Você é racional? Descubra com esse teste rápido

Por , em 29.07.2015

Talvez a mensagem mais perturbadora que o Nobel de Economia Daniel Kahneman traz no seu livro “Rápido e Devagar – Duas Formas de Pensar” é que tornar as pessoas conscientes de seus preconceitos irracionais sistemáticos é altamente ineficaz como uma cura para o pensamento irracional. O próprio pesquisador descobriu que ele cometia os mesmos erros repetidamente, mesmo depois de realizar estudos em que pesquisou como as pessoas cometem erros específicos de raciocínio lógico.

O teste abaixo, elaborado a partir do mesmo livro, está aqui para colocar seus processos de pensamento à prova. Será que você é mesmo tão racional quanto pensa?

Pegue um bloco de notas – real ou virtual – para registrar suas respostas.

O quiz

Pergunta 1: Em um jantar neste fim de semana, um amigo lhe apresenta para uma mulher chamada Genevieve. Ele diz que Genevieve é recém-formada na Bryn Mawr College com um bacharelado em filosofia, onde era ativista voluntária em um grupo de defesa da saúde das mulheres e editou uma revista literária. Você quer falar com Genevieve sobre [Georg] Hegel, o tema da tese dela, mas seu amigo chega e lhe pede para classificar as seguintes afirmações sobre Genevieve em ordem de probabilidade:

(1) Genevieve é ​​uma feminista.

(2) Genevieve está à procura de um emprego como agente sanitarista.

(3) Genevieve é ​​uma feminista que está à procura de um emprego como agente sanitarista.

Dado o que você sabe sobre Genevieve, classifique as declarações de mais a menos prováveis.

Pergunta 2: Mais tarde naquela noite, seu amigo lhe apresenta um baralho de cartas que possuem um número de um lado e uma letra do outro. Ele dá a você quatro cartas do baralho. Abaixo está o que você vê olhando para o lado das cartas que está virado para cima:

9 2 J U

Seu amigo lhe pergunta quais precisará virar a fim de determinar se a seguinte regra vale para o baralho todo (assumindo que estas quatro cartas representam o resto do baralho): “Se uma vogal está impressa de um lado da carta, então, um número par está impresso no outro lado”.

Quais cartas você terá de virar para testar esta regra?

Pergunta 3: Genevieve te oferece uma aposta. “Jogue essa moeda”, diz ela. “Se der cara, eu te dou R$ 200. Se der coroa, você me paga R$ 100”.

Você aceita a aposta?

As respostas

Pergunta 1: Este é conhecido como “o problema de Linda” ou a “conjunção da falácia” e testa o quão bem os indivíduos raciocinam usando a teoria da probabilidade. Em um estudo de 1983, feito por Kahneman e Amos Tversky, 85% dos indivíduos o entenderam errado. A sua resposta também está incorreta se você classificou declaração 3 na primeira ou segunda posição. A lógica dita que 3 é o cenário menos provável: é sempre menos provável que duas condições sejam verdadeiras (Genevieve ser uma feminista ardente + Genevieve estar à procura de um emprego como agente sanitarista) do que apenas uma delas seja verdadeira. Se você acertou essa – não importa se você colocou 1 ou 2 em primeiro lugar, apenas que você tenha classificado o 3 em último – parabéns. Se não, você não está nessa sozinho: apenas 15% dos alunos da escola de negócios de Stanford, que receberam formação em teoria da probabilidade, acertaram.

Pergunta 2: A questão do cartão, primeiro feita por Peter Wason em 1966, desafia suas habilidades de raciocínio dedutivo. Em seu livro de 1977, Wason (com o coautor Philip Johnson-Laird) relata que apenas 5% dos indivíduos responderam perguntas como esta corretamente. O erro mais comum é virar as cartas do U e do 2 – algo que vem da regra específica de uma relação entre vogais e números pares. Você realmente precisa virar o cartão com o U para checar se há um número par do outro lado (como a regra diz). Mas você não precisa ver o que está do outro lado do cartão 2 – a regra não especifica que os números pares estão sempre junto com vogais, apenas que deve haver um número par em frente a uma vogal. Você precisa virar a carta do 9, no entanto: se houver uma vogal do outro lado, você pode afirmar que a regra é falsa. Portanto, a resposta é que você deve virar exatamente duas cartas: a U e a 9.

Pergunta 3: A questão da aposta não tem uma resposta certa ou errada per se, mas destaca o que Kahneman chama de “aversão à perda” irracional da qual todos parecem sofrer, pelo menos até certo ponto. Tecnicamente falando, qualquer aposta na qual a recompensa é maior do que a perda, dada uma chance igual em qualquer resultado, é boa. E a perspectiva de ganhar R$ 200 é uma recompensa que facilmente supera os R$ 100 você teria que pagar a Genevieve caso perdesse. Assumindo que a perda de R$ 100 é tolerável – você não precisa do dinheiro para pagar o aluguel, por exemplo – você deveria, como uma pessoa racional, aceitar a aposta. O problema do mundo real com aversão à perda não é que você vai deixar passar grandes apostas como esta – Genevieve teria que ser louca para oferecê-la, na verdade. A aversão à perda acaba custando caro se você passar muito tempo protegendo seus bens preciosos quando você deveria dedicar tanto tempo quanto à prospecção de novos ganhos.

Interpretando os resultados

Então, como você se saiu? Se você evitou os erros comuns de raciocínio que levaram a grande maioria dos indivíduos a fazer escolhas irracionais em experimentos repetidos, você pode se vangloriar um pouco.

Se você respondeu uma ou mais dessas perguntas incorretamente – e as chances disto ter acontecido são muito altas – a pergunta é o que isso diz sobre você individualmente e sobre a humanidade em larga escala. Experiências como essas desmentem a fé dos filósofos e cientistas sociais na racionalidade humana basal? Estes resultados mostram que apenas uma fatia selecionada da humanidade (entre 5 e 15%, dependendo do estudo) se qualifica para receber o título de “racional”?

Uma maneira de sair dessa bagunça é negar que qualquer uma dessas experiências consigam realmente medir a racionalidade. Porém, se nós procuramos separar a racionalidade de lógica dedutiva e teoria da probabilidade, nosso conceito de razão fica confuso. A racionalidade pode ser mais do que lógica por si só, mas sem a lógica em sua base, não sobra só confusão?

Em seu livro de 1993, “A Natureza da Racionalidade”, Robert Nozick esboçou um conceito de “utilidade simbólica” no qual a irracionalidade racional torna-se uma realidade potencial, em vez de um paradoxo. “Produzindo evidentes consequências ruins, essas ações e sintomas aparentemente irracionais têm um significado simbólico que não é óbvio, pois eles simbolizam outra coisa [que] tem alguma utilidade ou valor para a pessoa”.

Assim, recusar a aposta de Genevieve pode simbolizar sua falta de ambição, o seu carácter conservador ou seu orgulho em proteger os ativos que você trabalhou duro para ganhar. E você pode se beneficiar de várias maneiras de ter uma ou mais destas autoconcepções. A ideia de Nozick levanta uma série de dúvidas e confusões intelectuais, mas pelo menos ele aponta um caminho em torno da negação confortável de que os seres humanos podem pensar corretamente – por mais deliciosa que essa ideia pareça ser. [Big Think]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (3 votos, média: 4,67 de 5)

3 comentários

Deixe seu comentário!