Os animais pelos quais a evolução não tem a menor simpatia

Por , em 9.12.2014

Antes de entrarmos no assunto desse artigo, confira o vídeo abaixo:

Nele, um lagarto conhecido como anole verde está dentro de um tanque de vidro de laboratório, em cima de um pedaço de madeira que pretendia imitar um galho de árvore flexível. Então, o anole move-se para saltar fora daquela espécie de poleiro. Ele flexiona as suas fortes pernas traseiras para lançar-se no ar.

Mas, à medida que o anole a empurra, a madeira maleável dobra-se abaixo dele. A madeira recua, bate na cauda do lagarto e lança o animal para a frente em uma queda livre. Ele abre seus dedinhos de lagarto para amenizar sua queda e se estatela de cara no chão.

Anoles verdes vivem em árvores. Eles costumam pular entre os galhos daquelas árvores para emboscar presas ou fugir de predadores. Às vezes, os ramos são meio molengos. E ainda assim, aqui estava este anole, tentando pular de um pedaço de madeira mole e fazendo um trabalho espetacularmente terrível.

Ele não é apenas um lagarto particularmente deselegante. A bióloga Casey Gilman gravou o vídeo para um experimento que tentava descobrir o quão bem anoles verdes saltavam de madeiras de flexibilidade variável. Ela testou 11 lagartos diferentes e todos eles falharam quando chegaram a este estágio.

Particularmente, eu me identifico com essa pobre criatura: se eu fosse um lagarto, este é exatamente o tipo de lagarto que eu seria. Às vezes, tropeço nos meus próprios pés e bato em paredes com as quais eu convivo há anos. Mas eu também pensei: “Sério? Milhões de anos de evolução, e eles ainda não descobriram como pular de coisas articuladas?”.

A situação não seria tão ruim se esse fosse o único exemplo no qual a evolução aparentemente deu errado. Há vários outros organismos que parecem ser, digamos, imperfeitamente adaptados. Que droga é essa, evolução?

No mundo real, a evolução não pode explicar-se. Ela age sem intenção, e se não encontrarmos fósseis reveladores o suficiente, não podemos ver todas as medidas que foram tomadas para desenvolver um determinado organismo – tudo o que podemos ver são os resultados.

Mas e se a evolução pudesse ter uma conversa consigo mesma sobre algumas das suas criações mais estranhas? Bom, há um blog que faz isso, o WTF, Evolution?, criado pela jornalista científica Mara Grunbaum. Para ela, esses bate-papos seriam mais ou menos assim:

“Sabe aquele elefante-marinho que eu fiz? Aquele com o nariz incrivelmente mole?”

“Sim, evolução, aquele foi um bom nariz”.

“E sabe como ele acumula parasitas dentro dele?”

“Ouvi dizer que isso tinha sido um problema”.

“Eu arrumei”.

“Você arrumou? O que você fez, deu mais muco de proteção ao elefante-marinho? Um melhor sistema imunológico? Mais pelos fortes no nariz?”

“Não! Isso tudo parecia muito difícil. Eu fiz um pássaro de cutucar o nariz”.

“Um pássaro de cutucar o nariz…”

“Funciona muito bem!”

evolucao

Parece ou não aquele seu colega de trabalho meio preguiçoso que parece sempre fazer as coisas da forma mais folgada e desnecessariamente complicada possível?

A evolução é uma força poderosa que produz uma incrível diversidade de adaptações para a vida na Terra, mas não é exatamente como se ela pensasse muito a respeito de qualquer uma delas. Ela não tem um objetivo específico em mente quando começa a trabalhar em um organismo.

Vamos analisar a fragata, por exemplo. Essa ave é um piloto habilidoso e faz seu ninho ao longo das costas tropicais. Mas, apesar de viver perto da água, a fragata não pode mergulhar. Suas penas não são revestidas, tampouco resistentes à água. Elas estragam quando são molhadas e fazem com que o pássaro fique muito pesado para decolar novamente.

Assim, a fragata não mergulha. Em vez disso, ela usa sua proezas aéreas para assediar outras aves marinhas, bicando-as e puxando seu rabo no ar até que elas vomitem qualquer peixe que tenham acabado de pegar. A fragata, então, arrebata a refeição vomitada no ar e sai rapidinho dali, com as penas ainda secas.

Se a evolução tivesse projetado as fragatas a partir do zero, poderia ter decidido que “dieta à base de peixe” deve ser acompanhada de “capacidade de nadar”. Ela também poderia ter feito com que esse pássaros fossem mais graciosos em terra – seus pés minúsculos produzem um caminhar estranho – e teria escolhido uma demonstração de acasalamento diferente dos seus peitos infláveis vermelho berrante que atualmente ostentam.

Mas a evolução não funciona assim. Não tem como planejar com antecedência. Ela pode melhorar traços que já existem em um organismo, contudo, normalmente, não pode fazer nada de novo. Imagine que você quer preparar um jantar gourmet, mas em vez de ir ao supermercado você tem que inventar uma refeição com tudo o que está mofando em sua despensa depois de você ter saído de férias por uma semana. Isso é basicamente o que a evolução faz todo o tempo. As coisas não têm que ser perfeitas, só precisam ser boas o suficiente para sobreviver.

O resultado é uma notável mistura de estranheza. Peixes com olhos que migram por suas cabeças conforme eles se desenvolvem. Lagartos que se defendem atirando fluxos de sangue de seus próprios olhos. Porcos com presas que crescem na direção de seus rostos e, ocasionalmente, crescem tanto que fatalmente perfuram o crânio do animal. E assim por diante.

É fácil simpatizar com essas criaturas não tão afortunadas, não? Talvez porque elas nos façam sentir melhor a respeito de nós mesmos. Nós não fazemos a coisa certa o tempo todo, mas nem a maior força da mudança biológica no planeta faz isso. Nós podemos ser estúpidos quando tentamos impressionar as pessoas que achamos atraentes, mas pelo menos não inflamos nossas membranas nasais e ficamos chacoalhando por aí.

Claro, a natureza pode ser majestosa, imponente e impressionantemente complicada. Entretanto, ela também pode ser deselegante, repugnante e bem bizarra. Às vezes, ela ainda consegue ser todas essas coisas ao mesmo tempo. Como um produto de um sistema tão estranho, podemos ser perdoados por não fazermos tudo certo o tempo todo. A evolução não é perfeita e nem nós. [Slate, WFT, Evolution?]

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