Surpresa: pessoas com sobrepeso vivem mais do que aquelas com peso normal

Por , em 19.05.2016

Um estudo que durou quase quatro décadas e envolveu mais de 100.000 adultos na Dinamarca descobriu que aqueles com um índice de massa corporal (ou IMC) indicando “sobrepeso” eram mais propensos a viver mais tempo do que aqueles nas categorias “saudável”, “abaixo do peso” e “obesos”.

Os resultados levantam questões sobre um dos pressupostos fundamentais que temos sobre a nossa saúde atualmente – o de que um IMC “saudável” é igual a uma vida mais longa. E não é a primeira vez – uma série de estudos no passado descobriu que alguns quilinhos a mais pode não ser tão ruim, no final das contas.

Antes de entrar em qualquer um dos detalhes, é importante ressaltar que estes resultados não são, definitivamente, uma desculpa para cancelar seus exercícios e tomar sorvete no café da manhã. Ninguém está argumentando que renunciar aos exercícios e comer porcaria é a sua melhor chance de viver uma vida longa e feliz.

O que estes resultados estão sugerindo é que precisamos repensar a nossa definição do que o termo “sobrepeso” realmente significa.

Análise complexa

O estudo, liderado pelo bioquímico clínico Børge Nordestgaard, do Hospital Universitário de Copenhague, analisou os dados médicos de mais de 100.000 adultos na Dinamarca, recrutados em três grupos com cerca de 15 anos de diferença.

Eles descobriram que, durante as quatro décadas de análise – de 1976 a 2013 -, o IMC associado com menor risco de morte aumentou de 23,7 para 27.

Alguém com o IMC entre 18,5 e 24,9 tem o peso considerado normal ou “saudável”, e se o IMC está entre 25 e 29,9, a pessoa é considerada com “sobrepeso”. Um IMC de 30 ou mais é classificado como “obeso”.

O estudo também descobriu que aqueles na categoria “obeso” acabaram tendo o mesmo risco de morte que os da categoria “normal”, mesmo quando fatores como idade, sexo, histórico familiar de doenças, status socioeconômico e tabagismo foram levados em conta.

Isto significa que, nos últimos 40 anos, a categoria de peso associada com a vida útil mais longa passou de “normal” diretamente para a de “sobrepeso”, o que sugere que ou a nossa classificação para o peso “normal” está errada, ou a ligação entre o nosso peso e nossa saúde em geral é muito mais complicada do que pensávamos.

“O IMC como um número por si só pode não ser suficiente para prever a saúde e risco de morte”, classifica o médico Rexford Ahima, da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, que não esteve envolvido no estudo, em entrevista à Science News. “(O IMC) Tem que ser analisado dentro do contexto”.

Novos parâmetros

Críticas ao IMC como sendo a referência para um peso saudável vêm sendo fermentadas há algum tempo, com a estrela da NFL Tom Brady e o veterano da NBA Paul Pearce cutucando a categoria “obeso”, e um estudo do início deste ano descobrindo que 34,4 milhões de americanos com “sobrepeso” e 19,8 milhões de “obesos” estão na verdade saudáveis, com base em uma série de marcadores de saúde cardio-metabólicos.

Aparentemente, o índice de massa corporal deve ser no mínimo reconsiderado. “47% das pessoas na categoria sobrepeso do IMC estão perfeitamente saudáveis”, diz Jeffrey Fome, da Universidade da Califórnia, Santa Barbara (EUA), que fez parte dos resultados do início do ano. “Então, utilizar o IMC como uma garantia de saúde – especialmente para todos dentro dessa categoria – é simplesmente incorreto. Nosso estudo deve ser o último prego no caixão do IMC”, sentenciou ele.

A mudança que Nordestgaard e sua equipe descobriram neste estudo mais recente pode significar quantos dos riscos de saúde associados com um maior peso, como colesterol alto e pressão arterial elevada, são mais eficazmente diagnosticados e tratados agora do que eram há 40 anos. “Então talvez você possa estar acima do peso, se você tem [essas condições] tratadas”, diz Esther Landhuis.

Limitações

O estudo tem suas limitações – enquanto as 100.000 pessoas analisadas são consideradas uma boa representação da população de Copenhague, o grupo consiste principalmente de pessoas brancas, por isso não pode-se dizer o que esses resultados poderiam significar para as pessoas com outras características.

“Uma fração substancial dos asiáticos, por exemplo, desenvolve diabetes tipo 2 e doenças do coração, apesar de terem um IMC menor do que o ponto de corte existente para o excesso de peso”, Landhuis ressalta.

Mas isso não muda o fato de que ele concorda com o que uma série de estudos tem sugerido – a quantidade de tempo que uma pessoa vive é algo muito mais complicado do que a proporção de quilos por centímetros que ela tem em seu corpo.

“Em um estudo com pacientes com diabetes do tipo 2, aqueles com peso normal quando diagnosticados tinham mais probabilidade de morrer do que aqueles que estavam acima do peso ou obesos. E uma meta-análise de 97 estudos de 2013 descobriu que o excesso de peso estava associado a um menor risco de morte do que ter um IMC normal – uma descoberta surpreendente que ecoou um estudo de 2005 feito pelos mesmos pesquisadores”, explica Landhuis.

A medida que mais estudos como estes são publicados, uma abordagem mais personalizada para a saúde nas próximas décadas é esperada, de modo que não acabe se concentrando nas coisas erradas quando se trata de o que é melhor para um indivíduo. [Science Alert]

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