Este “capacete de Deus” pode induzir experiências místicas

Por , em 24.01.2018

Pesquisadores da Universidade de Amsterdã (Holanda) descobriram que um falso dispositivo místico induziu “experiências extraordinárias” em participantes, tendo um poderoso efeito placebo especialmente entre os que se descreveram como espirituais.

O objetivo

A equipe de pesquisa, liderada pelo cientista David Maij, queria estudar o papel do álcool no contexto dos rituais religiosos.

É bem conhecido que algumas substâncias – como o chá de ayahuasca – são usadas para induzir trances e experiências místicas em contextos religiosos, mas o efeito do álcool em rituais espirituais é pouco estudado.

Neste estudo, pessoas aleatórias foram convidadas a experimentar um “capacete místico” em um festival de música de três dias na Holanda. O capacete tinha sido originalmente projetado para estudar o efeito de uma estimulação cerebral fraca em experiências paranormais em um estudo de 2000.

Durante o experimento do festival, no entanto, os monitores não estavam conectados a nada. O capacete tinha fios presos à parte de trás de um dispositivo falso com uma luz cintilante, mas não estava ligado a qualquer gerador elétrico.

O experimento

Ao longo dos três dias de festival, 193 participantes testaram o capacete. Os pesquisadores disseram as pessoas que o dispositivo estimularia eletricamente seu cérebro para induzir uma experiência espiritual.

Os participantes começaram preenchendo questionários sobre sua religiosidade e espiritualidade, e tiveram seus níveis de álcool no sangue testados. Por fim, foram informados de que estavam conectados a equipamentos para monitorar sua saúde, como adesivos de frequência cardíaca.

Em seguida, seus olhos foram vendados, eles foram equipados com fones de ouvido com ruído de fundo e deixados com o capacete por 15 minutos. Caso sentissem algo “extraordinário” durante esse período, deveriam pressionar um botão.

Nada surpreendentemente, a maioria dos participantes relatou sentir algum tipo de experiência “extraordinária”.

Resultados

De longe, o tipo mais frequente de “experiência extraordinária” foi uma sensação corporal fraca, relatada por 78,5% dos participantes. A segunda mais comum foi uma sensação corporal forte, relatada por 30,1% das pessoas. Outras experiências incluíram alucinações e distorção do tempo e do espaço.

Alguns participantes relataram flutuar de sua cadeira, enquanto outros ouviram vozes.

Entre os testemunhos dados aos pesquisadores, estão relatos como: “Eu tive a sensação de que o capacete estava tomando controle sobre mim. Minha cabeça e meus olhos começaram a girar”; “Uma força magnética estava puxando minha cabeça para trás. Eu queria mover minha cabeça, mas era simplesmente impossível” e “Senti a presença de uma figura escura ao meu lado. Ela sussurrou algo no meu ouvido que eu não consegui entender”.

Cerca de 30,3% dos participantes relataram sentir-se distraídos ou céticos durante os procedimentos.

Álcool nada, espiritualidade tudo

A hipótese dos pesquisadores era de que os rituais espirituais e religiosos poderiam se beneficiar dos efeitos liberadores do álcool, uma vez que seu consumo pode facilitar interações místicas, ou permitir que as pessoas sejam menos críticas quando testemunham eventos possivelmente sobrenaturais.

No entanto, o álcool não pareceu fazer diferença neste estudo. 73,2% dos participantes haviam consumido álcool no dia que usaram o capacete, sendo que 16,8% consumiram álcool e pelo menos outro tipo de droga, 7,4% não consumiram álcool ou drogas e 2,6% utilizaram pelo menos um tipo de droga sem consumir álcool.

A falsa estimulação cerebral de fato provocou uma ampla gama de respostas, porém, e a espiritualidade, mas não a religiosidade, foi fortemente correlacionada com uma experiência “mística” bem-sucedida. Ou seja, as pessoas que se consideravam espirituais foram as mais propensas a ter alguma experiência extraordinária.

“Deixando de lado as limitações do estudo, não encontramos evidências de que a intoxicação alcoólica objetiva ou subjetiva aumenta a suscetibilidade das pessoas a uma manipulação baseada na expectativa, mas estudos futuros podem resolver esta questão usando doses mais elevadas de álcool em um contexto mais ecologicamente válido”, escreveram os pesquisadores em um artigo publicado na revista científica Religion, Brain and Behavior. [ScienceAlert]

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