Crítica, espírito crítico e outras obviedades

Por , em 24.02.2013

Em uma de minhas conferências sobre esse tema, tão comum nas ciências e nas artes, fiquei surpreso ao constatar que boa parte do público presente não tinha clareza sobre o conceito, e entendia a crítica como sendo a “arte de apontar defeitos” ou mesmo algo como um direito insofismável de achincalhar o outro.

Tenho observado, também, em muitas escolas, onde alunos e pais de alunos concorrem em “criticar” o trabalho do professor, principalmente quando chamados à coordenação em virtude do péssimo rendimento escolar, seja pelo mau comportamento em sala de aula, seja pelos resultados desalentadores nos exames.

E nesse caso a “crítica” tem sabor de desforra e produz a ilusão de isenção.

Ao apontar os defeitos do professor, quando não da escola, alguns alunos e pais de alunos acreditam que podem, a partir daí, se eximir do cumprimento de seu papel como protagonistas do processo de ensino-aprendizagem.

Na crença popular essa ideia fica patente com o bordão:

Se meu filho tirou dez – é um gênio! Agora, se tirou zero é porque o professor e/ou a escola não presta!

Esse “criticar” mal executado presta um desserviço à comunidade, pois esvazia seu potencial de aprimoramento, tanto do professor quanto do aluno. Ao mesmo tempo, que, ao banalizar um dos principais direitos e atributos que tem o ser humano, que é o de criticar – expõe o que há de pior no ser humano:

– O egocentrismo.

E isso é manifestado, e de forma eloquente, na sua incapacidade de aplicar em si mesmo o rigor da severa crítica que prodigaliza aos demais.

E em muitas outras áreas isso é observado.

A pseudo-crítica das falhas estruturais como desculpa para não se cumprir com o seu papel!

Também tenho percebido em muitos fóruns na internet, onde o anonimato obtido pelo uso de um nickname e o trato impessoal usado em e-mails ou posts , transforma esse direito de criticar num pretexto para atacar, para achincalhar ou menosprezar a pessoa do outro lado.

Alguns pela simples diversão de discordar por discordar.

Outros pela necessidade de propagandear sua ideologia, sua crença, etc. e por essa razão atacar decididamente, não o artigo, mas o articulista.

Ou, ainda, esse ataques se darão por simples vaidade:

– “Afinal com que direito o articulista desse site ousa ser mais inteligente e/ou mais informado que eu”?

Ora, o termo “crítica” deriva etimologicamente do grego Kritikè e significa “discernir”.

Assim, criticar é em seu conceito político-filosófico, a faculdade de discernir o valor das coisas, dos eventos, dos feitos e das pessoas.

Está intimamente ligado ao juízo de valor e ao exercício da razão.

Segundo Kant, a crítica é uma avaliação ou um julgamento de mérito.

E tal julgamento pode ser:

• Estético, se contempla uma obra de arte;
• Lógico, se contempla um raciocínio;
• Intelectual, se contempla um conceito, uma teoria ou um experimento e
• Moral, quando contempla uma conduta.

Ao julgar, busca-se a equanimidade e a justiça.

O julgamento para ser equânime, deve ser isento da intencionalidade de provocar dano e pleno de recursos da razão, fundamentado evidentemente no conhecimento e no anseio pelo bem.

Na crítica, busca-se apontar não só os defeitos, mas também as qualidades e valores e com isso avaliar a extensão dessa mesma qualidade seja da obra de arte, do trabalho científico, do conceito, do argumento ou da conduta objetivando o seu reconhecimento, aprimoramento e/ou superação;

A crítica propriamente dita nunca é dirigida à pessoa. Sempre à suas ideias, obras, argumentos ou comportamentos.

Mais que um exercício de sintaxe, esse fato diferencia a crítica verdadeira do achincalhe.

Pois ideias, obras, comportamentos e argumentos não são a identidade.

A pessoa é categoria moral e é infinitamente maior que seu simples comportamento episódico ou somatório de algumas de suas ideias e argumentos ou o somatório de todas as suas obras.

O achincalhe, que significa humilhar, ridicularizar e debochar não é considerado em termos jurídicos ou filosóficos como “crítica” e sim uma perversão de seu significado.

Em caso público pode ter consequências sérias, tais como processos por perdas e danos, derivando o achincalhe para a injúria, calúnia e difamação – todos previstos pelo código penal.

De acordo com Dr. Ricardo Antônio L. Camargo, “também se configura o achincalhe quando se imputa a alguém fato depreciativo e inverídico ou quando se lhe diz algo gratuitamente ofensivo à dignidade e ao decoro”.

