos masculinos enquanto padrão social, não casos isolados. Mas no que esse fenômeno implica?

A psicóloga clínica Jade Wu, apresentadora do podcast Savvy Psychologist explica que o código da masculinidade tóxica exige dos homens que eles dominem em relação às outras pessoas, que não tenham necessidades, que não demonstrem emoções (além de raiva e presunção), que sofram em silêncio, que não dêem quaisquer sinais de fraqueza e que estejam sempre vencendo. Além disso, ela exige que homens invistam em uma hierarquia segundo a qual homens heterossexuais são dominam a todos – especialmente se este homem heterossexual for “hipermasculino”.

Na prática, a masculinidade tóxica funciona como uma caixa: estreita, rígida e que exige que os homens façam contorcionismos para conseguir caber ali. E, aqueles que não cabem na caixa, pagam o preço. Na melhor das hipóteses, explica a especialista, você vira invisível. Na pior, você vira alvo de desrespeito, bullying e até mesmo violência.

“Essa disputa pelo domínio e negação da emoção tem um grande custo. Ela cega a consciência dos homens sobre as necessidades e emoções de outras pessoas, impulsiona a violência doméstica e sexual, faz com que a agressão pareça uma maneira razoável de resolver conflitos, proíbe procurar assistência médica (e até mesmo pensar em procurar cuidados de saúde mental) e despeja combustível no fogo do abuso de drogas e álcool”, enumera Wu.

Ela destaca que há uma diferença entre masculinidade tradicional e masculinidade tóxica. “Não há nada tóxico em se esforçar, sustentar a família, vencer nos esportes ou ser leal aos seus amigos. Mais importante, não há nada tóxico em querer ser respeitado. Todos os humanos querem se sentir respeitados”.

No entanto, é diferente querer ser respeitado e recorrer a medidas extremas buscando o que parece respeito, mas, na verdade, é medo. “Isso é um resultado direto da masculinidade tóxica”, garante.

Isso tudo reflete um paradoxo. Enquanto grupo, homens são mesmo dominantes. Eles são melhor remunerados pelo mesmo trabalho que as mulheres fazem; ocupam, em grande parte, a maioria dos assentos em governos, empresas e instituições religiosas; têm bem menos chances de sofrer com assédio e violência sexual; não importa tanto se estão dentro de padrões estéticos e podem ser rudes e francos – o impacto em suas vidas é nulo ou até mesmo positivo. A lista de privilégios ainda vai longe.

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Porém, enquanto indivíduos, muitos homens não reconhecem essas relações de poder e privilégio em seu cotidiano. “Individualmente, homens frequentemente se sentem impotentes devido a fatores que têm pouco a ver com gênero: racismo, pobreza, um mercado de trabalho em rápida evolução ou falta de acesso à educação. E quando um homem se sente impotente, ele pode redobrar [seus esforços] para caber na caixa do homem, a fim de recuperar um sentimento de controle sobre seu próprio destino. O resultado? A masculinidade tóxica que machuca a todos, incluindo os homens que se submetem a ela e os meninos a quem ela é ensinada”, afirma a psicóloga.

E como escapar desse comportamento tão nocivo? Wu dá quatro dicas, baseadas em ciência:

1. Procure ter uma visão mais clara da realidade

Em um estudo publicado no periódico “Sex Roles”, pesquisadores pediram para que universitários avaliassem o quanto concordavam com algumas frases sobre mulheres, como “Mulheres se ofedem muito facilmente” ou “Normalmente, mulheres são doces até elas conseguirem um homem, mas, então, demonstram seu eu verdadeiro”. Em seguida, eles precisaram avaliar as mesmas frases, mas de acordo com o que eles achavam que seria a resposta do “homem médio”.

Essa e outras pesquisas já demonstraram que homens superestimam o machismo de outros homens. Os resultados refletem um fenômeno conhecido, desde 1924, como ignorância pluralística, em que membros de um grupo acreditam ter atitudes, percepções ou crenças diferentes do restante das pessoas – quando, na verdade, o seu modo de pensar ou de agir está dentro da média ou é maioria. Outro exemplo do mesmo fenômeno acontece quando um universitário pode se sentir pressionado a beber compulsivamente porque acredita que a maioria dos colegas faz o mesmo.

No caso de atitudes sexistas, se um homem assume estar cercado por pessoas mais machistas do que ele, é menos provável que ele manifeste qualquer objeção quando testemunha comportamentos sexistas. Como resultado, a ignorância pluralística é reforçada.

