Estudo de caso: como Chicago conseguiu reduzir índices de violência

Por , em 28.07.2018

Nas décadas de 1980 e 90, o epidemiologista estadunidense Gary Slutkin trabalhou em campos de refugiados na Somália. Sua função era conter a disseminação de doenças como tuberculose e cólera. No final dos anos 1990, ele voltou para Chicago para um merecido descanso.

“Eu queria férias de todas essas epidemias”, diz ele ao site Mosaic Science. Mas o que ele viu ao voltar para casa foi um problema muito semelhante com o que tinha visto na Somália, embora diferente: índices de homicídio nas alturas. Foi aí que ele começou a traçar um paralelo entre como conter o avanço da tuberculose e como conter a violência.

Para impedir que doenças infecciosas se espalhem, pesquisadores devem analisar atentamente dados como os locais em que as doenças estão presentes e número de infectados. Assim, eles podem se concentrar em conter a disseminação da doença nessas áreas. Muitas vezes nesses locais há problemas estruturais gigantescos. Enquanto essas necessárias mudanças estruturais não são realizadas nesta região, mudanças de comportamento da população são exigidas.

Por exemplo: a diarreia é em grande parte causada por falta de rede de esgotos e de fornecimento de água tratada. Instalar tais sistemas leva tempo, mas enquanto isso milhares de vidas podem ser salvas ao ensinar as pessoas como fazer soro caseiro para se reidratar.

Violência pode ser combatida como a gripe

O médico Gary Slutkin em TED Talk sobre violência


Como saber se alguém tem chances de cometer crimes violentos? O quesito mais frequente para isso é que esta pessoa já tenha sido vítima de violência anteriormente. Este padrão é muito semelhante à transmissão da gripe: uma pessoa tem grandes chances de pegar gripe se tiver contato direto com alguém gripado.

Independente do tipo de doença infecciosa, os passos para conter epidemias são os mesmos: é preciso gerar dados, estudar as estatísticas e mudar comportamentos.

E para mudar comportamentos – sejam eles tomar soro caseiro, evitar água suja ou usar camisinha –, mensageiros confiáveis são essenciais. “Em todas essas epidemias nós usamos trabalhadores do mesmo grupo da população afetada”, explica Slutkin. “Refugiados da Somália conversam com refugiados com tuberculose ou cólera; trabalhadores do sexo conversam com trabalhadores do sexo com Aids; mães conversam com mães sobre amamentação e como lidar com diarreia”.

Chocado com a violência em Chicago, Slutkin mergulhou em mapas e dados sobre a violência com armas de fogo na cidade. Conforme ele fazia isso, ele via que esses mapas da violência na região eram muito semelhantes aos mapas de doenças que ele estava muito acostumado a ler. “As curvas epidêmicas são as mesmas, o aglomerado de casos. Na verdade, um evento leva a outro, e isso é a definição de um processo contagioso. Gripe causa mais gripe, resfriados causam mais resfriados, violência causa mais violência”, afirma ele.

O mapa da esquerda traz informações sobre a violência em Chicago, enquanto o da direita tem dados sobre a cólera em Bangladesh

Esse tipo de pensamento era radicalmente oposto à principal forma de ver a violência na época, que era focada primariamente na aplicação das leis. A ideia popular era que “essas pessoas são ‘ruins’ e nós sabemos o que fazer com elas, que é puni-las. Isso é fundamentalmente uma falta de conhecimento sobre o ser humano. Um comportamento é criado com base em modelos e cópia”, explica o médico.

O projeto piloto em Chicago


A cidade de Chicago é racialmente segregada. Os bairros da região sul têm uma população de 95% de pessoas afro-descendentes, enquanto outras regiões têm 95% da população de mexicanos. A maior parte dessas áreas é privada socioeconomicamente, e tem sofrido com a negligência do governo. As taxas de homicídio ali chegam a ser 10 vezes mais altas que em áreas mais influentes, que por sua vez são predominantemente formadas por uma população branca.

O médico destaca, porém, que os dados observados no mapa da violência têm menos a ver com raça e mais a ver com padrões de comportamento. Normalmente os problemas vêm de uma parte pequena da população, geralmente de homens jovens. Ele argumenta que vidas podem ser salvas ao mudar comportamentos de indivíduos e alterar a norma de grupos.

Com todas essas informações e ideias, Slutkin lançou um projeto piloto no bairro West Garfield, em Chicago. Este programa replicava os mesmos passos tomados pela Organização Mundial da Saúde para controlar epidemias de cólera, tuberculose ou HIV: interromper a transmissão, prevenir a disseminação e alterar normas de grupos.