“O achincalhe é sempre corrosivo, é sempre destrutivo, é sempre a base de todos os conflitos que extrapolem motivos puramente materiais. Estereótipos, preconceitos e mesmo ódios passam a ser considerados como o metro pelo qual se medirá a bondade ou a maldade das condutas.”

“Quando o fato imputado constitui crime, estamos diante do tipo calúnia. Quando o fato é ofensivo à reputação, estamos diante da difamação. E quando se ofende a dignidade e o decoro de alguém, sem lhe imputar fato, o que se faz é injuriá-lo”.

Em resumo, a verdadeira crítica vale-se de argumentos consistentes, fundamentados no conhecimento e que objetivam julgamentos e avaliações sobre o valor (ou a falta dele) de uma obra, conceito, argumentos, experimentos ou conduta e nada tem a ver com ataques pessoais e achincalhes. Isso se denomina agressão.

A crítica, juntamente com o ceticismo e o princípio da falseabilidade, tem um papel preponderante na evolução da ciência.

Nesse contexto, sem a crítica muitos erros científicos seriam perpetuados.

Daí, propugnarmos na sociedade o desenvolvimento do espírito crítico e a defesa da liberdade para exercê-lo.

E ter espírito crítico é preconizar a capacidade humana de julgamento visando o bem comum. Criticar é julgar para escolher, para selecionar, para promover a melhora e a superação e exaltar o útil, o criativo, o ético e o estético, para o bem e evolução da humanidade.

Dessa forma, a crítica propriamente dita, corretamente praticada é sempre construtiva.

Mas, para tal necessita-se:

• Humildade;
• Senso de humanidade;
• Tato e polidez;
• Adequação;

E acima de tudo:

• Conhecimento.

Não há como criticar algo que não se conhece:

• Um crítico literário deve ter conhecimento sobre literatura.
• Um crítico de trabalhos científicos deve ter conhecimento pelo menos sobre a área científica objeto de sua crítica.

E assim por diante.

Ora, isso é óbvio!

No entanto, parece que no mundo de hoje as obviedades não são percebidas assim tão obviamente.

-o-

[Imagem: Alvo de Flavio Eiró]

[Fontes de consulta: Crítica da Faculdade de Julgar, Emmanuel Kant, Arte de ter razão, Schopenhauer e O que é ser Crítico – Ensaio de Raymundo de Lima]

[Leia os outros artigos de Mustafá Ali Kanso]

 

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Navegando entre a literatura fantástica e a ficção especulativa Mustafá Ali Kanso, nesse seu novo livro “A Cor da Tempestade” premia o leitor com contos vigorosos onde o elemento de suspense e os finais surpreendentes concorrem com a linguagem poética repleta de lirismo que, ao mesmo tempo que encanta, comove.

Seus contos “Herdeiros dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.

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6 comentários

  • aguiarubra:

    Mais um excelente artigo de divulgação de conhecimento!

  • jodeja:

    O artigo foi excelente para muitos, para mim foi uma fonte de informações e conhecimentos.

  • Georges Le Brun Vielmond:

    Para o ser “humano” o negativo (mesmo quando não existe se cria) é sempre mais pesado que o positivo. Em comportamento a valor igual, sentimos mais uma perda que um ganho…….É da nossa natureza que relaciona as consequências de um prejuizo, não pelo seu valor físico mas pelo seu aspecto moral.

  • Elizabeth:

    Excelente artigo!
    As críticas irresponsáveis tem aumentado imensamente através da internet, onde as pessoas se acham protegidas.
    Meu receio é que esse comportamento seja cada vez mais incorporado à vida real, diminuindo o respeito, a humildade… a humanidade.

  • Marcelo Ribeiro:

    Emitir críticas é fácil. Difícil é fazer. A Nasa gasta meros 5 bilhões de dólares para colocar um laboratório de análises do tamanho de um carro em Marte e as pessoas que negativamente criticam — que paradoxalmente são aquelas que possuem menos capacidade de pensamento crítico — ficam choramingando sobre quantos zezinhos na África poderiam ter recebido arroz e feijão.

    Estas mesmas pessoas adoram seus luxos e não os deixam de lado para usar o mesmo dinheiro e ajudar desconhecidos. Quem critica sem ter capacidade de pensamento crítico não merece os bytes em que escreve suas opiniões.

  • Flor de Lis:

    Parabéns pelo artigo, Mustafá. Está excelente!

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