,

Experimento da prisão de Stanford: tortura de estudantes em nome da ciência

Por , em 27.03.2014

Quando o assunto é assustadores experimentos científicos, o realizado na Universidade de Stanford (EUA), uma das mais respeitadas do mundo, é dos mais lembrados. E hoje você vai entender aqui por quê. 

Em 1971, o estudo coordenado pelo professor de psicologia Phil Zimbardo torturou 11 alunos voluntários em nome da ciência.

O Experimento

O objetivo de Zimbardo era constatar “como indivíduos se adaptam a situações em que estão relativamente impotentes”. Para isso, ele escolheu simular uma prisão, construindo uma no porão do prédio de psicologia da Universidade de Stanford. Como o experimento envolvia seres humanos, tinha que ser aprovado pelo RH da Universidade, o que não foi um problema. Em 17 de agosto de 1971, tudo estava pronto para começar.

Os estudantes

21 estudantes foram escolhidos a partir de uma lista de 70 alunos voluntários, e cada um deles deveria pagar U$ 15 dólares por dia para participar – algo equivalente a aproximadamente U$ 84 hoje (R$ 192). O grupo selecionado foi, então, dividido aleatoriamente em dois grupos: 11 fariam o papel de guardas e 10 de prisioneiros.

Os guardas

Os guardas foram divididos em três grupos menores e cada um deles trabalhava em turnos de 8 horas por dia. Todos deveriam cumprir o horário com um uniforme específico e óculos de sol espelhados. O professor também se manteve ativo no experimento. Ele fazia o papel de “supervisor” da prisão. Sua equipe encorajava os guardas a serem cruéis com os prisioneiros, mas sem cometer nenhum tipo de agressão física.

Ele instruía os guardas a criarem um tédio, um sentimento de frustração e medo nos alunos prisioneiros, de forma a tirar a liberdade deles e criar uma sensação de esmagadora impotência.

Para deixar o experimento ainda mais “autêntico”, Zimbardo contou com a ajuda de Carlo Prescott, um ex-presidiário que passou nada menos que 17 anos confinado. Ele deu algumas dicas e detalhes de práticas brutais e reais de uma prisão, que ao longo do experimento foram reproduzidas pelos alunos no papel de guardas.

Os prisioneiros

A princípio, os alunos que iam fazer os prisioneiros só sabiam que seriam “presos”. Mas, de uma maneira geral, eles acabaram vivendo uma experiência bastante diferente e completa, digamos assim. Todos eles foram detidos em suas próprias casas, sendo carregados e alertados sobre seus direitos legais – como se eles fossem realmente culpados por algum crime. Os vizinhos puderam ver cada um deles sendo algemados e levados por um carro aparentemente oficial. Depois, eles foram colocados em salas, onde permaneceram com os olhos vendados.

Stanford Prison Experiment Jessica Jane Clement ZANI 1_thumb[4]

Eventualmente, quando foram transportados para a prisão improvisada de Stanford, suas roupas fora tiradas e eles tiveram que ficar nus por um tempo no jardim da cela. Em seguida, cada um recebeu um uniforme com um número de identificação, seus tornozelos foram amarrados a uma corrente e seus cabelos foram cobertos com uma meia de nylon – para parecer que haviam sido raspados, como acontece em uma situação normal desse caso.

O experimento foi, como um todo, bastante inusitado e quase antiético. Mas vamos ver o que aconteceu antes de tirarmos mais conclusões precipitadas.

Primeiro dia

O primeiro dia da Prisão de Stanford deixou o professor idealizador da experiência um tanto desapontado. Ele achava que não ia acontecer nada, principalmente porque os alunos guardas tinham uma mentalidade anti-autoritária e não se sentiam bem em seus uniformes. Eles não haviam entrado no personagem. Segundo Dave Eshelman, um dos alunos no papel de guarda, a coisa toda estava muito chata. Até que ele tomou a decisão de realmente encarnar a figura do policial autoritário, da maneira mais cruel que conseguisse ser.

