Microdosagem de drogas psicodélicas associadas ao aumento da consciência e redução do neuroticismo

Por , em 3.04.2021

A microdosagem se tornou uma espécie de tendência de bem-estar nos últimos anos, ganhando força pelo mundo.

A prática envolve tomar uma dose baixa de uma droga psicodélica como cogumelos mágicos ou LSD para melhorar o desempenho ou reduzir o estresse e a ansiedade.

Embora os relatos anedóticos sejam convincentes, dúvidas significativas permanecem sobre como funciona a microdosagem e quanto dos benefícios relatados se devem a efeitos farmacológicos, em vez de crenças e expectativas dos participantes.

Um novo estudo acabou de ser publicado na sequência de dois estudos anteriores sobre microdosagem. O corpo de pesquisa nos diz que alguns benefícios da microdosagem podem ser comparados a outras atividades voltadas ao bem-estar, como yoga.

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Evidência existente

O estudo realizado na Austrália mostra que a proporção de adultos australianos que usaram psicodélicos durante a vida aumentou de 8% em 2001 para 10,9% em 2019.

Em um estudo anterior, os níveis de depressão e estresse diminuíram após um período de seis semanas de microdosagem. Além disso, os participantes relataram menos “divagações mentais”, o que pode sugerir que a microdosagem leva a um melhor desempenho cognitivo.

No entanto, este estudo também encontrou um aumento no neuroticismo. Pessoas com pontuação elevada nesta dimensão de personalidade experimentam emoções desagradáveis ​​com mais frequência e tendem a ser mais suscetíveis à depressão e à ansiedade. Esta foi uma descoberta intrigante e não pareceu se encaixar com o resto dos resultados.

Microdosagem x yoga

Um estudo recente recrutou 339 participantes que se envolveram em microdosagem, yoga, ambos ou nenhum.

Os praticantes de yoga relataram níveis mais elevados de estresse e ansiedade do que aqueles no grupo de microdosagem ou no grupo de controle (participantes que não fizeram yoga ou microdosagem). Enquanto isso, pessoas que haviam praticado microdosagem relataram níveis mais altos de depressão.

Não podemos dizer com certeza por que foram observados esses resultados, embora seja possível que pessoas com estresse e ansiedade tenham sido atraídas para a yoga, enquanto pessoas com depressão tendem mais para a microdosagem. Este estudo foi transversal, portanto os participantes foram observados em sua atividade de escolha, ao invés de serem designados a um grupo específico pelos cientistas.

No entanto o que é importante observar é que o grupo de yoga e o grupo de microdosagem registraram pontuações de bem-estar psicológico geral mais altas em comparação ao grupo de controle.

E, curiosamente, pessoas que praticaram yoga e microdosagem relataram níveis mais baixos de depressão, ansiedade e estresse. Isso sugere que a microdosagem e o yoga podem ter efeitos sinérgicos.

A nova pesquisa

Por meio de uma colaboração entre a Edith Cowan University, a Macquarie University e a University of Göttingen, na Alemanha, o estudo mais recente teve como objetivo estender essas descobertas e, em particular, tentar chegar ao fundo dos possíveis efeitos da microdosagem sobre o neuroticismo.

Foram recrutados 76 microdosadores experientes que completaram uma pesquisa antes de realizar um período de microdosagem. Cerca de 24 desses participantes concordaram em completar uma pesquisa de acompanhamento quatro semanas depois.

Os resultados foram publicados no Journal of Psychedelic Studies em março deste ano e descobriu que — como o grupo observou anteriormente — os 24 participantes experimentaram mudanças de personalidade após um período de microdosagem. Mas as mudanças não foram totalmente como os cientistas previam.

Desta vez, foi encontrada uma diminuição do neuroticismo e um aumento da conscienciosidade (pessoas que são muito conscienciosas tendem a ser diligentes e “implica o desejo de executar bem uma tarefa e levar a sério as obrigações para com os outros”). Curiosamente, uma quantidade maior de experiências com microdosagem foi associada a níveis mais baixos de neuroticismo entre todos os 76 participantes.

Esses resultados são mais consistentes com outras pesquisas sobre os efeitos relatados da microdosagem e psicodélicos em altas doses.

Então o que tudo isso significa?

As descobertas mais recentes sugerem que os efeitos positivos da microdosagem no bem-estar psicológico podem ser devidos a uma redução no neuroticismo. E as melhorias auto-relatadas no desempenho, que também foram observadas em pesquisas anteriores, podem ser devido ao aumento da conscienciosidade.

Quando consideradas em conjunto, as descobertas da pesquisa sugerem que práticas contemplativas, como yoga, podem ser particularmente úteis para microdosadores menos experientes no gerenciamento de efeitos colaterais negativos, como ansiedade.

No entanto, não é possível saber com certeza se as mudanças observadas são devido a microdosadores com expectativas positivas por causa de relatos anedóticos fabulosos que viram na mídia. Isso representa uma limitação importante da pesquisa.

Como algumas das drogas psicodélicas são ilegais (com exceção dos cogumelos mágicos P. cubensis no Brasil), é eticamente complexo fornecê-las aos participantes da pesquisa, geralmente os pesquisadores tem que observá-los enquanto ingerem suas próprias drogas. Portanto, outro desafio importante desta pesquisa é o fato de não termos como saber com certeza quais drogas as pessoas estão usando, pois elas mesmas não sabem exatamente (especialmente para o LSD).

Quais os próximos passos?

Apesar do exagero em torno da microdosagem, os resultados científicos até agora não são claros. Alguns estudos mostram que os microdosadores relatam benefícios significativos. Mas não está claro o quanto disso é impulsionado pelos efeitos e expectativas do placebo.

Para as pessoas que optam por microdose, também se envolver em práticas contemplativas, como yoga, pode mitigar alguns dos efeitos indesejados e levar a melhores resultados em geral. Algumas pessoas podem descobrir que chegam aos mesmos benefícios com as práticas contemplativas.

Como próximo passo, os pesquisadores afirmaram que estão usando neuroimagem para investigar o efeito da microdosagem no cérebro. [The Conversation]

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