Ainda sobre o estudo com os questionários com frases sexistas, depois de respondê-los metade de grupo recebeu um feedback sobre as discrepâncias e a outra metade, não. Três semanas depois, todos preencheram os formulários novamente e o grupo que havia recebido o feedback deu respostas mais próximas da realidade. A conclusão? É possível recalibrar essas atitudes.

2. Manifeste-se sobre não querer se encaixar na caixinha da masculinidade tóxica

Homens que mais precisam de ajuda frequentemente são os menos prováveis a procurá-la – um fenômeno conhecido como dupla penalidade. No entanto, uma série de estudos já demonstraram que, quando homens percebiam que seus amigos e familiares do sexo masculino procuravam ajuda, havia mais chances de que eles fizessem o mesmo.

Os resultados se repetiram quando diferentes comportamentos foram analisados, como fumar, usar camisinha ou beber e dirigir. Ou seja, quando vêem uma prova social em outros homens, eles se permitem serem mais saudáveis também.

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Logo, é importante que homens que não querem se enquadrar nos padrões da masculinidade tóxica manifestem essa escolha em alto e bom som. Assim, encorajam aqueles ao seu redor – especialmente os que mais precisam de ajuda – a fazer o mesmo.

3. Deixe claro que qualquer atividade é viril se um homem é apaixonado por ela

Enquanto não há nada inerentemente errado em sentir vontade de cortar lenha depois de assistir um filme de romance, isso é um sinal de que algumas atividades não são adequadas para “homens de verdade”. No caso da masculinidade tóxica, a linha do pequeno círculo de comportamentos aceitáveis – futebol, MMA, consertar o carro, tomar cerveja – é muito bem definida e tudo o que está fora dele é absolutamente inadmissível.

Assim, realizar uma atividade que não caiba na caixa da masculinidade pode não apenas ativar a insegurança, mas levar ao impulso de “compensar” quando homens sentem que sua masculinidade está ameaçada. Um exemplo disso é um estudo feito em Taiwan, que analisou a conexão entre atividades “masculinas” e bebidas energéticas. Com nomes como Red Bull, Venom, Bawls ou Monster, o público-alvo dos energéticos são homens jovens que querem aumentar a sua aparência de virilidade.

No estudo, quase 100 universitários preencheram um questionário sobre suas atividades favoritas no qual todas eram propositalmente neutras em relação ao gênero – como usar o Facebook, viajar ou tomar café. Em seguida, eles receberam três tipos de feedback falso: de que as atividades que haviam escolhido contavam muitos pontos de masculinidade, poucos pontos de masculinidade ou não receberam feedback algum. Assim, foram criadas três situações em que a masculinidade foi ameaçada, reafirmada ou permaneceu neutra.

Em seguida, eles participaram de um teste de degustação de energéticos e foram informados que poderiam beber o quanto quisessem, para estabelecer suas preferências. Como resultado, o grupo que tinha tido sua masculinidade ameaçada bebeu bem mais energético do que os outros.

Enquanto nessa situação as consequências dessa compesação na masculinidade não têm consequências sérias, o caso não é esse quando se reflete em violência doméstica, tiroteios de massa (como o da boate Pulse, em Orlando, em 2016) e outros exemplos extremos de métodos de defesa da “carteirinha de homem”.

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Assim, um caminho para combater a masculinidade tóxica é contestar a própria ideia de que certas atividades são ou não são “coisa de homem” e ensinar aos meninos que qualquer coisa que eles gostem de fazer é “coisa de homem”. Caso eles precisem afirmar a sua masculinidade, aconselha a especialista, o recomendado é encorajá-los a fazer isso de maneira construtiva para eles próprios, sem diminuir os outros.

4. Encoraje múltiplos papéis e relações

Como a masculinidade tóxica diz que homens não podem ter relações íntimas com ninguém além de sua esposa, eles colocam todos os seus ovos nessa mesma cesta. Da mesma forma, quando são limitados exclusivamente ao papel de provedores, o trabalho se torna toda a sua identidade. Quando a vida acontece e estes homens se deparam com o desemprego ou o divórcio, todo seu mundo desaba.

No entanto, Wu explica que, quando homens multiplicam seus papéis, todos se beneficiam. Por exemplo, quando pais se envolvem mais, a vida dos filhos melhora de várias maneiras. Crianças que têm apoio emocional e passam tempo com seus pais têm níveis menores de delinquência, depressão e mais satisfação com vida. Logo, quando eles criam mais laços com a família, amigos e a comunidade, todo mundo sai ganhando. [Savvy Psychologist]

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