Do segundo ao sexto dia

E parece que era de uma atitude assim que o ambiente precisava para se tornar uma reprodução mais fiel da realidade. Zimbardo insistia com os outros guardas que eles precisavam ser durões o bastante para que o experimento desse certo. Aliás, para o professor, o experimento dependia disso. E assim, com essa constante motivação, as coisas começaram a acontecer.

Apesar de agressão física ter sido terminantemente proibida, os guardas começaram a torturar os prisioneiros, pulverizando extintores de incêndio nas celas e pisando em suas costas enquanto eles eram obrigados a fazer flexões. A tortura também incluía a privação do sono, confinamento solitário em um armário de zelador e tirar as roupas dos presos, deixando-os com apenas um saco sobre a cabeça.

Alguns dos alunos que estavam presos reagiram com emoções tão extremas a essa tortura que tiveram que deixar o experimento antes que ele de fato terminasse.

Um dos alunos na posição de guarda chegou a falar que estava lá fazendo seu próprio experimento. Ele queria saber até que ponto poderia ser agressivo e abusar dos colegas. E os outros “guardas” não fizeram nada para impedi-lo. O professor Zimbardo depois disse que não fez nada para conter aquele comportamento porque também havia incorporado seu papel de supervisor. E, como tal, deveria fazer vista grossa a tudo o que acontecia.

Como acabou

Uma ex-aluna, Christina Maslach, que na época tinha recém-começado a namorar o professor Zimbardo, resolveu passar na Prisão de Stanford para ver o experimento e ficou chocada com o que viu. Prisioneiros marchando para irem ao banheiro foi só umas das coisas que a deixou transtornada e emocionalmente abalada. O pior, segundo ela, era que ninguém estava vendo nada de errado acontecendo ali. Todos estavam completamente imersos no ambiente e em seus personagens.

Zimbardo primeiro ficou chocado com o depoimento dela, mas logo depois começou a sentir vergonha por não ter enxergado tudo aquilo. Ele, então, percebeu que tinha sido transformado pelo estudo e que deveria encerrar o experimento, cinco dias após ter começado.

Resultados

A Associação Americana de Psicologia realizou uma investigação em 1973 e determinou que nenhum dos padrões éticos foram violados na condução do estudo conhecido como Prisão de Stanford. No entanto, juntamente com outros abusos verificados em pesquisas anteriores, forneceu o ímpeto para os profissionais de saúde e psiquiatria, bem como o Congresso americano, para começar a regular a experimentação com seres humanos.

Até o professor Zimbardo concordou que “nenhuma pesquisa comportamental que coloca as pessoas nesse tipo de situação poderia ser feita novamente nos Estados Unidos”.

E você, o que acha? [Gizmodo]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (7 votos, média: 4,00 de 5)

8 comentários

  • E. Bragatto:

    Alguém já assistiu o filme, a órfã?
    pesquise na internet sobre a notícia que deu origem ao filme, que é totalmente contraria ao filme muito perversa e cruel ao ponto deu, não ter coragem para pesquisar sobre tal assunto e tem haver com o tema dessa pesquisa aí.

  • E. Bragatto:

    É como dar um poder a um presidente autoritário, ao passar dos anos ele começa subir o poder e comete crimes, mas o próprio povo enchegar isso… Me cheira a Rússia.

  • Acacio Junior:

    Tem um filme alemão (Der Experiment) que mostra um experimento semelhante, senão igual. Só não sei se é exatamente o mesmo experimento.

  • Felipe Oliveira:

    Bem parecido com o filme “The Experiment” ou “Detenção” aqui no Brasil.

    • Cesar Grossmann:

      Que foi um remake de um filme alemão que também se parece com o experimento original de Stanford. Aliás, Hollywood tem este costume de fazer remakes pasteurizados e com finais felizes para os filmes europeus. Incapacidade de ler legendas?

    • Guilherme Parisi Pazeto:

      Observe que neste filme o protagonista carrega uma bíblia, e no filme parece que a religião tinha um papel na deformação. Mentira anticristã

    • Cesar Grossmann:

      Pessoas más fazem coisas más e pessoas boas fazem coisas boas. A Religião é o único jeito de fazer pessoas boas fazerem coisas más.

  • Juliana7:

    Assustadora a mente humana!

Deixe seu comentário!