Pesquisadoras brasileiras: assar a comida aumentou nossos cérebros

Por , em 24.10.2012

Um novo estudo das pesquisadoras brasileiras Karina Fonseca Azevedo e Suzana Herculano Houzel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, confirma que os seres humanos evoluíram cérebros maiores porque aprenderam a cozinhar seus alimentos.

A hipótese de que cozinhar nos tornou os humanos que somos hoje não é nova. Ela tem sido defendida pelo antropólogo Richard Wrangham há um tempo, que argumenta que cozinhar ofereceu um impulso nutricional que aumentou o tamanho do nosso cérebro e nos deu mais tempo para outras atividades, como a caça e a vida social. Estas atividades, por sua vez, aumentaram ainda mais nossa inteligência.

O estudo recente das cientistas brasileiras vai um pouco além para provar essa teoria. “Outros grupos já haviam indicado que o cérebro custa caro em termos de energia e sugerido que esse custo teria influenciado nossa história evolutiva, mas ninguém havia ainda determinado se esse custo era de fato relevante e limitante em termos fisiológicos”, explicou Suzana, em entrevista à Folha de São Paulo.

Fisiologia x evolução

Entre os grandes primatas, parece haver uma oposição entre o desenvolvimento corporal e o cerebral. Os gorilas, por exemplo, são os maiores primatas do mundo – um macho da espécie pode ser até três vezes maior do que um homem e, ainda assim, seus cérebros são menores e tem um terço da quantia de neurônios do que a encontrada no cérebro humano.

De acordo com os especialistas, nossas habilidades mais sofisticadas provavelmente não são o resultado de um “cérebro supostamente maior dado o tamanho do nosso corpo”, mas sim do número absoluto de neurônios: existem cerca de 86 bilhões no cérebro humano, contra uma média de 33 bilhões nos gorilas, por exemplo.

Mas o nosso cérebro cheio de neurônios gasta muita energia. Apesar de equivaler a 2% da nossa massa corporal, ele consome 20% da energia do nosso corpo. A energia necessária para manter milhões de neurônios funcionando é alta e, em alguns casos, vale mais a pena gastá-la em outros órgãos.

As pesquisadoras fizeram uma contagem do número de neurônios nos cérebros de diversos primatas, e os resultados mostraram que a única maneira pela qual os primeiros seres humanos teriam conseguido evoluir cérebros maiores (e mais neurônios) era se encontrassem uma maneira de obter mais energia do alimento que comiam, ou seja, se o cozinhassem.

Cozinhar o alimento faz com que ele quebre de forma semelhante à digestão. Assim, os animais que comem alimentos cozidos não tem que gastar tanta energia digerindo-o como os animais que os comem crus.

Também, aprender a cozinhar o alimento permitiu que os primeiros humanos tivessem mais tempo para se envolver em outras atividades além de comer, o que eventualmente levou ao desenvolvimento de cérebros maiores.

A pesquisa

As cientistas compararam a quantidade e os tipos de alimentos que diversos primatas consomem com a quantidade de energia necessária para abastecer seus cérebros. Elas também contaram os neurônios nos cérebros das diferentes espécies, e calcularam quanto tempo cada uma investia na alimentação para manter seus tamanhos cerebrais.

Os gorilas gastam, em média, 8,8 horas por dia comendo, os orangotangos 7,8 horas e os chimpanzés 7,3. Nesse ritmo, os humanos precisariam comer quase nove horas e meia todos os dias se não cozinhassem seus alimentos.

Como resultado, as pesquisadoras determinaram que o tamanho do cérebro de um animal está diretamente relacionado com a quantidade de neurônios que ele tem. Por sua vez, o número de neurônios em um cérebro é diretamente proporcional ao número de calorias necessárias para mantê-lo.

Aplicando essa descoberta aos primeiros humanos (Paranthropus Boise, Homo habilis e Australopithecus afarensis), Karina e Suzana calcularam que cada um teria que gastar cerca de sete horas por dia comendo apenas para manter o tamanho do seu cérebro.

Elas sugerem que, ao invés disso, o homem primitivo aprendeu a cozinhar, o que resultou em muito menos tempo dedicado a comer, e muito mais tempo para socializar e se engajar em outras atividades que, ao longo do tempo, levaram a tamanhos maiores de cérebro, alimentados pela comida cozida.

Os ancestrais dos humanos modernos que surgiram há 1,8 milhão de anos foram provavelmente os responsáveis por dominar o fogo e cozinhar os primeiros pedaços de carne e vegetais que antes eram consumidos crus.

Com o cozimento, o homem se tornou capaz de digerir mais calorias a partir da mesma quantidade de comida, podendo gastar esse “excesso” de energia no desenvolvimento de novos neurônios. Isso, mais as outras atividades que passamos a exercer durante o dia, criaram uma pressão evolutiva levou ao aumento gradual do nosso cérebro.[MedicalXpress, PrimeiraEdicao, Abril, WorldScience, POPSCI]

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5 comentários

  • D. R.:

    Mas já não saiu pesquisas demonstrando que tamanho (do cérebro) não é ‘documento’?

    Se tamanho do cérebro fosse sinal de inteligência, com certeza, as baleias (com cérebros de cerca 6 a 8 Kg) e os elefantes (com cérebros de cerca de 7 Kg) é que teriam dominado planeta.

    http://super.abril.com.br/mundo-animal/baleias-tem-cerebro-tao-grande-447566.shtml

    Será que o que mais importa para a inteligência é a densidade do cérebro?

    Ou, então, a quantidade de alguma substância neurotransmissora no cérebro?

    Ou, ainda, a quantidade de energia em relação ao resto do corpo que ele consome?

    Por acaso, existe algum outro animal com número de neurônios maior do que o dos humanos?

    Enfim, o que será que realmente existe dentro do cérebro do ser humano que o faz tão diferente dos outros animais; fazendo com que seja o único capaz de construir uma civilização tão avançada quanto a nossa?

  • Daniel Caparros:

    E como entra os orientais nesse meio? chineses e japoneses comem muita comida crua (peixes na maioria)

    • Sacola Man:

      Não faz sentido isso que você falou.
      O tal do peixe cru não é a base da dieta deles, é apenas uma iguaria que eles comem de vez em quando.
      Normalmente eles comeme muito arroz, muita sopa, carnes (de porco principalmente)…

  • Rhaoni Manissaua:

    O estudo foi sobre esportes que geram impactos na cabeça. Do jeito que você escreveu deixou a entender que atletas musculosos são burros, o que não corresponde a realidade.

    Link para uma publicação do estudo:
    http://www.webmd.com/fitness-exercise/news/20120516/for-some-athletes-head-blows-may-hamper-learning

    22% dos atletas que realizam esportes de contato (que geram impactos na cabeça, como futebol americano e hockey) apresetaram uma pontuação realmente menor. Mas quando analisaram ATLETAS QUE NÃO EXECUTAM ESPORTES DE CONTATO a taxa foi de APENAS 4%, o que está dentro da variação normal.

    Cuidado com as generalizações amigo ;]

  • Orlando Rios:

    Pensar emagrece.
    Isto eu sei desde menino, pois qdo uso muito meu cerebro em maratonas intelectuais que adoro, a fome bate e vem com força.

    Tbm gosto muito de correr nos fins de semanas e levar um problema intelectual pesado para resolver. As ideias afloram em profusão e em grande qualidade. Talvez devido ao excessivo fluxo de sangue corporal, mas o problema maior se torna em se concentrar no assunto em questão pois o cerebro nestes momentos “desvia” e se desconcentra.

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