Ao lado da matéria escura, o ânus parece ser um grande mistério para a ciência

Por , em 25.03.2015

Cientistas da Noruega concluíram a primeira revisão abrangente sobre a função e origem do ânus, porque – acredite ou não – esse é um órgão relativamente pouco estudado, que intriga pesquisadores de todo o mundo.

Os mistérios ainda são muitos, mas eles descobriram algumas coisas, como o fato de que diferentes espécies evoluíram ânuses de forma separada ao longo de milhões de anos, variando de órgãos mais complexos a outros mais simples, com algo multifuncional no meio.

Os muitos ânus do reino animal

Tudo começa com o intestino. Criaturas complexas, tais como nós, evoluíram um intestino que fica entre duas aberturas diferentes no sistema digestivo, o que significa que podemos comer alguma coisa, e depois comer outra coisa enquanto uma parte diferente de nós está digerindo essa primeira refeição.

Mas, apesar dessa vantagem clara, criaturas simples como pepinos do mar, corais e tênias evoluíram um canal em forma de tubo que atua como uma abertura para alimentos a serem digeridos e depois enviados de volta para fora. Multifuncional.

E depois há as espécies que os cientistas suspeitam que só têm ânus quando precisam deles. A equipe os chama de “ânus transitórios” e diz, que enquanto ninguém realmente viu uma criatura usando um desses ânus para defecar, a pesquisa em dois tipos de vermes revelou uma pequena abertura no intestino que aparece e desaparece de quando em quando.

Uma espécie de escorpião vai ainda mais longe ao se livrar de seu ânus quando precisa. Ele pode quebrar sua cauda para evitar ser pego por um predador, como um lagarto, mas arranca também seu próprio ânus no processo. Como essa cauda nunca volta a crescer, o escorpião nunca pode defecar novamente, e seu abdômen incha com a acumulação de cocô.

Para aumentar a confusão, algumas espécies que evoluíram para ter ânus o perderam de novo ao longo de milhões de anos, o que não faz muito sentido.

Genes importantes

Este conjunto complexo de informações – de espécies que têm ânus, outras que não têm e outras ainda que costumavam ter – bagunça a cabeça dos pesquisadores, que têm se esforçado para responder à questão de como a nossa versão de ânus realmente evoluiu.

Ainda assim, a equipe, liderada pelo biólogo molecular Andreas Hejnol, conseguiu identificar dois genes em particular que são responsáveis pelo desenvolvimento do ânus em quase todas as espécies de animais na Terra – um chamado “brachyury” e os genes caudais CDX. Agora, os cientistas sabem que, se você expressar esses genes nos tecidos que cercam a área, você vai desenvolver um ânus. Aqueles que possuem ânus transitórios talvez possam “ligar/desligar” a expressão destes genes conforme necessário.

Enquanto os pesquisadores dizem que a origem do ânus ainda não está clara, eles suspeitam que o órgão evoluiu de forma independente através de muitos grupos diferentes de espécies, o que explica por que existem tantas versões de ânus.

Origem obscura

Uma hipótese a se investigar melhor é que a evolução do ânus pode ser ligada a um órgão reprodutor masculino conhecido como gonóporo, que se encontra em um grupo de animais semelhantes a vermes muito primitivos, chamados de Acoela.

Eles não têm intestino, nem ânus ou até mesmo sistemas circulatórios ou respiratórios. Mas eles criam esperma, que é liberado através de uma abertura no corpo chamada de gonóporo. Os estudos genéticos e moleculares de Hejnol e seus colegas sugerem que o desenvolvimento do gonóporo pode estar ligado à origem de uma outra abertura: o ânus.

Um cenário possível é que o sistema do órgão reprodutor masculino foi o primeiro a se conectar com o intestino em criaturas mais complexas nos primeiros estágios de sua evolução, e isso formou uma cloaca – uma variação do ânus vista em muitos pássaros e répteis até hoje.

“Isso proporciona uma hipótese alternativa, que ligaria primeiro o sistema reprodutivo masculino com o intestino, e mais tarde com o sistema reprodutivo feminino”, concluem os pesquisadores.

Isso, naturalmente, torna tudo um pouco controverso, já que não só espécies diferentes, como os sexos diferentes evoluíram o ânus a taxas diferentes. Em resumo, o órgão continua sendo um enigma muito estranho. [ScienceAlert]

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