A Nasa alimentou baratas com pedras lunares (e as coisas ficaram ainda mais estranhas)

Por , em 28.07.2019

As comemorações pelos 50 anos da missão Apollo 11, quando a humanidade pisou na lua pela primeira vez, estão trazendo à tona todo tipo de histórias. Uma das mais estranhas foi divulgada na última semana pelo site Space.com: a Agência Espacial Americana (Nasa) alimentou baratas com rochas lunares – e as esquisitices não param por aí.

Segundo o site, a Nasa ainda tem a maioria das pedras que os astronautas trouxeram da Lua, mas uma pequena porção delas foi usada em uma série de experimentos que garantiram que seria seguro manusear esses fragmentos. Além de se certificar de que não haviam germes perigosos na superfície lunar, os cientistas precisavam confirmar que estas amostras não seriam uma ameaça para a vida terrestre.

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“Nós tínhamos que provar que não iríamos contaminar não apenas os seres humanos, mas que não iríamos contaminar os peixes, pássaros, animais, plantas”, disse o encarregado das operações médicas durante o programa Apollo, Charles Berry, em uma entrevista para os arquivos da Nasa de 1999. “Nós tivemos que provar que não iríamos afetar qualquer parte da biosfera da Terra”. A Nasa alimentou baratas com pedras lunares (e as coisas ficaram ainda mais estranhas)

Experimentos lunares

Vários tipos de providências foram tomadas para diminuir os riscos envolvidos em viajar até um mundo desconhecido, com um ambiente totalmente diferente, e voltar ao local original sem qualquer tipo de garantia de que não haveria algum passageiro indesejado. Os próprios astronautas passaram por um período de quarentena quando retornaram à Terra. Contando a partir do momento que Neil Armstrong e Buzz Aldrin deixaram a Lua, eles passaram três semanas isolados de todos os humanos, exceto os 20 pesquisadores que estavam monitorando seus status.

Um grupo de ratos também fez parte dos estudos: eles receberam injeções de material lunar e foram tão cuidadosamente monitorados quanto os astronautas, que também estavam atentos ao estado dos camundongos. “Eles sempre queriam saber como os roedores estavam”, contou em entrevista ao Space.com a chefe da Divisão de Pesquisa Biomédica e Ciências Ambientais da Nasa, Judith Hayes, que costumava trabalhar no prédio que abrigava a unidade de quarentena. “Se os roedores estivessem bem, então era provável que eles fossem liberados na data prevista. Se os roedores não estivessem bem, era provável que eles fossem examinados muito mais cuidadosamente e por mais tempo”.

No entanto, esse monitoramento não era tão simples quanto checar se os astronautas e os ratos estavam tossindo ou tinham alergias. Um documento da época destacava que os autores não sabiam quanto das amostras de pedras lunares seriam necessárias para os testes e descrevia o processo como navegar em um “mar de ignorância”. Para navegar esse mar, a agência escolheu representantes de várias espécies. Além dos ratos, foram usados codornas, peixes, camarões e ostras, moscas, baratas e mais.

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Metade poeira lunar utilizada foi esterilizada e a outra metade não. As amostras usadas foram usadas de formas diferentes de acordo com as espécies: ratos e codornas receberam injeções, as amostras dos insetos foram misturadas a sua comida e, no caso dos animais aquáticos, o material lunar foi misturado à água em que eles viviam.

Depois de observá-los durante um mês, os animais se saíram relativamente bem. As baratas que comeram poeira lunar – de acordo com a sua reputação – se saíram bem apesar de sua dieta exótica, assim como quase todos as outras cobaias. Só houve uma exceção: em água lunar ou não, muitas das ostras morreram. Os cientistas, no entanto, creditaram isso ao fato dos testes terem sido feitos durante a temporada de reprodução.

“Os resultados desses testes não forneceram nenhuma informação que indicasse que as amostras lunares trazidas pela missão Apollo 11 contivessem agentes replicantes perigosos para a vida na Terra”, concluíram os autores de um artigo que relata os testes sobre “animais inferiores” publicado na revista “Science” um ano depois da Apollo 11.

A Nasa também testou plantas para avaliar reações adversas ao material lunar. Os experimentos incluíram cultivar sementes em solo lunar e testaram tomate, tabaco, repolho, cebola e samambaia. Diferentemente dos testes com animais, algumas das plantas cresceram melhor no regolito – camada solta de material heterogêneo e superficial que cobre uma rocha sólida e o tipo de material lunar em que as sementes foram plantadas – do que na areia que os pesquisadores usaram como parâmetro de comparação.

Procurando por seres vivos

Experimentos semelhantes também foram executados com amostras das missões Apollo 12 e 14 e, no total, a Nasa testou 15 espécies diferentes de animais. Simultaneamente, o material lunar também foi testado por si só em placas de Petri para ver se qualquer microorganismo se desenvolvia. “[Os cientistas] não encontraram nenhum crescimento microbiano nas amostras lunares e eles não tinham nenhum microorganismo que eles, ao menos inicialmente, atribuíam a qualquer fonte extraterrestre ou lunar”, relatou Hayes.

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Como os astronautas não mostraram sinais de infecções e os ratos sobreviveram os exames, a Nasa se convenceu que o regolito lunar era inofensivo. Depois da Apollo 14, em 1971, a agência encerrou os testes com animais e a política de quarentena para os astronautas voltando da lua e também para os técnicos de laboratório que poderiam ter entrado em contato com as rochas lunares.

“Os cientistas planetários estavam infelizes com a quantidade de material que consideravam desperdiçada nesses experimentos e com o modo em que a quarentena diminuía o foco na pesquisa planetária”, explicou um relatório da agência. [Space.com, Nasa]

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