No primeiro ano, houve uma queda de 67% em homicídios. Com esses ótimos resultados, outros bairros entraram no programa. Em todos os locais em que foi aplicado, o projeto conseguiu reduzir os homicídios em pelo menos 40%. Este programa passou a ser replicado em outras cidades nos EUA e na Europa.

Este trabalho hoje se chama Cure Violence, e atua em 13 bairros de Chicago, na cidade de Nova York, em Baltimore e Los Angeles, na Inglaterra, Canadá, México, Honduras, Iraque, Argentina e África do Sul.

No Brasil, duas cidades foram avaliadas em 2015 para entrar no programa: Rio de Janeiro e Recife. Infelizmente este primeiro contato não resultou em nenhuma ação. Segundo informações da Cure Violence, outras duas cidades brasileiras, Pelotas e Porto Alegre, devem ser avaliadas em breve.

Apesar de haver críticas sobre as estatísticas da Cure Violence, vários estudos acadêmicos já comprovaram que o projeto é bastante eficiente. Um estudo de 2009 da Universidade de Northwestern (EUA) apontou que o crime diminuiu em todos os bairros examinados antes que o programa tivesse início nessas regiões. Já um estudo de 2012 da Escola de Saúde Pública da Johns Hopkins (EUA) analisou quatro partes da cidade de Baltimore envolvidas no programa, e observou que o número de homicídios e troca de tiros diminuiu em todas as quatro.

Quatro bairros da cidade de San Pedro Sula (Honduras) fizeram parte do projeto e observaram uma queda drástica no número de tiroteios. No primeiro semestre de 2014, a cidade contou 98 trocas de tiros, enquanto no mesmo período do ano seguinte aconteceram apenas 12 tiroteios.

Violência doméstica mata muito, muito mais do que guerras

Como funciona

Demetrius Cole, de 43 anos, passou 12 anos na prisão. Ele cresceu em uma área de Chicago afetada pela violência, e apesar de ter uma família estável e fora das gangues, ele se envolveu em uma grande confusão aos 19 anos. Tudo aconteceu quando um amigo próximo comprou um carro novo e outros garotos do bairro tentaram roubar o carro e atiraram no amigo de Cole. Ele não parou para pensar e se vingou. Enquanto o amigo saiu paraplégico, ele foi para a prisão.

Desde outubro de 2017 ele trabalha para a Cure Violence no sul de Chicago. Ele encontra pessoas na mesma situação em que ele já esteve e tenta convencê-los a parar e interromper o ciclo de vinganças. Sua função na organização é chamada de “interruptor de violência”.

Logo depois que trocas de tiros acontecem, Cole conversa com os envolvidos para prevenir retaliações e acalmar a todos. Para isso, os interruptores de violência usam várias técnicas emprestadas da terapia cognitivo-comportamental. Uma delas é a “sombra construtiva”, que é basicamente repetir o que a pessoa disse com palavras diferentes para que ela escute o próprio “eco” e veja a situação com outros olhos. Outra técnica é atuar como uma babá e simplesmente fazer companhia para a pessoa até que ela se acalme.

O mais importante de tudo é enfatizar as consequências dos atos da pessoa, caso ela esteja pensando em ir atrás de vingança. “Eu tento mostrar para essas pessoas que é um beco sem saída. Eu digo que só tem duas formas disso terminar. Você vai para a prisão ou você vai morrer”, explica Cole.

Para tudo isso ser eficiente, a credibilidade dos interruptores de violência é muito importante. Muitos deles já passaram por longos períodos na prisão e têm um relacionamento próximo com a comunidade local.

No bairro de Chicago, o centro emprega 11 interruptores, que passam cerca de seis das oito horas do turno do trabalho andando pelo bairro, conversando com donos de pequenos comércios, com os moradores e tentando estabelecer laços de confiança com os jovens. O programa dura entre seis meses e dois anos, e a equipe tenta estabelecer mudanças de comportamento para mudar as atitudes relacionadas à violência. Eles também ajudam as pessoas com emprego, educação ou terapia.

Mais barato que manter prisões


Sluktin enfatiza que este modelo reduz homicídios rapidamente e custa menos que manter prisões.

Mesmo assim, o médico lamenta que projetos desse tipo recebem pouco financiamento público. “Apesar de termos quantidades massivas de dados, é difícil conseguir fundos para isso. Já as prisões não têm bons dados, mas são financiadas. Esta é a única epidemia de saúde que não recebe atenção do departamento de saúde”, lamenta ele. [BBC, Cure Violence, TED Talks, Mosaic Science]

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