Do deserto ao oásis

Por , em 20.05.2013

Antes que o peso dos anos e a dureza da enfermidade que o levou subtraísse boa parte de sua leveza de viver, meu pai costumava me contar histórias. Boas histórias.

Não apenas pela alegria de encantar. Mas, também.

Suas histórias possuíam o brilho de um brinquedo novo. Tinham aquele frescor do sorriso das crianças pequenas; de todas aquelas que abandonavam a distração das televisões da minha infância – tão preciosas naquela época – e o rodeavam apenas para ouvi-lo falar.

Assim, ficávamos boquiabertos, eu e meus primos – todos beirando os sete anos de vida – viajando em suas palavras por um mundo de aventuras, onde heróis mitológicos com seus tapetes mágicos bordejavam nuvens douradas em busca de ocultos tesouros, lâmpadas maravilhosas e seus traiçoeiros djins.

Sim, meu pai possuía o dom de contar histórias.

Seu forte sotaque de emigrante árabe conferia credibilidade à narrativa, além de proporcionar o adequado ingrediente lúdico para prender a atenção.

E, assim, à medida que íamos crescendo em idade e em entendimento, suas histórias também cresciam tanto na complexidade de sua trama, quanto na sutiliza de sua moral.

Eu recordo com carinho daquelas noites de inverno quando encastelados ao redor de nosso fogão à lenha, bebíamos chá, conversávamos e ríamos até o sono nos surpreender ou então, até que minha mãe, com sua divertida severidade, nos arrastasse ao recolhimento – ambos pela orelha.

As histórias tinham nome e tinham época.

Uma das minhas prediletas é a “Do Deserto ao Oásis”, na qual ele mesmo e, também meu avô, foram os protagonistas.

A história é bem simples e já a contei em outras oportunidades.

Versa sobre uma viagem de caravana que os dois fizeram pelo Saara, e destaca a alegria do povo do deserto.

Uma alegria perene e contagiante, mesmo em ambiente tão inóspito.

Da história se tira uma moral fácil de assimilar.

A verdadeira felicidade é respaldada na máxima de que tudo na vida se restringe a estes dois elementos: deserto e oásis.

Depois do deserto vem o oásis. Depois do oásis vem o deserto.

Simples assim.

E nada nesse ciclo é capaz de eclipsar a autêntica alegria de viver.

Evidentemente o segredo para vencer o deserto está na certeza do oásis.

Esse é o conselho:

Aproveite o oásis, beba de suas fontes e se fortaleça. Recobre suas energias e se prepare para a nova jornada que logo se iniciará.

E, uma vez no deserto vença cada passo de sua marcha com bravura que logo encontrará novamente o oásis, para fechar o antigo ciclo e iniciar um novo.

E assim, eu e meu pai – em cada uma de minhas idades – nos encontrávamos nesse diálogo. Ele adorava repetir as histórias. E eu adorava ouvir.

E em cada uma de minhas idades fazíamos uma longa lista de coisas que entravam em cada uma dessas categorias.

Deserto ou oásis?

Por exemplo:

Ir ao dentista?  (Essa é fácil) – deserto!

Ficar com os dentes bonitos e saudáveis? – Oásis!

Ir para a escola e estudar com afinco? – É claro que é o puro deserto!

Tirar boas notas, passar por média, entrar em férias? – Oásis, oásis e oásis!

No entanto, à medida que o tempo ia passando e a simplicidade da vida ia me escapando pelos dedos, minhas listas iam paulatinamente tornando-se mais complexas.

Já não me bastava a valentia para vencer o deserto e nem a leveza para usufruir do oásis.

Eu precisava de muita sabedoria para conseguir distingui-los.

E é nessa contingência, que essa história evolui, diariamente.

Na extrema necessidade de sempre carregarmos um oásis para onde formos, ou, que em cada passada pelo deserto da luta diária, aprendamos às duras penas a arte de fabricarmos oásis.

Esse foi o legado de meu pai.

Mesmo que sua morte hoje me golpeie com sua derradeira verdade e me faça caminhar pelo pior deserto de minha jornada, consigo, ainda, carregar em meu coração o frescor do oásis que ele me ensinou a construir.

Um oásis como o das histórias da minha infância que ele me ensinou a ouvir e que eu aprendi a contar.

Histórias que já contei à minha filha e que ela contará para meu neto, pois esse é o nosso jeito humano de alcançarmos a eternidade.

Mantendo-nos vivos no coração de nossos filhos, e nos filhos de nossos filhos, pelo exemplo e ensinamentos que lhes damos e pela atenção e carinho que lhes dedicamos.

Façam como meu pai, contem boas histórias para seus filhos.

E que cada uma dessas histórias tenha sua trama tecida com os fios da eternidade.

-o-

[ Para Ali Daher Kanso (09/03/1918 – 17/05/2013) – In Memorian ]

-o-

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Seus contos “Herdeiros dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.

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7 comentários

  • Evandro Oliveira:

    História Inspiradoura!!
    ah se os passeis contassem mais histórias para seus filhos do que as televisões…

  • Vera Lúcia Chiaratti:

    Muito bem colocada a comparação. Seu pai deve ter sido um homem de muita sabedoria. Mas saiba (eu sei) que você o terá para sempre, porque aqueles que nos conquistaram jamais se vão de todo; sempre fica um pouco do seu perfume…

  • Maria Ines Rolim:

    Viajei, muita emoção. Uma maneira feliz de descrever a realidade!

  • Elcio Ielpo:

    Fantástico legado deixado pelo “Velho”. É muito bom, você também prosseguir nesse caminho… Um abraço!

  • José Carlos Ferraz Semmler:

    Sensacional!

  • maria sal:

    Inspirador.

  • Marcelo Ribeiro:

    Emocionante, amigo. Que seu pai viva sempre na mente e coração daqueles que tocou.

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