Presidiários brasileiros tomam chá ALUCINÓGENO de Santo Daime

Em Ji-Paraná, no norte do país, prisioneiros podem participar de rituais religiosos onde ayahuasca é consumida, uma bebida alucinógena muito conhecida no Brasil pelo nome de “chá de Santo Daime”.

Estes rituais são comuns em toda a Amazônia, onde a mistura tem sido consumida por séculos. No entanto, a participação de detentos condenados por crimes como assassinato, sequestro e estupro é certamente nova.

E por que cargas d’água essas pessoas agora podem fazer isso? Porque terapeutas pensam que isso pode os ajudar a adquirir uma nova perspectiva sobre suas ações.

Poder de mudança?

No templo em Rondônia, os presos pareciam experimentar uma gama de reações diferentes depois de beber ayahuasca. Sentados em cadeiras de plástico sob um teto de telha, alguns estavam impassíveis. Outros pareciam perdidos na contemplação. Um caía constantemente em lágrimas, como se demônios estivessem batendo na sua porta. Todos cantaram a plenos pulmões quando o ritmo dos hinos se intensificou.

“Somos considerados o lixo do Brasil, mas este lugar nos aceita”, disse Darci Altair Santos da Silva, 43 anos, trabalhador da construção civil cumprindo uma pena de 13 anos por abuso sexual de uma criança com menos de 14. “Eu sei o que eu fiz foi muito cruel. O chá me ajudou a refletir sobre este fato, sobre a possibilidade de que um dia eu possa encontrar a redenção”.

“Eu finalmente estou percebendo que estava no caminho errado nesta vida”, disse Celmiro de Almeida, 36 anos, que está cumprindo uma sentença por homicídio. “Cada experiência me ajuda a me comunicar com minha vítima para pedir perdão”, complementa o presidiário, que tomou a mistura psicodélica quase 20 vezes no santuário.

Alívio do sistema

A possibilidade de presos consumirem alucinógeno no meio da floresta tropical reflete uma busca contínua por maneiras de aliviar a pressão sobre o sistema carcerário do Brasil. A população correcional do país dobrou desde o início do século para mais de 550.000 pessoas, no meio de reclamações de violações dos direitos humanos e revoltas que levaram a muitas mortes.

Acuda, um grupo de direitos humanos dos prisioneiros baseado em Porto Velho, começou a oferecer aos detentos sessões de yoga, meditação e Reiki (terapia de energia), a fim de acalmar os ânimos dessa população. Há dois anos, os terapeutas voluntários tiveram a ideia de dar aos presos ayahuasca, poção amazônica geralmente feita através da mistura de um cipó (Banisteriopsis caapi) com uma folha (Psychotria viridis).

“Muitas pessoas no Brasil acreditam que os presos devem sofrer, ter fome e depravação duradoura”, disse Euza Beloti, 40 anos, psicóloga do Acuda. “Esse pensamento reforça um sistema em que eles retornam à sociedade mais violentos do que quando entraram na prisão. No Acuda, nós simplesmente vemos os encarcerados como seres humanos com a capacidade de mudar”.

presos brasileiros cha alucinogeno terapia (2)

Mais do que um chá alucinógeno

Os juízes e diretores de presídios permitiram que cerca de 10 detentos de prisões de segurança máxima na cidade vivessem no edifício Acuda, uma instalação antiga do exército. Dezenas de outros presos de penitenciárias vizinhas assistem às sessões de terapia todo dia.

Dentro do complexo, os internos praticam meditação, massagem ayurvédica e aprendem habilidades como manutenção de motocicletas. Eles também cuidam de um jardim, cultivam hortaliças e plantas usadas para fazer ayahuasca.

Tratamento singular

Tratar presos com drogas psicodélicas é algo muito raro. Em um experimento de curta duração nos Estados Unidos na década de 1960, pesquisadores da Universidade de Harvard sob a direção do psicólogo Timothy Leary deram psilocibina, uma droga derivada de cogumelos psicoativos, para detentos em uma prisão em Concord, Massachusetts.

“É certamente algo novo, mas ayahuasca tem um grande potencial, porque em condições ideais pode produzir uma experiência transformadora em uma pessoa”, disse o Dr. Charles S. Grob, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que realizou estudos exaustivos sobre a mistura.

No entanto, o Dr. Grob advertiu que ela possui riscos. A bebida pode exacerbar doenças mentais em pessoas que estão sendo tratadas com medicamentos antipsicóticos, para esquizofrenia ou transtorno bipolar, por exemplo. A ingestão de drogas como cocaína ou metanfetamina antes de consumir ayahuasca também é perigosa. “O indivíduo poderia ter uma reação hipertensiva levando a um acidente vascular cerebral”, explica.

Dúvidas e críticas

Muitas pessoas no Brasil, onde os políticos conservadores estão crescendo em força conforme prometem combater o crime em um país com mais homicídios por ano do que qualquer outro, ainda não se convenceram.

Terapeutas que se voluntariam no Acuda disseram que perderam clientes em seus consultórios particulares porque eles não concordam com o fornecimento dessa atenção aos condenados. Alguns parentes de vítimas que sofreram nas mãos dos presos também alegam que o projeto é injusto.

“Onde estão as massagens e terapia para nós?”, perguntou Paulo Freitas, 48, cuja filha de 18 anos, Naiara, foi sequestrada, estuprada e assassinada em Porto Velho em 2013 por um grupo de homens. Freitas disse ter ficado chocado ao saber recentemente que um dos homens condenados pelo assassinato de sua filha seria transferido em breve aos cuidados de Acuda. “Isso é absolutamente revoltante”, disse. “Os sonhos da minha filha foram extintos por causa desse homem, mas ele terá permissão de passear pela selva e beber o chá”.

Outros questionam se o consumo da bebida pode realmente ajudar a reduzir as taxas de re-encarceramento. Luiz Marques, 57 anos, economista que fundou Acuda, disse que a organização esperava reduzir a reincidência, mas enfatizou que o objetivo mais imediato era a “expansão da consciência” dos presos sobre o certo e o errado. [NYTimes]

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